Raízes do Brasil (1) (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, e El laberinto de la soledad(2) (1950), de Octavio Paz, marcam nas respectivas culturas nacionais o fim do saber literário como fundamento primordial das grandes interpretações da América Latina. O longo intervalo entre a publicação da primeira edição de um livro e do outro, 14 anos, se explica principalmente por um motivo de ordem biográfico e menos por uma razão de fundo. Sérgio nasceu em 1902 e Paz em 1914.
Sérgio fez parte do núcleo inicial do movimento modernista, co-diretor que foi, com Prudente de Morais, neto, da revista Estética (1924), sucessora de Klaxon (1922). Teve, portanto, sua formação cultural incentivada e circunscrita por aquele movimento de vanguarda, cujo forte é a arte literária. Conforme nos informa Pedro Dantas (pseudônimo de Prudente de Morais, neto), o modelo confessado de Estética era a revista literária inglesa The Criterion, fundada por T. S. Eliot em 1922. No primeiro número de Estética (3), Sérgio assina o ensaio “O homem essencial”, em que afirma que “o artista não limita o pensador”. E exemplifica: “Essa unidade básica, essa compenetração do homem que pensa com o homem que sente foi em grande parte o segredo de gênios como Pascal e como Goethe”. Eis os modelos declarados do jovem, a que se acrescenta o nome de Charles Péguy, autor da expressão “homem essencial”, tomada de empréstimo por Sérgio de análise que o francês fez do historiador e romancista Jules Michelet.
Ao lado de Rafael López Malo, Salvador Toscano e Arnulfo Martinez Lavalle, Paz funda aos 17 anos a revista literária Barandal (1931). Além de três poemas, Paz, que então assinava Paz Lozano, publica na revista o ensaio “Ética do artista”, onde se lê: “Es indispensable pensar que formamos parte de un continente cuya historia hemos de hacer nosotros”. Sobre os fundadores da revista, Luis Mario Schneider afirma: “Tres de ellos, de familia de escritores, de ambiente en donde la literatura era cotidiana. Dos de ellos hijos de poetas importantes en su época” (4). Por coincidência, ou não, Sérgio e Paz foram acadêmicos de Direito.
Tanto o intervalo biográfico quanto o na publicação dos livros acabam por nos alertar sobre uma mudança geopolítica de grandes proporções nos caminhos da América Latina, região que as duas interpretações pretendem compreender não só em sua extensão pré-colonial e não-ocidental, como também na extensão colonial e pós-colonial, evidentemente ocidentalizada. Vale acrescentar que a atitude nacionalista estreita, estado de espírito forte no início de ambas as carreiras artísticas, não é o norte das duas interpretações, apesar dos títulos dos livros. Até mesmo porque no intervalo que se abre entre as publicações acontece um fato global definitivo, a Segunda Grande Guerra.
Se Raízes do Brasil a antecede e por isso a desconhece, Octavio Paz entra por ela adentro através do levante militar na Espanha em 1936. A vitória dos aliados em 1945 retirou a América Latina do protetorado cultural europeu, para deixar que continuasse o seu percurso sob a mão poderosa do vizinho do norte. Até então, a doutrina Monroe (1845) apresentava-se mais como retórica preventiva contra possíveis intervenções da Espanha e de Portugal nas ex-colônias, do que como alicerce para os novos e profundos constrangimentos neocolonizadores, que se darão de maneira manifesta a partir de 1940. Os Estados Unidos da América se expandem e exportam vigilância, influência, controle e poder através da política da boa-vizinhança do presidente Roosevelt.
Nesse sentido, faz-se necessário chamar a atenção para o fato de que Sérgio tenha nascido no distante cone sul das Américas, em São Paulo, estado e cidade provincianos e modernizados pelo peso da compacta imigração europeia no período pós-escravidão e republicano. São Paulo passou a liderar a economia brasileira no século 20, graças aos contatos substantivos da agricultura e, posteriormente, da indústria com as várias nações da Europa. Confessa Antonio Candido que Sérgio e ele, em fins da década de 1920, tiveram divertidas e instrutivas aventuras germânicas (5).
