O diretor espanhol e a cultura do estupro

– Para mim, é um alívio quando o Almodóvar não faz um filme em que o herói, a vítima, é um estuprador.
Foi a resposta que ouvi de uma grande amiga, na saída da sessão de Julieta, novo filme do diretor espanhol. Esta amiga anda preocupada e atenta com o que está se chamando “a cultura do estupro” – um construto social e cultural que avalisa a violência contra a mulher. Uma aparentemente inofensiva propaganda de cosméticos onde a modelo posa deitada no chão enquanto homens a cercam, com a expressão de “você está tão bela que nós queremos todos pular em cima de você no chão” – peça divulgada na revista Vogue americana no mês passado – é cúmplice dessa cultura.

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Todas as mulheres de Almodóvar são desejáveis ao ponto de suscitar em homens a vontade de estuprá-las.
E assim, de fato, acontece em Fale com ela, quando o enfermeiro Benigno (que nome!) estupra sua paciente em coma.
Assim, também, acontece com Kika, onde a personagem é estuprada durante 15 minutos e Almodóvar constrói a cena como uma comédia. Nos faz rir do estupro.
É assim com Ata-me, quando Victoria Abril é estuprada por Antonio Banderas.
Em Volver, a filha de Raimunda (Penélope Cruz) mata o padrasto para não ser violentada por ele; Raimunda, por sua vez, confessa para a mãe que foi violentada e engravidou do próprio pai, por isso deixou sua cidade.
É assim com A pele que habito, quando a filha de Roberto (Antonio Banderas) é estuprada por Vicente (Jan Cornet), que será sequestrado pelo pai da vítima e transformado em mulher (Elena Anaya) através de uma vaginoplastia.
– Os heróis dos filmes de Almodóvar são homens que estupram mulheres – comentou esta minha amiga. – O diretor nos faz ter piedade do estupro e do estuprador. E para, ele, o único estupro condenável é o estupro contra homens.
Vicente, em A pele que habito, é estuprado por vingança por Roberto. Gael Garcia Bernal (Angel/Juan/Zahara) é estuprado por padres católicos em Má educação.
Pedro Almodóvar é, certamente, o cineasta mais adorado por mulheres feministas.
Mas, seria ele, na verdade o mais misógino dos cineastas vivos?
Todo homem – eu inclusive – é misógino. 99% das mulheres, também, por reproduzirem sem se dar conta o discurso misógino.
Filmes como Julieta, Abraços partidos, Amantes passageiros , que não contém estupros, são considerados seus filmes menores.
Provavelmente Almodóvar alimenta a cultura do estupro sem se dar conta.  Como todos nós. Isso o absolviria? No mínimo o submeteria a julgamento. Meu, seu que lê este texto e, certamente, o do próprio.
Uma das belezas de Julieta é um de seus cartazes, onde a personagem mais velha, a do presente, pousa o dedo sobre os lábios da personagem do passado, silenciando-a. Silenciando-se.
O título do filme era “Silêncio”, até que o diretor Martin Scorsese apareceu com um projeto com o mesmo nome.
Talvez esteja na hora de quebrá-lo.