Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente, a minha própria vida.


Clarice Lispector, Um sopro de vida

A um mês de completar 84 anos, você lança o 23º título e provoca a retomada da nossa conversa*. Intramuros sai pela sua própria editora, Casa Lygia Bojunga, cujo primeiro lançamento resgatou sua leitora que morava em mim desde os anos setenta. Foi nos primeiros dias de 2003, quando li que você participaria de uma Roda de Leitura, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com o novo livro Retratos de Carolina. Fazia mais de dez anos que eu tinha te visto no monólogo “Fazendo Ana Paz”. Eu não sabia como você estaria, nunca mais tinha te lido, eu estava por foríssima.
Engraçado que ainda hoje me lembro desse dia sempre que passo em frente à padaria da Rua 1o de Março aonde entrei, senha no bolso, para tomar um café e fumar um cigarro (que pena que eu fumava!). Em seguida voltei para o CCBB e me sentei numa escada cheia de gente sentada, todo mundo com a senha, e comecei a ver muitos ex-meninas e ex-meninos bem da minha idade, algumas caras conhecidas, era gente que eu não conhecia propriamente, mas de vista, eu fui te ver e me vi no meio da minha geração, e que coisa gostosa, Lygia!
Continuou gostoso lá dentro. A gente entrou, quem coordenava essas “rodas” era a Suzana Vargas, mas eu ainda não a conhecia. Quando te vi, te achei tão linda, com uma aparência mais leve, mais feliz, fiquei muito feliz por te ver. Você começou a apresentação, vi que ia me emocionar, e lá não era um teatro onde a plateia fica no escuro. O ambiente era pequeno e iluminado. Logo notei que meus olhos jorravam água. Ih, Lygia, me deu uma choradeira e aí percebi uma fungação, um tosse-tosse. Olho para os lados e vejo que está quase todo mundo aos prantos. Não fui só eu, aliás, na plateia tinha ainda mulheres com idade para serem mães de seus leitores.

Você também estava emocionada. Naquele dia rolou uma química naquela sala, uma coisa fortíssima. Quando partimos para a conversa, realmente era uma afinidade tão grande entre todo mundo, e você contava como estava difícil pôr a sua editora para funcionar, e o pessoal dizia que não encontrava Retratos de Carolina para comprar em lugar nenhum, lembro bem quando você fez uma pausa e disse: “Pra vocês verem como a distribuição está ruim…”. E todo mundo ria muito, e todo mundo feliz. No fim comprei o livro e peguei seu autógrafo.

Comunicar-se

lygia_bojunga_15_300dpi
Estava mesmo precisando te ver. Sabe quando o Jota Crocodilo recupera o rabo que tinha vendido? Você conta em Angélica: “No quarto andar, o Jota viu um espelho lá no fundo do restaurante e não resistiu: largou o jantar e foi pra frente do espelho se admirar. Estava tão feliz de ter se juntado outra vez com um pedaço dele!” (Bojunga, 2005, p.151). Pois, naquele dia no CCBB, reencontrei meu-pedaço-sua-leitora. É complicado usar certas palavras que adquiriram um peso passadista: termos como “identidade”, “formação”, “pedagógico” e “cronológico” podem incomodar leitores mais impacientes. As palavras desgastadas, porém, ganham outro tom se lidas de forma renovada. A sua literatura toma parte, sim, na minha formação, na formação da minha identidade – que nunca acaba de se formar – e tem um efeito pedagógico, ora, no sentido literal da palavra. Afinal, como certa vez me disse a professora Eliana Yunes, você me pegou pela mão em torno dos sete anos e nunca mais largou. Naquele dia, no CCBB, tive a surpresa de ver como você se mantinha uma escritora para a minha geração. Eu que andava distraída! Desde então, volta e meia quero dar Retratos… para minhas amigas queridas.

