A geração Z

Biografia de Jorge Zahar mostra que sua editora é documento intelectual e político de uma geração; livro foi escrito por Paulo Roberto Pires

Se é impossível entender a literatura e o pensamento brasileiro modernistas sem José Olympio, outro homem que virou livro, é pouco provável que as ciências sociais no Brasil possam ser dissociadas da marca do Z.

Paulo Roberto Pires

A biografia de um editor é, no limite, seu próprio catálogo, um “documento de suas ideias, escolhas, acertos e também dificuldades e erros”, segundo a definição do fundador da prestigiosa editora espanhola Anagrama, Jorge Herralde. Sabedor disso, Paulo Roberto Pires aceitou, porém, o desafio de perfilar o homônimo brasileiro, Jorge Zahar. Para tanto, fez pesquisa ampla e pormenorizada, alimentada por fontes variadas, que vão de testemunhos a reportagens, passando por material bibliográfico e memórias pessoais, numa narrativa bem construída que evoca alguns dos instantes da história das ideias no Brasil do século XX.

À exceção talvez de André Gide, que recusou os manuscritos de Em busca do tempo perdido, de Proust, e de outros que têm obras próprias, ante o público leitor geral, o editor de uma casa editorial é um personagem que desfruta de certo anonimato. Em seu trabalho cotidiano, em contrapartida, ele mantém convívio estreito com escritores e intelectuais importantes, além de ser assediado por jornalistas. Isso, no entanto, nunca envaidecera Jorge Zahar. Salvo a gargalhada estrepitosa, era discreto e recusava o epíteto de intelectual, preferindo definir a figura do editor como alguém “sensível ao fenômeno cultural” que não se descuidava da parte administrativa do negócio.

A lista de autores renomados publicados pela Zahar ao longo dos seus 60 anos é tão extensa quanto diversificada. Aí vão alguns poucos: Karl Marx, Sigmund Freud, Jacques Lacan, Jean-Paul Sartre, Bertrand Russell, Bronislaw Malinowski, Norbert Elias, Florestan Fernandes, Gilberto Velho e, mais recentemente, Slavoj Žižek e Zygmunt Bauman. Convém mencionar também aquele que foi considerado o “livro da vida” de Jorge, a obra que deu a ele mais gosto de editar: História da riqueza do homem, de Leo Huberman, que saiu em 1962 e vendeu em 30 anos mais de 300 mil exemplares.

Nas décadas de 1960-70, a forma privilegiada de acesso à vida intelectual do Rio eram as livrarias, que existiam aos montes sobretudo no centro da cidade, e nas quais artistas, intelectuais e público se reuniam. Não era raro ver Graciliano Ramos, ou Drummond, ou mesmo Mário de Andrade, enfurnados horas a fio na José Olympio, situada na rua do Ouvidor, cuja história é inseparável da história do modernismo no Brasil. Bandeira batia ponto com frequência na São José.

Segundo Pires, ainda no século XIX, outra livraria carioca tornou-se célebre por ser local de encontro de homens de letras. O francês Louis Baptiste Garnier foi o editor de Machado de Assis que, ao homenageá-lo postumamente em uma crônica, lembrou-se de como a livraria Garnier foi fundamental para sua interlocução com o também escritor José de Alencar. “Ali travamos as nossas relações literárias. Sentados os dois, em frente à rua, quantas vezes tratamos daqueles negócios de arte e poesia, de estilo e imaginação que valem todas as canseiras deste mundo”.

A Ler, dos irmãos Zahar, por sua vez, tornou-se local muito frequentado por estudantes e professores da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), localizada a quatrocentos metros do endereço da livraria, a rua México 31. Esse tipo de público contribuiu de alguma forma para moldar o negócio, além de apontar uma possível “especialidade” para a editora que viria a ser criada em breve: o campo das ciências humanas e sociais, com incursões pela psicanálise e filosofia.

