Agnaldo Farias escreveu esse texto para o artista José Carlos Machado em 2015, por ocasião de sua exposição na Galeria Marcelo Guarnieri, em Ribeirão Preto, que não teve folder ou catálogo. Ao ser convidado para a coluna Caju Arquivo, o crítico escolheu republicá-lo aqui. A coluna tem exatamente esse fim: dar capilaridade e visibilidade a textos não impressos, sejam eles recentes, como é o caso abaixo, ou mais antigos. 

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O sorriso da estática, os devaneios da dinâmica

E finalmente nos chega um novo conjunto de trabalhos de José Carlos Machado – amigos e admiradores comemoram esse acontecimento especial e espaçado-, um grupo de esculturas e instalações, um elenco enxuto de peças de madeira clara,  barras e tábuas de Caxeta, desses encontrados em qualquer boa marcenaria ou loja de materiais de construção, além de linha, uma linha de pesca japonesa, branca, nylon trançado de acabamento impecável e, acima de tudo, resistente -“aguenta até sessenta quilos”, comenta o artista, entre impressionado e satisfeito pelo resultado de sua pesquisa em busca de um material tão, mas tão discreto que, tensionado, transforma-se no afiadíssimo gume que separa o visível do invisível.  Empregando-a, o artista salienta a sutileza de seu corpo, a linearidade delgada, quase uma demonstração concreta do Princípio da transmissibilidade das forças, princípio básico da Estática, segundo o qual “o efeito de uma força não é alterado quando esta é aplicada em diferentes pontos do corpo, desde que esta seja aplicada ao longo de sua linha de atuação”. Veremos isso adiante, por agora interessa fechar o rol das materiais empregados nessa exposição, o imã, o último deles. E aí vemos até que ponto o artista consegue conjugar a visibilidade limpa, escandida da madeira, com sua superfície lisa, o brilho tímido da cera que a recobre, suas bordas cortadas com a exatidão proporcionadas por serras, com o vazio, com o ar. Empregando imãs aos pares, tratados de modo a se repelirem mutuamente, fórmula utilizada com frequência ao longo de sua trajetória, iniciada nos anos de 1970, quando ainda era aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAUUSP,  o artista tira partido da tensão entre os campos magnéticos, essa espécie de almofada, volume vazio e macio, que pode ser maior ou menor consoante a potência de ambos os imãs e, como dispõe as leis do Eletromagnetismo no capítulo dedicado a imãs e magnetos, “à razão inversa do  quadrado da distância entre eles”. A busca da objetividade leva a Física, como a maioria das disciplinas afetas às ciências, a produção de uma literatura pautada enunciados concisos, deliciosamente herméticos, indubitavelmente verdadeiros.

O mundo das construções, casas, casebres, postes, prédios, viadutos, enfim, as cidades e tudo aquilo que nelas se aglomera, padece de uma invulgar falta de delicadeza, um exercício compulsivo de brutalidade no qual fica claro a omissão sistemática da engenharia e da arquitetura. O tempo vai passando e tem-se a sensação que os espíritos desses magníficos ofícios foram demitidos. De fato, as construções de agora assemelham-se, na sua esmagadora maioria, aos produtos do empilhamento inventados por nossos ancestrais do Neolítico, ao redor de dez mil anos atrás. A diferença, nas edificações atuais reside, para ficar em dois exemplos, na argamassa de cimento que garante rigidez  à unidade produzida por dezenas, centenas e milhares de tijolos, ou os vergalhões de ferro e aço que garantem a ossatura aos pilares e lajes de concretos. O que há, portanto, é uma diferença de grau mas não de atitude. Em São Paulo, basta passear por debaixo de estruturas como o Minhocão, assim como no Rio de Janeiro pelo Elevado Paulo de Frontin, dois entre os infinitos viadutos que cortam nossas cidades, para se concluir pela semelhança deles com os monumentos megalíticos, os dolmens, menires que surgiram há cinco mil anos, pesadamente apoiados uns nos outros. Mas estes, diga-se em seu favor, tinham dignos atributos simbólicos, enquanto os de agora resumem-se a facilitar a vida dos carros, essa patética divindade terrena, com seus novos modelos despejados anualmente no mercado de culto ao consumo.