Atente-se para o fato de que Octavio Paz tenha vindo à luz em país limítrofe dos Estados Unidos da América, tendo o seu pai amargado, entre 1916 e 1918, exílio em San Antonio, Texas, cidade fronteiriça que – ao lado de Los Angeles – desde sempre foi um dos berços doutrinários do movimento social dos mexican-americans. Não se pode esquecer também que, ao contrário de Sérgio, cujas primeiras experiências de viagem ao estrangeiro se limitaram à Europa, Paz teve, desde 1943, definitiva experiência norte-americana. Uma bolsa de estudos Guggenheim o levou a frequentar a Universidade de Berkeley, na Califórnia. Só depois é que entrará para o serviço diplomático, obrigado a ter comportamento de vida cosmopolita. Como se tais dados não fossem suficientes, reitera-os na abertura de El laberinto de la soledad: “Y debo confesar que muchas de las reflexiones que forman parte de este ensayo nacieron fuera de México, durante dos años de estancia en los Estados Unidos”.
Não se deve estranhar que ambos os livros comecem por um conceito clássico da teoria literária, que é o de representação, a ser imediatamente temperado pelo de desterritorialização (historicamente, da Europa e, mais recentemente, dos Estados Unidos). Bem temperado, o verbo representar passa a ter um sentido que é próprio da teoria gramatical, o de reduplicar. Sérgio afirma no parágrafo de abertura de Raízes do Brasil: “Trazendo de países distantes [da Europa] nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”.
A reduplicação das metrópoles colonial e neocolonial, ou seja, a reiteração do mesmo na América Latina exige da reflexão dos dois escritores um antigo e um novo enfrentamento pós-colonial – o estabelecimento do que possa ser a originalidade nacional do Brasil e do México no interior da possível singularidade latino-americana. Exige a resolução do paradoxo de a América Latina ter de ser o outro do mesmo para que haja a possibilidade teórica (ou imaginária) da afirmação de cada estado-nação dentro da latino-americanidade. Tanto para um pensador quanto para o outro a originalidade da(s) nova(s) coletividade(s) não é dado que se depreende de análise do Estado ou da comunidade, seja ela de fundo histórico, sociológico, econômico ou psicanalítico.
A originalidade está contraditoriamente fincada no individualismo moderno, na “cultura da personalidade”, para usar a expressão de Sérgio, ou na “afirmación de la personalidad”, para nos valer de Paz. Cultura e afirmação da personalidade determinam o fundamento romanesco e poético das interpretações em pauta. Segundo o brasileiro, a cultura da personalidade nos foi transmitida como herança da Espanha e de Portugal, os dois territórios-ponte (6) de aquém-Pireneus. Ainda segundo ele, pode-se dizer que os espanhóis e portugueses devem muito da sua originalidade nacional “pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos semelhantes no tempo e no espaço”.
Já Octavio Paz, em ritmo de sobrevivência no mundo gringo, se redescobre mexicano ao se representar a si na figura por excelência do concidadão americanizado – o pachuco. Espécie de pária em Los Angeles e, ao mesmo tempo, malandro, dândi e conquistador. Observe-se o terno extravagante que lançou como moda na América, o zoot suit, objeto do filme de igual título (1981), com Edward James Olmos, do filme Blade Runner (1982), no papel de El Pachuco (7). Já que se trata dum morador intruso nos Estados Unidos, dum desterrado às avessas, o pachuco é por isso vítima do racismo norte-americano, que já lhe surge bem adubado pela escravidão africana. Afirma Paz: “Queramos o no, estos seres son mexicanos, uno de los extremos a que puede llegar el mexicano”. Por não reivindicarem nem sua raça nem sua nacionalidade, “no han encontrado más respuesta a la hostilidad ambiente que esta exasperada afirmación de su personalidad [grifo nosso]”.