Com as atividades da FNFi e a consequente expansão do ensino universitário no país em fins dos anos 1950, o perfil do intelectual brasileiro passaria por transformações significativas, segundo a tese de Pires. Se, antes, era um “generalista” atrelado a uma “ideia ampla de literatura”, a partir daquele momento essa figura buscaria uma formação mais especializada, de caráter científico, digamos. A Ler e, mais adiante, seu braço editorial, passaram então a se voltar para os novos atores dessa cena cultural.

Nesse sentido, os irmãos Zahar foram visionários quando apostaram no chamado “livro acadêmico” que, pouco a pouco, ganharia relevância à medida que os fatos políticos se sucediam (governo JK, renúncia de Jânio, golpe civil-militar etc.) e o ensino acadêmico se alargava. “Um catálogo construído em torno de reflexões sobre sociedade e política só tinha a prosperar com tantas inquietações acerca dos rumos do país”, sintetiza Pires.

Junto ao perfil do editor, minibiografia do livro no Brasil

Sempre sob o prisma da vida profissional de Jorge, A marca do Z é igualmente uma minibiografia do livro no Brasil. Pode-se acompanhar a profissionalização do trabalho de tradutor; a introdução – capitaneada a princípio por Monteiro Lobato e desenvolvida depois pelo artista Tomás Santa Rosa – de projetos gráficos inovadores, diferenciando-se do tom sóbrio que marcava então as capas das publicações europeias; a relação por vezes

"Unidade tripartida", de Max Bill, inspirou trabalho gráfico marcante da editora

“Unidade tripartida”, de Max Bill, inspirou trabalho gráfico marcante da editora

conflituosa entre autor e editor; a entrada em cena do agente literário e o impacto disso no mercado etc. Se a Zahar Editores não pôde contar com as belas capas modernistas de Santa Rosa, privilégio concedido à José Olympio, foi, contudo, da série de estreia Biblioteca de Ciências Sociais que veio o diálogo mais franco do mercado editorial daquele tempo com o movimento construtivo e a arte concreta. Inspirado pela escultura Unidade tripartida, de Max Bill, premiada na Bienal de São Paulo em 1951, o designer húngaro Érico Monterosa desenvolveu para a editora de Jorge capas formadas por figuras geométricas abstratas que dialogavam abertamente com o trabalho de Bill. A própria capa de A marca do Z trata de aludir a esse padrão.

Um livro em especial deu anedótica notoriedade à Zahar. O primeiro “autor brasileiro” contratado fora Otto Maria Carpeaux, responsável pela publicação de Uma nova história da música no final de 1958, inaugurando assim a parte do catálogo da editora dedicado à música clássica, engordado décadas mais tarde, especialmente em 1980. A revisão dos originais ficou a cargo do próprio autor, que se recusara a submetê-los à equipe de profissionais da Zahar. Como dito por Pires, “Carpeaux foi o revisor de Carpeaux”. Acontece que no ano seguinte seu amigo, o poeta Manuel Bandeira, dedicou uma resenha à obra no Jornal do Brasil (JB) e, após alguns comentários elogiosos, chegando a compará-la à Pequena história da música, de Mário de Andrade, fez por fim uma ressalva: “O único defeito está na péssima revisão, sendo a esse respeito o livro mais errado que já saiu de qualquer prelo brasileiro: estabelece um recorde”. Coincidência ou não, Uma nova história da música teve uma única edição lançada pela Zahar.

Jorge foi fichado no DOPS; Civilização Brasileira foi alvo de bombas

Ainda que a editora estivesse sob estreita vigilância do regime militar e existisse um prontuário aberto no DOPS em nome de seu proprietário, Jorge nunca fora pessoalmente incomodado pelos generais que deram o golpe em

Ênio Silveira: Civilização Brasileira foi atacada por bombas durante a ditadura

Ênio Silveira: Civilização Brasileira foi atacada por bombas durante a ditadura

1964. Razões pareceriam não faltar à época, dado o conteúdo do catálogo e a militância ativa da filha Cristina no movimento secundarista. O que realmente o afligia era a autocensura, como quando teve que descartar traduções de obras de Engels. “Não abri mão de minha linha, mas também não ia abusar”.

