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O compositor e cantor Chico Buarque resolveu pedir extrajudicialmente a retirada de sua música Roda viva do programa homônimo. Isso depois da entrevista com contornos de programa instituicional exibida há duas semanas com o presidente ilegítimo, Michel Temer. Roda viva, tão importante como canção e como peça durante a ditadura, reassume o papel catalisador e simbólico que apenas as grandes obras de arte conseguem atingir.

É impressionante a capacidade que Chico Buarque tem de ser uma espécie de ímã da História, de atrair para si os episódios que podem recontar os acontecimentos de uma época. Nos anos 1960, foi assim com o estouro da A banda; a vaia a Sabiá, a mais linda canção do exílio de todos os tempos; as surras no elenco de Roda viva durante a ditadura militar;  na letra-síntese de Apesar de você; no microfone calado em Cálice, parceria com Gilberto Gil (que aqui lembra como a letra foi feita e o momento em que o som da apresentação de Chico e Gil é cortado, em 1973).

Foi assim na reabertura política, com Vai passar, e tem sido assim também nos últimos meses. Firme em sua  luta pela democracia, pela justiça e pela liberdade de expressão, Chico sofreu perseguição e ataque nas ruas por apoiar a presidente Dilma; brigou com o diretor Claudio Botelho depois que ele  ofendeu a plateia de um musical com canções de sua autoria usando de preconceito social, racial e político; e agora opta pela retira de Roda viva de um lugar de visibilidade, mas que não pode estar mais associado a essa canção e a sua valiosa história.

Chico é uma antena parabólica de acontecimentos.  “Peso mais pesado não existe não”, e por vezes deve ser muito difícil carregar o fardo desse imenso talento. Mas, saindo de uma citação de Bandeira para outra, de Guimarães Rosa,  “a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Chico tem de sobra.