Pequena introdução à obra de Dona Ivone Lara

Os sambas e curimbas de Dona Ivone Lara são definitivamente singulares. Como costuma dizer a malandragem, o mais bobo deles tira o lençol do fantasma e desmonta relógio com luva de boxe. Todos exibem melodias sinuosas e elaboradas, sem entretanto perder o poder de comunicação, e têm uma assinatura marcante, fácil de ser reconhecida. Tanto as tramas melódicas da compositora quanto os hipnóticos laraiás que ela costuma improvisar à guisa de contracantos têm alcance popularíssimo. Ainda assim, não se acham em qualquer esquina.

O segredo dessa matriz criativa tão especial talvez esteja na conjunção do talento invulgar de Dona Ivone com o rico e diverso oceano sonoro em que ela teve a chance de mergulhar, desde criança. O pai, que perdeu com pouco mais de dois anos de idade, era músico amador e tocava violão de sete cordas. A mãe, costureira, cantava muito bem e, quando solteira, frequentava os ranchos Flor do Abacate e Ameno Resedá, dos quais participava como pastora. O som que vinha do rádio de casa também era uma festa para os ouvidos da menina Ivone. Tempo dos sucessos de Sinhô, Lamartine Babo, Noel Rosa, Ismael Silva, cujos sambas e marchinhas eram cantados por Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda e Orlando Silva. Tempo também das emboladas nordestinas que faziam sucesso com os Turunas da Mauricéia, entre outros grupos.

Nascida em Botafogo, onde viveu até seus oito anos, mudou-se com a família depois para a Tijuca. Ali estudou na Escola Municipal Orsina da Fonseca, onde lecionavam música a pianista Lucília Guimarães, esposa do compositor erudito Heitor Villa-Lobos, e a soprano lírica Zaíra de Oliveira, esposa do sambista Donga. Era a época do canto orfeônico, prática de canto coral utilizada nas escolas como ferramenta para a aprendizagem de música. Seu principal entusiasta foi justamente Villa-Lobos, que conseguiu implementá-lo no currículo das escolas públicas brasileiras no início da década de 30.

Com dona Lucília e dona Zaíra, entre outros professores, a menina Ivone teve suas primeiras aulas de canto e teoria musical. Aprendeu também rudimentos de canto lírico, sempre elogiada por seus mestres, conheceu o repertório nacionalista semi-erudito que era a base daquele canto orfeônico, vislumbrou a arquitetura musical – harmonia e contraponto – presente nos arranjos para diversas vozes. E ainda tinha tempo para dar umas escapulidas ao morro do Salgueiro, na vizinhança, onde gostava de assistir às rodas de samba e partido-alto que aconteciam por lá.

Ivone visitava constantemente em Inhaúma seu tio Dionísio, que era músico amador. Chorão entusiasmado, tocava violão, trombone e cavaquinho. Ele recebia com frequência em sua casa muitos músicos de choro famosos, como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Donga e Candinho do Trombone. A sobrinha, talentosa, muitas vezes participava dessas rodas, tocando o cavaquinho que havia sido ensinado pelo tio. Quando sua mãe faleceu, Ivone tinha 16 anos. Acabou se mudando para a casa de Dionísio, com quem estreitou mais ainda laços familiares e musicais.

E o mosaico de referências sonoras da futura sambista não termina aí. A menina conheceu o jongo com sua tia-avó Teresa, no morro da Serrinha, num tempo em que a dança ainda estava firmemente envolvida pela aura religiosa e mágica que acabaria por se dissolver ao longo das décadas seguintes. Foi com Vovó Teresa – ao lado de seus primos Fuleiro e Hélio, que mais tarde viriam a ser fundadores do Império Serrano – que aprendeu a cantar, dançar e louvar os antepassados africanos. Também no morro da Serrinha aproximou-se dos terreiros de umbanda, com seu infindável repertório de cantigas.

Pouco depois, namorou, noivou e casou-se com Oscar, filho de Alfredo Costa, fundador e presidente todo-poderoso da escola de samba Prazer da Serrinha, em Madureira. Foi lá, no início dos anos 40, que Ivone mergulhou de vez no mundo do samba, atuando como porta-bandeira eventual nos ensaios da escola e dando seus primeiros passos como compositora – nesse caso, uma experiência pioneira, pois eram raras as mulheres que se dedicavam à função. Quando o Império Serrano foi fundado, em 1947, a partir de uma dissidência da Prazer da Serrinha, a jovem sambista foi aos poucos se chegando à nova escola. Dona Ivone gosta de contar em entrevistas e conversas informais – tive a chance de ouvir pessoalmente dela essa história – que, quando ia disputar samba na quadra da agremiação e subia no palco com o cavaquinho em punho, pronta para cantar, seu sogro bancava o guarda-costas. O revólver ficava discretamente à mostra na cintura, para não deixar ninguém desrespeitar a moça.

