Carrie, a princesa que queria muito mais

Anteontem à noite, comprovando que a indesejada das gentes não está com a menor vontade de reduzir a carga de trabalho em 2016, recebi a notícia da morte de Carrie Fisher, aos 60 anos. Mundialmente conhecida por seu icônico papel em Star Wars, a atriz teve uma vida conturbada depois de ser alçada à fama hollywoodiana – ela sofria de transtorno bipolar, lutou durante anos contra o vício em drogas e álcool, e explorou esses temas com coragem e sinceridade em sua prolífica produção como escritora e roteirista. Sua atuação como ativista da saúde mental fez a diferença para muitas pessoas, mas estou aqui para falar da faceta de Fisher que mais impactou a minha vida – seu papel como a rebelde, diplomata, política, comandante militar e, ah, também princesa, Leia.

Antes de falar de Leia, quero falar da princesa, figura muito presente na vida das meninas desde bem cedo. A princesa é sempre bonita, muitas vezes loira, quase sempre branca, sempre usa uns vestidos bufantes. Dá para ver que ela não costuma brincar lá fora ou subir em árvores. A princesa é educada, comedida, bem-comportada, e sua principal atividade é esperar a vinda do príncipe encantado, que é quem traz o “felizes para sempre” no alforje do cavalo branco.

CARRIE FISHER como General Ohana no último filme da saga

Carrie Fisher como General Organa no último filme da saga

Às meninas é oferecida a brincadeira de princesa, mas os meninos brincam de príncipe? Eles estão ocupados demais construindo coisas com Lego, correndo por aí, jogando bola, brincando de nave espacial ou de carrinho, explorando o fundo do mar ou destruindo monstros de outra dimensão. Isso se atenderem aos estereótipos que esperam deles, é claro. Para eles, vale tudo o que couber na imaginação. Para elas, a imaginação fica contida na domesticidade da vida de princesa ou das brincadeiras de casinha – uma introdução precoce ao papel de “bela, recatada e do lar” com que a sociedade espera que elas se contentem de maneira pacífica quando mais velhas.

Corta para Leia Organa. Ela é princesa duas vezes: filha biológica da rainha Amidala, de Naboo, precisou ter sua identidade mantida em segredo e foi adotada por outra rainha, Breha, de Alderaan. Mesmo sendo princesa duas vezes, ela não fala, não se comporta e não parece o tipo de princesa com o qual fomos acostumados. Eu tinha uns 10 anos quando vi Star Wars: uma nova esperança, e lembro do estranhamento inicial ao ver Carrie Fisher em ação. “Essa moça não parece uma princesa. Ela não é loira, ela não tem olhos azuis, ela não é uma beldade. Cadê a coroa, cadê o vestido de baile?”. O estranhamento durou pouco e deu lugar a um deslumbramento com ares de descoberta: na minha mente pueril, Leia era o que conseguiríamos se vestíssemos uma roupa de princesa e abríssemos a caixa de brinquedos destinados aos meninos. Ela atira com armas de laser, pilota naves, viaja entre planetas, lidera uma revolução. Ela parece não ter tempo para as atividades de princesa, porque ela escolheu outro caminho para a sua vida – e, se acaba conhecendo seu príncipe encantado na figura do amável canalha Han Solo, é quase por acaso. Han estava ali, no meio da aventura interplanetária que ela estava vivendo; não tem o papel de salvá-la ou resgatá-la. Ser princesa é apenas uma pequena faceta da identidade de Leia, tanto que ela chega ao mais recente filme da sequência original de Star Wars como general Organa.

Pode parecer bobagem para quem nasceu e cresceu ouvindo que o mundo é deles, está aí para ser conquistado e desbravado, mas para quem nasceu e cresceu ouvindo que uma moça deve ser bonita e silenciosa, que uma menina tem que ser esperta, mas não mostrar muito (em pleno século 21, ainda ouvimos isso);  é super revolucionário ver uma mulher princesa rejeitando esse estereótipo, ao ser tão ativa, inteligente e destemida quanto suas contrapartes masculinas. Como tantas outras, eu também não era loira, não tinha olhas azuis e não era um padrão de beldade aos 10 anos, mas ali estava uma princesa com a qual eu conseguia me identificar. Leia me ensinou que ser princesa não era tudo, já que ela mesma estava empenhada em missões maiores: viver uma vida de aventura, mobilizar a Aliança Rebelde, lutar contra o fascista Império Galáctico e exercer o protagonismo em todas as coisas que fazia.

'Alien' estreou em 1979, com uma protagonista longe do s estereótipos

‘Alien’ estreou em 1979, com outra protagonista longe dos estereótipos

Sem nunca dizer a palavra “feminismo”, Leia se tornou um ícone feminista ao longo dos anos (bem como Ellen Ripley, protagonista de Sigourney Weaver em Alien, que estrearia em 1979, dois anos depois do primeiro filme de Star Wars) simplesmente por se atrever a fazer as coisas que “os meninos” faziam, abrindo espaço na aventura/ficção científica para o surgimento de outras personagens femininas fortes, multifacetadas e cada vez mais interessadas em perseguir outros objetivos além do príncipe encantado. Quase 40 anos depois de Leia, pudemos ter Rey, protagonista do Star Wars mais recente, que causou certo espanto ao chegar ao fim do filme sem ter se envolvido romanticamente com ninguém. Bom pra você, Rey, sua aventureira maravilhosa – e bom para todas nós. Mas isso é um assunto para outra hora.

Assim como Fisher, Leia teve uma vida difícil (o Episódio VII de Star Wars partiu o nosso coração, né não?). Assim com Leia, Fisher talvez não tenha tido um “felizes para sempre”. Mas fizeram com que milhões de mulheres se sentissem inspiradas e validadas a fazer o mesmo.

E mais:

+ Mãe de Carrie Fisher, a atriz Debbie Reynolds morreu um dia depois da filha e protagonizou uma das maiores cenas de cinema de todos os tempos. Leia aqui.

+ Exposição em Londres mostra objetos, curiosidades e bastidores da saga Star Wars.  Leia aqui.