Perseguição mesmo sofreu a Civilização Brasileira e seu proprietário. Ênio foi preso em sete oportunidades, respondeu por quatro processos contra a “segurança nacional”, incontáveis apreensões de livros e sufocamento financeiro. Por conta disso, Jorge se referia ao amigo íntimo como “suicida”. Em 1960, a livraria da Civilização, no centro do Rio, foi alvo de um ataque a bombas.

Após a redemocratização, a então Jorge Zahar Editor soube aproveitar o filão editorial que se abriu em torno das análises e balanços sobre a ditadura ao lançar a coleção Brasil: os anos de autoritarismo, formada por livros de bolso. Conforme apontou Heloisa Buarque de Hollanda em texto no JB, havia naquela época um vívido interesse por tudo aquilo que estivesse atrelado às palavras “exílio, prisão e anistia”. A sensibilidade para o fenômeno da cultura de Jorge foi uma vez mais comprovada.

Afeto pelo biografado não nubla o esmero com que livro foi escrito

Prosador experiente, ele mesmo editor e romancista, Paulo Roberto Pires teve o mérito de desvelar a pessoa e o profissional por detrás da marca do Z, que, por sorte nossa, ainda continua a estampar capas de livros por aí. A propósito, é também da lavra de Paulo outro belíssimo perfil, o do psicanalista Hélio Pellegrino, mineiro que se radicou no Rio e por lá fez carreira clínica e literária.

Os capítulos, relativamente sucintos, são entrecortados por ilustrações, que ocupam muitas vezes páginas inteiras, e dão respiro à leitura. O estilo, marcadamente jornalístico, é vivo e perspicaz, mantendo constante a atenção do leitor. Acertadamente, a parte dedicada a falar da família e da juventude de Jorge Zahar – 2º capítulo – foi bastante econômica, o que pode ser visto como um mérito quando se trata de perfis e biografias, que não raro se enveredam por um memorialismo enfadonho. O autor dedicou atenção maior à fase livreiro-editor de Jorge. O princípio da concisão parece tê-lo guiado: as fases da vida de Jorge Zahar são todas elas narradas de modo breve e informativo, sem espaço para firulas retóricas ou excessos de detalhes miúdos, que costumam cansar o leitor de biografias. O tamanho do volume atesta isso: são 296 páginas.

Os trechos dedicados às minibiografias de Ênio Silveira e Paulo Francis, ao final do 6º capítulo, talvez pudessem ter sido reduzidos em proveito de caracterização mais generosa do período que vai de 1960 a 1990, “os tempos do editor Jorge Zahar” a que faz referência o título. A narrativa poderia ter saído um pouco da clausura simbólica do escritório da rua México e explorado os principais debates intelectuais daquele momento.

A história do regime militar foi abordada apenas transversalmente pelo autor. Como ficou claro, a vocação universitária da Zahar moldou a formação de muitos estudantes, atores fundamentais do amplo espectro das esquerdas que combateu a ditadura. Dá para ressentir-se, com efeito, da quase ausência de menção à presença de Ani na extensa trajetória de Jorge como editor. A vida pessoal da esposa careceu de mais detalhamento.

O que se evidencia durante a leitura é, ao final, o afeto e a profunda admiração que o biógrafo nutre pelo biografado, sem prejuízo nenhum para a fidelidade das informações ali contidas. Paulo Roberto Pires cumpriu com esmero e competência o papel a ele confiado pela família Zahar de traçar o perfil de Jorge e, por extensão, ampliar o conjunto ainda parco de livros que tratam do mercado e de editores brasileiros.