Por esse viés inusitado, Octavio Paz se define como o primeiro intelectual latino-americano a pensar a grave questão da nossa diáspora, cujo último rebento popularesco é a telenovela América (2005), de Glória Perez, produzida e exibida pela TV Globo. Acrescente-se que em outubro de 2005, quando fizemos uma pesquisa, os jornais brasileiros informavam que, por dia, uma média de setenta brasileiros era repatriada pelas autoridades portuárias norte-americanas. E semanas depois o Departamento de Justiça norte-americano informava que iria pôr em prática um severo programa de vigilância na fronteira com o México. Hoje, com a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, o problema complicou a tal ponto que ainda é cedo para tecer comentário.
A opção pelo culto da personalidade como fundamento da interpretação carreia para o raciocínio dos intérpretes um segundo sentido para o verbo representar, de nítido alicerce literário (romanesco ou poético). Tanto a busca de Sérgio quanto a de Paz é a de eleger no catálogo informe e anárquico dos desclassificados, ou seja, dos que mantêm estatuto de colono vis-à-vis do metropolitano, alguém que é singular e, ao mesmo tempo, um tipo que venha a ser, no contexto ocidental, o mais apropriado dos possíveis representantes da atualidade civilizacional latino-americana. De acordo com a nomenclatura de E. M. Foster, em Aspects of the novel (1926), trata-se de encontrar e ser capaz de caracterizar um “round character”. Foster distingue o “round” do “flat character” e recomenda o seguinte teste para estabelecer a diferença, que por sua vez servirá para que se dê, ou não, credibilidade às invenções hermenêuticas de Sérgio e Paz: “The test of a round character is whether it is capable of surprising in a convincing way. If it never surprises, it is flat. If it does not convince, it is a flat pretending to be round”. (8)
O singular é dramatizado sob a forma de personagem literário (uma personae, uma máscara) que, ao se destacar por seu comportamento multifacetado e temperamento complexo, representa metafórica ou simbolicamente uma coletividade. No caso, representa de maneira surpreendente e convincente a singularidade nacional ou a continental, ou a ambas.
Para chegar ao “round character” latino-americano, Sérgio vale-se da contribuição linguística e filosófica oferecida pelos territórios-ponte aquém Pireneus. Em recepção direta da Europa, escuta, acata e reduplica entre nós o vocábulo castelhano “sobrancería” (sintomaticamente guardado na língua original) (9), que serve para definir a singularidade do espanhol no contexto europeu. Ao reduplicar o vocábulo, Sérgio o desterritorializa. Ao recontextualizá-lo como ferramenta descritiva aclimatada à realidade brasileira colonial, terá de encontrar o equivalente linguístico em português. Para tal tarefa, parece-nos evidente que Sérgio tenha se amparado na primeira frase de Cultura e opulência do Brasil (1711), de André João Antonil, que se lê: “O ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram […]” (10). Antonil define o senhor de engenho e o colono como semelhantes [sic], respectivamente, ao fidalgo e ao cidadão europeus. No entanto, se na Europa o título nobiliárquico é concedido pelo Rei, ou pelo próprio status familiar do indivíduo, aqui, ao se reduplicar, o título de nobreza nativa é conferido pelo texto (ainda que ele não o delegue claramente a fulano e a sicrano, mas a um determinado e minguado número de colonos). No universo de Sérgio o senhor de engenho é o barão.

De posse do equivalente, Sérgio cunha um dos seus achados mais fascinantes: “Em terra onde todos são barões [grifo nosso] não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”. Além de ser visível traço estóico que configura o navegante, o fundador e o civilizador, a sobrancería é também fundamento político da classe senhorial latino-americana, no caso, da classe senhorial brasileira. Acrescenta Sérgio: “A falta de coesão em nossa vida social não representa, assim, um fenômeno moderno”. O culto da personalidade reclama a mão de ferro administrativa. Daí a observação sempre atual de Sérgio sobre as nações ibéricas: nelas “predominou, incessantemente, o tipo de organização política artificialmente mantida por uma força exterior que, nos tempos modernos, encontrou uma das suas formas características nas ditaduras militares”. Faz sentido complementar a leitura de Raízes do Brasil com Mandonismo local na vida política brasileira (1965), ensaio de sociologia política de Maria Isaura Pereira de Queiroz.
