Texto e montagem sem concessões

Não espere mocinhos. Não espere bandidos. Nem linearidades. Michel Marc Bouchard não redime ninguém. Tudo é e não é. Com uma carreira ímpar no sobrevivente teatro carioca, Tom na fazenda reestreeou neste último fim de semana no Teatro Poeirinha, em Botafogo, para sua terceira temporada no Rio de Janeiro (para mais informações e ingressos, clique aqui). O espetáculo, parte de um projeto do ator Armando Babaioff que apresenta a obra do dramaturgo canadense ao Brasil, tem fôlego para isso.  E as excelentes críticas recebidas pela montagem assinada por Rodrigo Portella fazem jus à reação emocionada de plateias sempre lotadas.

É, a encenação puxa mesmo um monte de adjetivos.

Depois da perda do namorado, Tom vai até a fazenda da família dele para acompanhar o funeral. Lá descobre que a mãe, o irmão, ou qualquer conhecido do não sabiam que seu companheiro era gay. Contemporânea a peça escrita em 2011 usa um pano de fundo comum a diversas épocas e culturas, a não aceitação do amor entre dois homens, o tal projeto da cura gay não nos deixa esquecer. Esse elemento apenas abre as cortinas.

Tom na fazenda não é uma peça sobre homossexualismo. Também não é uma peça sobre homofobia. Bem. É e não é uma peça sobre o terror psicológico – o praticado e o sentido – por quem nega o amor. É e não é uma peça sobre luto e os traumas da perda precoce – mesmo antes da morte. É e não é uma peça sobre a dor. Ou sobre a crueldade em torno de tudo isso.

O teatro tem dessas coisas. O mundo inteiro pode caber no espaço pequeno como um apartamento, onde tanto sufocamos nossas vidas. A vastidão de uma fazenda nos faz sentir desterrados, sem chão. O universo inteiro de sentimentos e compreensões cabem no tempo de pouco mais de uma hora.

Textos assim nos provocam incômodos que fazem a gente repensar tudo. Mesmo que seja apenas por aquele momento. Tom na fazenda é daqueles que nos fazem ver como viver é transitar entre muitas camadas.

Bastam poucos minutos para o elenco conduzir a plateia aos cantos mais escuros da alma, do pensamento. Sair de lá não será fácil. A encenação, visceral, no limite de rasgar, propõe que você compre imediatamente uma linguagem moderna, em que os atores separam em canais diferentes de interpretação e narrativa o diálogo, a reflexão, a descrição do que passou e do que vem a seguir, dos sentimentos mais difíceis de explicar. E a gente fica por um longo tempo com um baita nó na garganta.

O sofrimento cede lugar para a ironia. A tensão passa à violência. A luta de repente vira coreografia. A mão que bate, acaricia. Tom busca consolo no sofrimento da perda e precisa engolir o amor que ainda pulsa. E sufoca.

A luz quente e todo aquele barro do cenário não estão ali para nos lembrar de que estamos na zona rural de um lugar esquecido qualquer. Todos lutam para sair da lama emocional em que se encontram. Babaioff, que dá vida a Tom, entrega muito mais que promete nos papeis de TV que o tornaram um rosto conhecido. Ao seu lado estão Kelzy Ecard, Camila Nhary e o ótimo Gustavo Vaz. Anote aí: ele vai deixar você com medo.

Na pele do irmão do falecido, Francis, Vaz parece compor um personagem construído com base nos psicopatas dos filmes de suspense. Mas, nesta fazenda, o medo de que falamos não é aquele que provoca o susto. Não é o medo de que algo ruim aconteça ou dê errado. É um temor que evitamos ao máximo, embora seja um dos mais próximos de nós. Porque mora dentro.

O falso idealizado, pasme, acaba se tornando um lugar bem mais confortável – Tom na Fazenda nos faz tremer diante daquele medo que o ser humano tem de descobrir a verdade. De conhecer aquilo que não sabemos do outro.

Tom na fazenda é uma peça sobre como a mentira é o que mata o amor.