Na orelha, você se refere à criação da Casa Lygia Bojunga, onde se inclui a editora, como uma investigação: “Essa Casa eu destinei à investigação, à experimentação. Eu queria investigar, por exemplo, se era ou não possível encontrar um caminho genuinamente meu para voltar ao palco”. Lygia, você usa muito o adjetivo genuíno para referir-se ao que faz. Com ele você quer dizer o quê? Sem a interferência das máquinas, da mídia, do outro, de manipulações…? Quando usa essa palavra, como na passagem acima, você me faz lembrar o artigo “Escrita de si” (1992), onde Foucault sugere “uma vida de autoria de si mesmo”. Resistindo às tecnologias modernas que interferem nas subjetividades, o sujeito faria coincidir o que diz com o que faz e tornaria a própria vida uma obra de arte. É o que você quer?
Parece. Seu esforço de expressão é imenso, basta ver que até o projeto gráfico contribui para falar de você. E fez todos os livros muito parecidos: são amarelos na moldura da capa, no dorso e na contracapa, as letras são todas pretas e os desenhos da capa, quando não têm cores fortes, são em preto e branco. A diagramação do texto do miolo também jamais muda: o tipo usado é o Centaur, no corpo 12,5 ou 13,5. As ilustrações são escassas e os parágrafos alinhados somente à direita.
À primeira vista, parece que falta mobilização no trabalho de sedução do consumidor que frequenta livrarias. Por outro lado, esta pode ser a forma de sedução própria à mulher que mora nos livros, não pode?
Acho que sim. Acho que a segunda hipótese é mais a sua cara. Porque a Raquel, em 1976, já escrevia cartas, isto é: treinando para ser escritora, mostra que o desejo não é de apenas criar histórias, mas de comunicá-las. Ao não obedecer às convenções do mercado contemporâneo, sem dúvida, você deixa de comunicar-se com leitores potenciais. Entretanto, é a forma escolhida para comunicar-se com os leitores reais.
Você continua a orelha de Retratos de Carolina contando que:
“Quando comecei essa nova investigação, avisei logo pro meu eu-artesanal: dessa vez é melhor você ficar de boca fechada. Mas ele é teimoso demais: quis logo bisbilhotar como é que Retratos de Carolina virava objeto-livro, e acabou se metendo a fazer letra de capa, de folha de rosto, de abertura de capítulo e não sei que mais. E, se fosse coisa de dizer que ele tem letra caprichada! Mas nem isso. Paciência: ele é mais forte do que eu”. (Bojunga, 2002)

Lygia, querida, ultrapassando seus limites de autora, aproveitando cada oportunidade para se expressar, dizendo que é quem mora nos livros, você cria um registro autobiográfico de feições muito específicas… A proposta de Foucault em “Escrita de si” não é uma equação onde eu pretenda te encaixar… Mas eu me inspiro nela para apostar que, ao ir morar nos seus livros dessa forma tão pronunciada, você esteja tentando, o mais possível, fazer coincidir o que faz e o que diz… Você está apostando na possibilidade de ser a autora de si mesma, Lygia… Como faz Carolina, ao reformar sua primeira morada com as próprias mãos. Eis mais uma expressão para ressemantizar: “literatura de autoajuda”. Sim, seus livros me servem de autoajuda. Quantas vezes, lembrando as decisões dos seus personagens, sinto-me incentivada a tomar as minhas!

Os retratos

retratos_carolina_300dpi livro_um_encontro_300dpi angelica_300dpi
No primeiro, a trama envolve a protagonista e sua melhor amiga, ambas aos seis anos. As quase quarenta páginas, se editadas em separado, poderiam ser um livro infantil. No segundo, Carolina, 15 anos, em férias com os pais, poderia estar num livro juvenil. Esse começo não justifica, porém, a distinção de Altamente Recomendável para o Jovem, da FNLIJ. Os dois primeiros capítulos são apenas a apresentação do que você vai contar: Carolina dos 20 aos 25 anos. São seis retratos, ano a ano, numa trama escrita para os seus leitores que se tornaram adultos.
Lygia, você veio crescendo com a gente? Pois os temas nesse livro são tratados de um ponto de vista realmente maduro: o pai da Carolina tem uma doença terminal e os dois conversam com serenidade sobre a morte iminente. Ela faz um aborto por livre e espontânea vontade, apesar de ser casada e o marido não concordar. Ela decide se separar. Antes ela tinha se casado com o namorado da melhor amiga… Enfim, o livro pode ser lido por adolescentes, claro, mas como a maioria dos livros considerados para adultos também podem, ora.
Essa foi a estreia editorial da Casa e, como tal, serviu de teste para as produções seguintes. Alguns elementos não viriam a se repetir: o material da capa, que logo ficou manchado; os tipos da capa e da contracapa e a reprodução de uma letra cursiva não muito caprichada nos títulos de cada capítulo.
Quanto ao texto, desta vez o “Pra você que me lê” ficou no meio da história. Ou melhor, era para o livro ter acabado antes dele, mas a personagem não ficou satisfeita com o fim da história e exigiu que você fizesse mais um “retrato”. Depois de muito ela insistir, você acabou topando: fez “Carolina aos vinte e nove anos”. Já te disse que esse é o meu seu livro preferido. Pois esse “Pra você…” também é o meu preferido entre todos. Ficou bonito. Misturou diálogo (seu com a personagem), escrita íntima da personagem e descrição de uma das suas casas, a de praia. Então, você faz uma pausa de algumas linhas para introduzir a cena da despedida entre vocês duas. Lindo.