Ao contrário de Sérgio, Paz se autodefine pelo outro extremo na hierarquia social. Elege o mais deserdado entre os ex-colonos mexicanos. No seu ensaio dramatiza o desclassificado que, pelas circunstâncias sócio-econômicas desfavoráveis na própria terra, é obrigado a deixar a nação. Atravessa o Rio Grande, muitas vezes a nado, no desejo de emigrar para a metrópole, muitas vezes de maneira ilegal. Torna-se desterrado nos Estados Unidos da América. Lá será reconhecido pelo racismo como campesino, bracero ou wet back, dependendo do contexto e do grau de hostilidade ambiente ou legal.
Octavio Paz traz corajosamente para o palco da representação ensaística latino-americana um toque de classe às avessas. Ao invocar o pachuco e a ele identificar o mexicano de quatro costados, o ensaísta se filia internamente à novela da revolução mexicana, de que pode ser exemplo Los de abajo (1915), de Mariano Azuela, e externamente torna-se precursor das teorias pós-colonialistas que elegeram, a partir dos anos 1980, a figura do subalterno como o personagem nobre da latino-americanidade e o testimonio como a forma literária que convinha à representação do seu drama. (11)
As raizes e o labirinto (1)
O investimento social do ensaísta mexicano na “afirmação da personalidade” do deserdado encontra dois personagens paralelos na literatura brasileira que lhe é contemporânea. Os migrantes Fabiano do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, e Severino do longo poema dramático Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. No caso de Octavio Paz a eleição do pachuco pode remontar aos ensinamentos políticos do pai, um zapatista confesso. Informa Luís Mario Schneider: “Afiliado al agrarismo de Emiliano Zapata desde los primeros instantes de la Revolución, [o pai de Octavio Paz] pasó al poco tiempo a ser agente y destacado propagandista del caudillo del Sur”. Pode também remontar à viagem que o poeta fez à miserável península de Yucatán em 1937, já envolvido pelas ideias revolucionárias que o tinham levado à Espanha. Em artigo intitulado “Notas”, na época publicado no jornal El Nacional e citado por Schneider, Paz afirma: “Pero cuando los grandes hacendados hablan de las notas que singularizan a la economía y a la vida peninsular y gritan la necesidad de yucatanizar a Yucatán, nosotros sabemos que lo que en realidad quieren es manos libres para la venta del suelo y sus productos al imperialismo”(12).
Seria o modelo colonial europeu – evidente na imagem das “fronteiras” de Sérgio (13) – menos injusto para o latino-americano do que o modelo neocolonial norte-americano – evidente na imagem dos “extremos” de Paz?
Para ambos, o latino-americano só o é na experiência dos extremos sociais. O barão, navegante, fundador e civilizador, e o pachuco, deserdado, migrante e pária. É ali e lá que se pode encontrar e ser analisada a sua singularidade em relação ao colonialismo europeu e ao neocolonialismo norte-americano. Quanto mais o personagem eleito se distancia do modelo, mais afia os dentes da retórica para se aproximar do original. Quanto mais afia os dentes da retórica para se aproximar do modelo, mais exibe a singularidade a todos, vale dizer, a sua originalidade nos hierarquizados contextos ocidental, continental e nacional. Tudo se passa num processo que se direciona para os extremos da dupla e consolidada colonização da América Latina. Ao descrever o temperamento do pachuco, Paz surpreende o corre-corre pendular como impulso que se nega a si, nó de contradições e enigma: “Todo en él es impulso que se niega a sí mismo, nudo de contradicciones, enigma”.

Confira aqui as notas do ensaio de Silviano Santiago.