No texto abaixo, a jornalista Luciana Cabral, há 14 anos vivendo entre o Brasil e a Itália, reflete sobre a obra da escritora italiana Elsa Morante, a partir do romance A história, escrito na década de 70. A obra de Elsa, esgotada no Brasil, revela uma reflexão profunda sobre a condição da mulher ao longo do século XX, os sentimentos extremos de quem vivenciou as duas grandes guerras do século passado e questões relacionadas à maternidade e ao amor. Uma leitura essencial, em um momento em que as questões feministas voltam com força à cena.

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A jovem viúva Ida Ramunda é uma triste professora primária que cuida sozinha do seu rebelde filho Antonino quando, durante a Segunda Guerra Mundial, é estuprada por um soldado alemão. A violência da guerra sobre o seu corpo lhe oferece um outro filho, Giuseppe, frágil e sensível, com um grave diagnóstico de epilepsia.
O romance A História (La Storia), da italiana Elsa Morante (1912-1985), foi escrito entre 1971 e 1973 e publicado na Itália em 1974. No Brasil foi publicado, com tradução de Wilma Freitas Ronald de Carvalho, em 1978. É um romance que não pretende ignorar a história, mas enfrentá-la diretamente e, mais ainda, recontar os fatos a partir da vivência de indivíduos que representam as classes pobres e marginalizadas, como Ida.
A brutalidade do poder contra a simplicidade, do contraste da guerra com o comportamento dócil e puro de Giuseppe. O elemento bárbaro e primitivo da humanidade contra a bondade natural das almas simples.
Um dos temas mais explorados na obra de Elsa Morante é essa identificação do elemento bárbaro e primitivo na humanidade, como afirmam os críticos literários Carlos Sgorlon e Drude Von der Fehr. No romance, a violência e a indiferença tornam ainda mais cruel a relação entre os homens, o que faz de Giuseppe o símbolo da utopia defendida pela escritora.
A alteridade é a expressão da individualidade e do convívio em sociedade. Em A História, a alteridade da personagem Ida Ramundo é também uma proposta de representação da maternidade, a partir de diversos personagens que encarnam o “ser mãe” como um processo de construção da identidade e de expressão de si mesmo perante o outro. Essa escolha de uma mater dolorosa como protagonista do romance cria um diálogo, mesmo em silêncio, com tantas outras mães sofredoras e piedosas. Elsa Morante “convida a ver” essas mães.
Na crítica literária italiana, A História representa a retomada do romance histórico do ponto de vista da narrativa popular. O livro é ambientado nos bairros populares de Roma e é permeado por um espírito de protesto, com a exaltação dos humildes, personagens mais valorizados que os poderosos. É um romance com uma linguagem simples, com uma clara finalidade didática e demonstrativa.
A obra de Elsa Morante, no entanto, foi rotulada pela crítica da época (predominantemente masculina) como “neorrealista não engajada”, apesar de oferecer reflexões sobre as condições de participação da mulher ao longo da história, seja nos espaços públicos ou privados. No entanto, o romance é considerado hoje um clássico da narrativa italiana do século XX.
É um clássico porque permite uma experiência estética de leitura que leva o leitor à superação das limitações da escrita, à renovação de sua percepção e pode até mesmo provocar uma transformação. Tanto o texto quanto o leitor são portadores de um repertório de conhecimentos e normas sociais, éticas e culturais que interagem no momento da leitura. O leitor é capaz de dar vida ao texto principalmente pelos “vazios”, que oferecem múltiplas possibilidades de interação e de colaboração do leitor, como demonstra o teórico da literatura Wolfgang Iser.
Existem pontos de indeterminação no processo de leitura que são preenchidos pelo leitor. São negações, como a protagonista desiludida, um filho que se amolda às circunstâncias e outro filho doente, um ser frágil em um mundo de competição, de guerra e de luta. O texto se confronta com o romance histórico tradicional e seus heróis, com a narrativa romântica e as descrições burguesas. Segundo Hans Robert Jauss, no horizonte de expectativas do leitor, o romance pode provocar a assimilação e a elaboração de novos pontos de vista, como o papel da maternidade.
