A escola de samba Império Serrano está comemorando os seus 70 anos, celebrados no último dia 23 de março, com um ano inteirinho de posts sobre sua história. Um grupo de colaboradores tem escrito os textos da série #Imperio70, que são publicados na página do Império no Facebook. Está bonito de ver, ouvir e ler. Abaixo, o post do jornalista Carlos Gil, âncora da transmissão de carnaval da Rede Globo do desfile do Grupo de Acesso, sobre a resistência do Império à ditadura militar brasileira.

Heróica liberdade

(Texto de Carlos Gil)

Você, que tem acompanhado aqui pela página oficial da escola a história dos primórdios, dos primeiros passos do Reizinho de Madureira.

Você, que fã das escolas de samba, já havia se dado conta dessa tradição imperiana de cantar a liberdade.

Você, imperiano, orgulhoso por todas as bandeiras que o povo da Serrinha já ergueu na avenida.
Para cada um de vocês, vamos viajar pelas sete décadas de amor ao samba e ao direito de ser livre.

A agremiação que nasceu para questionar o autoritarismo não titubeou em defender esse direito primordial. Nos dois primeiros enredos, homenageou um literato abolicionista e um líder “rebelde” da Inconfidência: Castro Alves e Tiradentes. O Brasil do fim dos anos 1940, quando o Império surgiu, era um Brasil recém saído de um regime totalitário, o Estado Novo de Getúlio Vargas. E, por conta dessas contradições tão nacionais, governado por um militar, Eurico Gaspar Dutra. O general que fora ministro da Guerra de Vargas e, eleito democraticamente, aos poucos restringiu algumas conquistas. Os comunistas, de parcialmente tolerados pelo antigo ditador, passaram novamente a foras da lei. E as relações com a ex-União Soviética foram cortadas no meio do mandato. Pelo menos o homem que daria nome a estrada que liga as duas maiores cidades do país – Rio de Janeiro e São Paulo – foi pé-quente no samba. O lendário tetracampeonato verde e branco se deu durante o governo Dutra (mas ele, obviamente, não teve nada a ver com isso). Também não há registro de que qualquer órgão governamental tenha tentado interferir nas escolhas dos enredos potencialmente “subversivos”.

Acontece que essa turma imperiana, que unia sindicalistas, estivadores, macumbeiros, comerciantes e quem mais quisesse chegar sempre foi chegada a uma subversão. Na década seguinte, com apoio do ex-presidente Dutra e tudo, a rapaziada que vestia verde-oliva (mas não curtia muito o branco da paz) baixou uma lei que, na prática, abria caminho para poder baixar o pau sem dar satisfação a ninguém. Em 1964, um mês e meio antes de um golpe militar que competa 53 anos entre hoje e amanhã – aconteceu na virada de um dia 31 de março, para o 1 de abril, Dia da Mentira – o Brasil foi pintado em aquarela no carnaval. As cores da avenida deram lugar ao cinza da ditadura.

A face mais repressora do golpe deu as caras no fim de 1968. A tal lei que liberava a tortura nas masmorras tinha como código duas letras e um número. AI-5. No início de 1969, no primeiro desfile pós-Ato Institucional, a audácia imperiana se fez presente. Geral sendo preso, torturado e exilado… E lá vem a turma abusada de Madureira cantar os “Heróis da liberdade”? E, o que é pior (…ou melhor, e MELHOR), com um verso no samba enredo que falava em REVOLUÇÃO! Como assim?

Foi o que perguntaram os censores do regime. Os compositores do samba-enredo (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira) foram procurados por agentes do DOPS, o temido Departamento de Ordem política e Social. Silas foi a ter com os meganhas. E mostrou que sambistas ensaboados não dão mole pra mané. Trocou “revolução” por “evolução” e ficou tudo por isso mesmo. A letra falava da luta pela liberdade em vários momentos da história brasileira. Não citava abertamente a luta que se desenrolava na cidade e no campo naquele fim dos anos 60. Os estúpidos censores se deram por satisfeitos, porque torturador não capta a poesia de passagens como “ao longe, soldados e tambores, alunos e professores, acompanhados de clarins…Cantavam assim…Já raiou a liberdade, a liberdade já raiou…” O Império fez um desfile antológico, que você vê na imagem desse post. No raiar da quarta-feira de Cinzas, um doloroso quarto lugar que, nem de longe, tira os louros de uma vitória maior. Uma vitória intangível dos nossos heróis da liberdade.

A danada da ditadura prosseguiu. E a sombra do autoritarismo ainda pesava na alma nacional quando um refrão explodiu nas rádios e, num domingo de carnaval, nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí: “Me dá, me dá, me dá o que é meu…foram vinte anos que alguém comeu”. Ali não havia meio termo. Não havia DOPS. Não havia quem calasse a voz da liberdade. Estávamos em 1986 e, no ano anterior tinham sido realizadas eleições (indiretas, diga-se) para Presidente da República. A “Nova” República vivia lua de mel (fugaz) com a população. E o Império Serrano deu voz a esse sentimento reprimido. No enredo de Renato Lage, a escola clamava pelos direitos da nação. O povo brasileiro encontrava um gênio da lâmpada que realizava seus desejos. Eu quero educação, saúde, comida na mesa, preservação da natureza, verdade, felicidade em sua extensão. Salve, salve Aluísio Machado! A parceria com Luis Carlosdo Cavaco e Jorge Nóbrega produziu mais do que um samba, um (outro) hino à liberdade. Em um ano de apresentações equilibradas, o terceiro lugar foi bom. O império estava no bolo, entre as campeãs.

Em 1987, ainda com Lage como carnavalesco, mais uma cutucada na censura, que ainda existia, não dava mais as cartas de maneira tão ostensiva. A assinatura da Anistia, em 1979, havia distendido as tensões na ditadura. No enredo sobre a comunicação, uma alegoria representava a tesoura “cortando” a língua de quem queria se expressar livremente. A apuração repetiu o resultado de 86, um terceiro lugar.

Mais uma década se passou, e o Império Serrano voltou a valorizar um ícone da luta pelos direitos do homem, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, tema do nosso primeiro quiz do #Imperio70 essa semana. O lindo samba enredo de 1996, “E verás que um filho teu não foge à luta” (Aluisio Machado, Arlindo Cruz, Lula, Beto Pernada e Índio do Império) canta a cidadania, a reforma agrária, denuncia a desigualdade social e o desperdício e convoca todo mundo a “amassar” o que é ruim e, enfim, se libertar.

Nem sempre uma boa ideia rendeu um grande desfile, é verdade. Mas o Império deu espaço a campanhas como “Ser diferente é normal” e se uniu na luta contra os preconceitos. Em 2007, no aniversário de 60 anos, lembrou que ele próprio nasceu diferente, propôs novidades, mudou a história do samba. Minha escola é meu motivo, meu maior prazer.

Prazer. Da Serrinha. Da cidade. Do Brasil. Prazer de cantar a liberdade.