Com 3 mil metros de altitude e céu cristalino, o Deserto de Atacama, no Chile, é um dos mais concorridos centros de observação astronômica do planeta. À região também convergem muitos arqueólogos, que buscam na secura do solo relíquias do passado pré-colombiano. A grande sacada do cineasta Patricio Guzmán, em Nostalgia da luz  é aproximar esses dois polos da ciência para tratar de um tema candente da história chilena e – por que não dizer – sul-americana: a questão dos desaparecidos políticos. O filme passou rapidamente pelos cinemas brasileiros, mas o Instituto Moreira Salles (IMS) acaba de lançá-lo em DVD.

Ao longo da árida paisagem, um grupo de mulheres cava a areia com pequenas pás. Estão atrás de fragmentos de ossos dos parentes enterrados ali, há mais de três décadas. Nas sequências que revelam esse delicado trabalho de garimpagem, Guzmán aproxima as três pontas de seu documentário. Transforma o deserto em uma alegoria do tempo.

“Como explicar que os ossos humanos são iguais a certos asteroides? Que o cálcio de nossos ossos é o mesmo cálcio encontrado nas estrelas”, pergunta-se o diretor. “Como é possível que os astrônomos chilenos olhem para as estrelas que estão a milhões de anos luz no passado e que nas escolas não seja possível ler nos livros o que se passou no Chile há apenas 30 anos?”, insiste.

Se em A batalha do Chile, notável investigação de Guzmán sobre o fim do governo Allende, o registro tinha caráter mais jornalístico, A nostalgia da luz aproxima-se do ensaio, e da poesia, para refletir sobre a memória.

Na caprichada edição do DVD lançado pelo IMS, o documentário vem acompanhado do livreto Entreatos, de Jorge Bodanzky, que traz anotações fotográficas das ruas e dos muros de Santiago pouco antes do golpe militar, e de um encarte com textos do crítico José Carlos Avellar e do próprio Guzmán. Em uma palavra: imperdível.