José Carlos Machado reage a essa demonstração de insensibilidade dialogando com as forças existente na natureza, a gravidade no centro de todas elas. Para tanto, nessa exposição, vale-se quase que exclusivamente de alguns tocos e barras mais ou menos compridas de madeira, barras e tarugos -os primeiros dotados de secção quadrada, os segundos de secção circular-, testando o modo como se comportam quando tracionadas pela gravidade. Profundo conhecedor de como algumas matérias, especialmente madeira e metal, cortados e processados em soluções volumétricas simples, reagem, o artista descobre e inventa soluções que a rigor desafiam o irresistível apelo que essa força exerce sobre tudo que há no universo. Descobre e inventa porque aquilo que faz não se afina com o verbo criar, cuja transcendência de há muito o fez ser posto de lado no processo artístico ou pelo menos o fez ser olhado com desconfiança. Fundado na mais estrita prática empírica, a ciência desse artista prodigioso desenvolve-se a partir do trato da mãos, dos olhos, do seu próprio corpo, armado ou não com instrumentos, manipulando matérias variadas, escutando-as, sopesando-as, montando-as, articulando-as entre si e, muito especialmente, no caso dessa exposição de agora, articulando-as com o espaço das salas que as recebem. Invadindo as salas da Galeria Marcelo Guarnieri, José Carlos Machado demonstra a fecundidade dos espaços, arquitetônicos ou não, quando invadidos por entes de qualquer ordem –esculturas, aromas, sons, pessoas, outras coisas- como é o caso desses volumes de extração geométricas que ele trouxe, com os fascinantes efeitos que provocam sobre quem deles se avizinha.

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Já do lado de fora da galeria, através da porta de vidro, somos tomados pela surpresa: vistos de lado, dois volumes, dois paralelepípedos achatados, um maior, outro menor. O menor, de pé, plantado no chão, como costuma acontecer. Já o segundo, inclinado, caído, caindo, melhor dizendo, sobre o primeiro. Quase apoiado. Quase porque rapidamente adivinha-se que há um pequeno intervalo entre um e outro. Um espaço vazio e flexível, que se retrai ou se expande suavemente, imperceptivelmente, uma pulsação provocada por correntes de ar, pelo ar deslocado pelo nosso próprio corpo, entre outras causas invisíveis. Avizinhando-se, contemplando a peça com atenção, pode-se extrair duas conclusões: 1o) que se trata do emprego singelamente inteligente de imãs; cada volume como que está grávido de um campo eletromagnético e que ambos se repelem; 2o) o pequeno susto, o sorriso do nosso olhar deve-se à constatação de que o desequilíbrio, ou equilíbrio, das coisas do mundo, relaciona-se, confirmando ou reagindo, ao nosso próprio equilíbrio ou desequilíbrio.

Cada um dos trabalhos apresentados por José Carlos Machado nesta sua exposição versa sobre a equação escultura-instalação/teto-paredes-piso do espaço expositivo/olhar movente do visitante. Barras longilíneas de madeira, arranjadas como retas reversas daquelas que desenhamos no papel, saem das paredes onde estão fincadas para atravessar o ambiente em duas direções. Acostumados que estamos a ação da gravidade, ao peso do nosso corpo, ao nosso olhar frequentemente baixo, um efeito, talvez, menos da incuriosidade referida por Drummond em A máquina do mundo, que da força do chão, assistimos enlevados a performance do material, à sua leveza, ao fato de não se vergar, como se momentaneamente estivesse liberado de peso.

Mas talvez o encanto maior encontre seu ponto de máxima nas peças feitas de madeira e linha, como o conjunto descontínuo de três barras, tracionados pela força da gravidade; um puro exercício de prestidigitação de um mágico, sem vareta, equilibrando e fazendo rodar um prato. A peça começa no teto, na linha nele fixada, e que está retesada pelo peso do conjunto que ela sustenta. Ela desce e desaparece no centro extremidade superior da pequena barra quadrilátera de 60 centímetros de comprimento. Transmuta-se, encorpa-se nessa barra para reaparecer na sua extremidade inferior. A peça momentaneamente respira enquanto a linha, quase imediatamente, finca-se a uma segunda barra com 1 metro e 60 de comprimento, barra atrevida porquanto disposta horizontalmente. A linha aparecerá do outro lado mas não na mesma direção que vinha tomando, antes acompanhando o caminho da força capaz de garantir a horizontalidade da barra intermediária e a verticalidade das outra duas. Essa força foi construída através do cálculo apurado do peso da ultima barra, tracionando e alavancando a barra intermediária, obrigando-a a permanecer irrepreensivelmente horizontal. Assim organizado, o conjunto, produto do equilíbrio complexo e dinâmico fabricado pela justaposição de linha e madeira,  flutua delicadamente, roda em torno do seu próprio eixo, dança intermitentemente ao ritmo da música incidental produzida pelos fluxos do ambiente no qual está mergulhado. Parece leve mas não é. Se a linha se quebrar o conjunto, como tudo o mais que está sobre a terra, como magnificamente demonstrou Galileu Galilei, cairá “na razão direta do quadrado dos tempos”.

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Fotos de Felipe Berndt – Neoarte/ Divulgação