O lugar desse romance no contexto literário italiano insinua um tom panfletário de denúncia e reflexão sobre questões sociais e políticas que envolvem a guerra e as relações humanas, o individualismo e a desinformação.
Nas questões sociais o romance revela outro paradigma teórico, que é o uso da linguagem para a construção da alteridade dos personagens. Nas reflexões de Pierre Bourdieu sobre o poder da palavra é abordado o problema da desigualdade social e de gênero. Nessa análise, a família tem um papel essencial nos processos de desigualdade, seja na relação de gênero seja na luta por um lugar na sociedade. A família, centrada na educação e na promoção social das crianças, implica na divisão desigual entre os papéis dos homens e das mulheres. A mulher e a infância. A identidade feminina da protagonista é um aspecto essencial na proposta do romance, assim como a criança enfraquecida pelas crueldades da história (tanto da sua quanto pela história da humanidade).
As condições sociais e a eficácia do discurso ritual determinam também as oportunidades que aparecem ao longo da vida. O mutismo de Ida, a fraqueza intelectual de Nino e o infantilismo da linguagem de Useppe demonstram a limitação desses personagens na luta pela sobrevivência e por um lugar na história. Eles são mais fracos porque têm limitações sociais de uso das palavras e da disponibilidade da sociedade em encontrar condições favoráveis ao crescimento pessoal.
A reflexão sobre o poder das palavras não pode deixar de lado a questão do uso da linguagem e das suas condições sociais de uso. Bourdieu afirma que o poder das palavras é aquele delegado a quem tem a palavra, à natureza do discurso e à maneira de falar. Elsa Morante dedicou seu livro aos leitores implicitamente analfabetos. Um leitor implícito é aquele que pode e quer ler além do que está impresso no papel, que tem capacidade de elaboração de uma realidade que muitas vezes não se revela nos fatos. A História foi escrito a partir do ponto de vista dos excluídos e o argumento da maternidade é usado para defender o papel feminino na determinação do percurso intelectual e cultural dos indivíduos.
Ao escrever A História, Elsa Morante deu voz aos oprimidos na sociedade italiana, denunciando principalmente a desvalorização do papel da mulher. Segundo o crítico italiano Mario Sansone, no desenho histórico da literatura italiana Elsa Morante antes era uma escritora essencialmente voltada para o sabor mágico das palavras, para o puro exercício da arte fora de qualquer ligação com o real. Nas suas histórias, personagens e paisagens eram envolvidos por uma atmosfera mítica, atraídos irresistivelmente pela veia lírico-fantástica da narradora.
O romance quebra esse percurso. No entanto, preserva elementos comuns na bibliografia de Elsa Morante, como o tom lírico das descrições, o tema da loucura e, principalmente, a figura da mãe e sua relação com os filhos, como é possível observar em outros romances como Mezogna e Sortilegio (1948), Aracoeli (1982) e A ilha de Arturo (L´Isola di Arturo) (1957). A maternidade, não experimentada na sua vida pessoal, será um tema muito abordado na narrativa da escritora e que aparece como tema central em A História.
Segundo a análise de Carlo Sgorlon, Elsa Morante conseguiu narrar em tom de fábula fatos culturais e históricos. Sua literatura é um elemento de reflexão sobre a realidade e por isso a crítica literária italiana identificava em Elsa uma escritora que se serve da narrativa ficcional como pretexto para uma interpretação ensaísta e ideológica. A própria Elsa Morante afirmava que no seu processo criativo usava suas histórias pessoais para interpretar o real.
De acordo com o crítico italiano Cesare Garboli, o amor é a temática central em Elsa Morante e ele aparece como uma espécie de síndrome, quase sempre ligado a uma relação doentia entre as pessoas. Esse amor é uma paixão sublime, mas infectada. O contexto social aparece como um fato do qual não se pode escapar. A tese presente em quase todos os romances de Elsa Morante é que o amor nasce, vive e se nutre do condicionamento social.