Jongo da Serrinha faz, da memória, matéria viva que reafirma a ancestralidade e alimenta novas gerações, abrindo oportunidades. A Casa do Jongo não pode fechar.

“Vapor berrou na Paraíba, / chora eu, chora eu Vovó / Fumaça dele na Madureira / e chora eu”. Os versos atribuídos a Vovó Teresa sintetizam um segundo passo na caminhada dos afrodescendentes trazidos do Congo-Angola para trabalhar, sob a tira do chicote, na região do Vale do Paraíba, entre Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Com a abolição da escravatura, parte daquela população de origem banto migra para a então capital do país, em busca de oportunidades.

Vovó Teresa se estabeleceu no Morro da Serrinha, em Madureira, onde viria a morrer, com 115 anos de idade. Para lá, levou o costume de dançar o jongo. Sempre contou aos filhos sobre as noites em que, no cativeiro, formavam-se as rodas de umbigada e improviso; sobre os rígidos códigos daquela festa, o mistério que se abriga entre os movimentos profanos e o viés religioso.

Fundamentalmente ligado ao universo rural, o jongo teria sucumbido não fossem pessoas como Vovó Teresa. Ou Vovó Maria Joana Rezadeira. Ou Mestre Darcy Monteiro. Jongueiros que, cientes da importância da transmissão do saber de seus ancestrais, fizeram da memória matéria viva, evocada em cada passo, a cada pisada firme do pé no chão de terra batida.

Foi Mestre Darcy, aliás, quem percebeu que essa potente expressão cultural iria sucumbir caso continuasse restrita a seus herdeiros. Pelas peculiares características – certo isolamento das áreas mais urbanas, o clima de roça –, a Serrinha conseguira até a década de 1960 manter o último núcleo jongueiro da cidade. Mas como será depois que “os mais velhos” morrerem, perguntava-se Darcy?

O grupo Jongo da Serrinha nasce dessa inquietação. Ao lado de Vovó Maria Joana, sua mãe, ele começa a levar as rodas, antes limitadas aos quintais, para os palcos. Permite, também, que crianças e jovens participem – o que era vedado nos primórdios. A criação da ONG Grupo Cultural Jongo da Serrinha se dá na esteira de um movimento que encerra, ao mesmo tempo, a manutenção de ritos e a ampliação de seu alcance.

Iniciado há mais de 30 anos, o trabalho de Mestre Darcy se traduz hoje nas oficinas de jongo voltadas para a meninada da Serrinha e das comunidades próximas. E em outros projetos que tinham como sede a Casa do Jongo: aulas de capoeira, de violão, percussão, dança contemporânea, artes plásticas, inglês, matemática. Tais atividades possibilitavam o contato direto das novas gerações com a cultura daqueles que as precederam, reforçavam o senso de pertencimento e abriam, em outro flanco, portas para a educação formal e a profissionalização.

A Casa do Jongo legava à cidade também o evento mensal Samba na Serrinha, amálgama dos ritmos que naquela região de Madureira frutificaram de forma singular – vale lembrar que ambos, jongo e samba, têm na sua gênese a umbigada, e que a arte do improviso salta das rodas jongueiras para o partido alto.

Mas por que os verbos estão flexionados no passado quando se referem à Casa do Jongo? Porque a Prefeitura do Rio, mesmo ciente das dificuldades de captação da ONG que gere o espaço, não aprovou a proposta de fomento direto. Costuma haver, no âmbito da cultura, uma confusão entre investimento e gasto. No caso das políticas públicas, o aspecto contábil não pode ser o único balizador. E, nesse episódio, razões menos afeitas à questão econômica lamentavelmente se insinuam.

“Nós não somos donos de nada, o que recebemos temos que passar adiante”, dizia Vovó Maria Joana. Que sua voz seja ouvida, as partes se entendam e o couro do tambor continue a soar na Casa do Jongo, ecoando mirongas remotas e novos encantamentos.