Ao mesmo tempo em que trabalhava como enfermeira e assistente social, primeiro na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, depois no antigo hospital psiquiátrico Pedro II, onde foi assistente da doutora Nise da Silveira, Ivone ia firmando seu nome como compositora de sambas de terreiro. E, em 1965, emplaca no Império Serrano seu samba-enredo “Cinco bailes da história do Rio”, composto em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. No mesmo ano, seu samba “Amor inesquecível” é gravado num disco que reunia repertório de diversas escolas cariocas, sob a batuta de Moacyr Silva.

Apenas em 1970, quando contava pouco menos de 50 anos, a enfermeira Ivone faz sua primeira gravação como cantora. Foi no disco “Sargentelli e o Sambão”, também sob a direção musical de Moacyr Silva, que a compositora registrou duas parcerias com Mano Décio da Viola: “Sem cavaco não” e “Agradeço a Deus”. Em 1973, participa de um disco coletivo produzido por Adelzon Alves, com o título de “Quem samba, fica?”. Regravou “Agradeço a Deus” e lançou “Tiê”, parceria sua com Tio Hélio e Mestre Fuleiro, seus primos, faixa que começou a projetar o nome da sambista para o grande público.

A partir daí, em meados dos anos 70, os sambas de Dona Ivone passaram a ser bastante requisitados por artistas e produtores. O repertório da compositora imperiana começou a abastecer nomes como Elza Soares, Alcione, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Jorge Goulart, Cristina Buarque, Trio Mocotó. Em 1974, o samba “Alvorecer”, feito com Delcio Carvalho, deu nome ao LP gravado por Clara Nunes.

Não tardou muito e dona Ivone gravou em 1978 seu primeiro álbum solo, produzido por Adelzon Alves: “Samba, minha verdade; Samba, minha raiz”. Daí para frente, não parou mais. A Rainha do Samba – um de seus epítetos – coleciona algo em torno de 150 composições registradas em disco até hoje, num total de quase 700 gravações. Entre os maiores sucessos, com ou sem parceiros (em geral, letristas), estão “Acreditar”, “Agradeço a Deus”, “Alguém me avisou”, “Alvorecer”, “Candeeiro da vovó”, “Enredo do meu samba”, “Força da imaginação”, “Liberdade”, “Mas quem disse que eu te esqueço”, “Minha verdade”, “Nasci para sonhar e cantar”, “Sonho meu”, “Sorriso de criança”, “Tendência” e “Tiê”.

Entre muitos registros, destaco o disco instrumental “Primeira-dama – a música de Dona Ivone Lara”, gravado e arranjado pelo pianista e compositor Leandro Braga em 2002. Ao suprimir as letras dos sambas, mantendo-os como suporte para um moldura sonora rica e sensível, Leandro deixa mais do que evidentes as qualidades de melodista de sua homenageada.

É como costuma dizer a própria Dona Ivone, com sua fala macia: “De maneiras, meu filho, que só você vendo!” – bordão de sentido deliciosamente vago que acabou se espalhando entre os sambistas. Gravada por dezenas de intérpretes importantes de diversas gerações, ligados ao samba ou não, a obra de Dona Ivone prima pelo equilíbrio entre a elaboração melódica e uma poesia concisa, de imagens elípticas, bem à maneira do jongo, o que resulta num amplo e vigoroso poder de comunicação. Uma verve musical ungida pelas bênçãos de Pixinguinha e seus amigos chorões, de Villa-Lobos e dona Lucília, dos antigos jongueiros da Serrinha, dos versadores e dançarinos de partido-alto, dos sambistas cultores do extinto sapateado, dos umbandistas de primeira hora, das tias e tios fundadores das escolas de samba cariocas.

A obra musical de Dona Ivone Lara representa, por tudo isso, um denso e inspirador legado à cultura brasileira. Faz parte do Brasil que queremos e do qual nos orgulhamos. Que possamos fazê-lo sempre circular, sobretudo entre os mais jovens, para testemunhá-lo na voz e no coração de toda gente.