Partidas

lygia_bojunga_10_300dpi
Retomando: você diz que, em criança, se divertia construindo com livros. Continuou construindo em adulta, não casas, mas histórias. Entre outras, constrói com livros a história de uma escritora que se confunde com a autora (Em Paisagem, de 1992, a personagem fala, inclusive, sobre a própria escritura). Então, entre a Lygia ficcional, que se lê nos livros, e a figura pública de Lygia Bojunga, parece haver uma relação de negociação. Essa relação, porém, ora tende à contradição.
Por um lado, você trata, nos enredos de seus livros, de questões contemporâneas, como o divórcio e o direito ao aborto. Além disso, a partir de 2002, desdobra-se na função editorial, essencialmente mercadológica. Por outro lado, ao escrever sobre si, fala de alguém que não aceita as mudanças de comportamento propiciadas pelo acelerado desenvolvimento tecnológico próprio à modernidade e, ao publicar-se, parece ignorar ferramentas do marketing contemporâneo.
A questão autobiográfica atravessa a obra, claramente, a partir de Livro, um encontro (1988). Então, ao recuperar sua história de leitora e de escritora, você destaca o momento em que deixou de escrever para a televisão para voltar a ser “artesã”. Diz que passou a fazer literatura quando “deu pra ruminar o jeito que tinha”:

“[….] afinal de contas, ano atrás de ano eu ia seguindo o jeito-modelo, toda esquecida que escrita é feito gente, cada uma tem um jeito, igualzinha ninguém é, graças a deus; e de tanto eu ver jeito-modelo na tevê, na revista e no jornal, eu tinha acabado sem me lembrar de prestar atenção, quanto mais de procurar! qual era o jeito que eu tinha, não só de escrever, mas de tudo também, de comer, de morar, de amar, de criar.
Foi quando eu dei pra ruminar o jeito que eu tinha, que eu comecei a namorar a ideia de escrever livro.” (Bojunga, 1988, p.50)

A segunda vez em que se evidencia a Lygia-personagem é no romance Fazendo Ana Paz (1991). Essa é a típica história de uma escritura, pois se mistura, à narrativa da vida de Ana, o seu empenho em criá-la. Mais tarde, em Feito à mão (1999), você conta a aventura de ter feito um livro o mais à mão possível, já concebido para uma temporada de “mambembadas” (como você batizou suas apresentações teatrais). Lenta, a tarefa entra em conflito com a agenda do mercado editorial.
Já nesse Retratos de Carolina, a protagonista não aceita o final dado à história. A narradora, então, conversa com a protagonista e deixa claro ser também a criadora da menina Raquel, de A bolsa amarela (1976). Para completar, afirma que está descrevendo suas “moradas” pela segunda vez, a primeira tendo sido em Feito à mão. Assim, a narradora que contracena com a personagem em Retratos… revela ser a mulher que mora nos livros. Não a própria Lygia, em carne e osso, mas a Lygia que se escreve. Alguém que parece procurar, dia a dia, a coincidência entre personagem da autora e autora empírica.
Quanto à estrutura da narrativa, Retratos de Carolina pode ser lido em analogia com sua obra completa, que seriam retratos seus. É como se a estrutura desse romance se repetisse na obra como um todo, contando sua história de vida. E, sendo a sua história de escritora, é também a minha história de sua leitora, claro, pois só tenho acesso às suas palavras que eu leio. E te ler nunca termina!
Ao ler Retratos de Carolina pela primeira vez, recuperei a memória de um jeito de ser, pensar e ler – na infância e na adolescência –, ao mesmo tempo em que tive acesso a uma trama cheia de detalhes em comum com fatos vividos por mim depois de adulta. Será que você me adivinha? Eu não gosto é do último retrato e não tenho razão nenhuma para isso, apenas preferia que o livro tivesse acabado com Carolina aos 25 anos. Achei uma conversa tão inverossímil a da Carolina com a Priscilla… Não gostei. O “Pra você…” não dispenso, mas você não precisava ter cedido à insistência da Carolina.
Você pode estar pensando: “Mas se ela não gosta do livro preferido inteiro, imagina o que acha dos outros…” Um instantinho. Agradam-me as falhas que se nos apresentam sem disfarces: peitos que caem, rugas que cavam, estrias que lembram… Tá, confesso que celulite eu dispensaria. Mas Retratos de Carolina é o meu seu livro preferido desse jeitinho que está, com o último retrato inverossímil e nesta edição comprada aquele dia.
Quanto ao novo Intramuros, você o anunciou há seis anos, me deixando curiosa para ler. Imagina minha curiosidade agora! Ainda não tive acesso senão à imagem da capa, ilustrada por sua fotografia atual, sugerindo a reincidência do tom autobiográfico. Parece então ser mais um volume do seu grande romance que eu leio, o novo pedaço da história da mulher para quem escrevo, e que mora nos livros. Lygia, você sabe: sua autobiografia me costura.

Impossível jogar luz em sua vida sem iluminar, aqui ou lá, a dos outros.
(Simone de Beauvoir, A força da idade)

Para ler a bibliografia selecionada pela autora do ensaio, clique aqui.