Onze anos depois, estudo de Arthur Dapieve sobre como a imprensa trata o suicídio revela-se atual: assunto ainda é um tabu para o jornalismo

 

No dia 5 de abril de 1994, recém-saído de uma clínica de desintoxicação, o líder do grupo Nirvana, Kurt Cobain, disparou um tiro fatal contra a própria cabeça. Em 11 de setembro de 2001, pouco mais de uma dezena de jovens sacrificaram conscientemente as próprias vidas em nome do jihad, ao executar o atentado terrorista que atingiu símbolos do poder norte-americano. Quase 300 anos antes, a 18 de abril de 1732, um pacato casal de classe média – Richard e Bridget Smith – enforcava-se em Londres, sob a pressão de um manancial de dívidas.

Os casos relatados acima – cuja disparidade só encontra interseção no aspecto voluntário das mortes – ilustram os três modelos isolados por Émile Durkheim para categorizar o suicídio conforme a relação entre aquele que se mata e a sociedade. No suicídio egoísta, os elementos motivadores seriam a falta de integração com seus pares e a inexistência aparente de razões para se tocar a vida em frente. No altruísta, por oposto, as fortíssimas conexões entre indivíduo e meio social determinariam a opção pelo fim. Já o suicida anômico agiria movido por uma desestabilização repentina, mas capaz de desequilibrar seu lugar na coletividade.

A categorização proposta pelo sociólogo no Século 19 é retomada por Arthur Dapieve em Morreu na contramão – O suicídio como notícia, livro lançado em 2007 e cuja atualidade se confirma a cada episódio silenciado pela imprensa. Baseado na dissertação de mestrado do jornalista e escritor em Comunicação na PUC-Rio, o livro se inspira na tipologia desenhada por Durkhein para teorizar sobre a morte voluntária e, na sequência, investigar como é tratada nos jornais brasileiros. Em geral, conclui Dapieve, entre o sigilo absoluto e uma nuvem de eufemismos.

“O silêncio expressa algo mais difuso, mas não menos eloquente, derivado das crenças conjugadas de que o suicídio pode ser, de certa forma, contagioso, transmissível a suicidas em potencial (…) e de que os meios de comunicação de massa podem ser, pela própria natureza de sua função social, os vetores deste tão temido contágio, verbalizado ou não nas redações dos jornais”, anota o autor. A ideia de ‘contágio’, já apontada no estudo de Durkhein, ganharia força sobretudo com o romance Werther, de Goethe. Após sua publicação, em 1774, a Europa enfrentou uma onda de suicídios por parte de jovens que se identificam com a história de amor não-correspondido vivida pelo protagonista do livro.

Dapieve questiona em seu trabalho se essa postura silente contribuiria mesmo para evitar novas mortes. Embora a premissa de não abrir espaço para noticiar suicídios seja um traço praticamente unânime na imprensa mundial, cerca de 20 a 60 milhões de pessoas tentam se matar a cada ano, segundo cálculos da ONU. No Brasil, a taxa é de 5,7 para cada 100 mil habitantes (dados do Ministério da saúde em 2015). Os números demonstram, portanto, que não se trata de acontecimento raro, “mas de um problema de saúde pública disseminado e atual, ao contrário do que sugere o noticiário”, como pontua o autor.

Para fundamentar sua dissertação, Dapieve recorreu a outros teóricos que examinaram o tema – como Karl Marx, que o esmiuçou em livro anterior ao clássico O capital, e Juliano Cabrera, filósofo que encarava a morte voluntária como ato de extrema liberdade. Além disso, entrevistou repórteres e editores e acompanhou o material veiculado em O Globo durante todo o ano de 2004. Ao cabo da pesquisa, confirmou que a norma dos jornalistas – só noticiar suicídios em situações especiais – deixou de ter caráter tácito, integrando hoje os manuais de redação.

O mais recente deles, lançado pela Folha de S. Paulo há cerca de dois meses, reitera o preceito. Na página 229, no verbete “Morte”, página 229, recomenda: “(…) Não omita a causa da morte do personagem que seja objeto da notícia. Em caso de suicídio, contudo, não descreva o método utilizado”. Já o documento “Princípios editoriais”, em vigor nos veículos do grupo Globo, diz: “Não pode haver assuntos tabus. Tudo aquilo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia, deve ser publicado, analisado, discutido”. Na prática, contudo, não é o que testemunhamos.

Evidentemente há exceções. Que, de tão raras, acabam por confirmar a regra não escrita do silenciamento. Exemplo disso é o caso de Luiz Carlos Cancellier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Acusado pela Polícia Federal, sem provas concretas, de integrar um esquema criminoso de desvio de verbas na universidade, Cancellier foi encontrado morto no dia 2 de outubro de 2017 no Beiramar Shopping, em Florianópolis. Praticamente todos os órgãos de imprensa repercutiram a nota do shopping, informando que ele se jogou do vão central do estabelecimento. A revista Veja foi mais longe, ao publicar a “Crônica de um suicídio”, na qual os repórteres Monica Weinberg e Thiago Prado narram as últimas horas de vida do reitor.

Em seu estudo, Dapieve infere que a opção por omitir a menção ao suicídio está intimamente relacionada à percepção coletiva sobre o tema. “Muito mais que ser determinante do modo como os leitores encaram o suicídio, a imprensa é, sim, determinada pela visão que os leitores têm da morte voluntária. A imprensa se colocaria não como vetor do ‘contágio’, mas como instância social solidária ao tabu que suplanta”, observa. Assim, essa espécie de ‘recalque’ que cobre o assunto com véu turvo catalisaria um mal-estar que é da própria sociedade. Efeito-reflexo, portanto.

Entre os muitos casos comentados no livro, chama atenção o do escritor Pedro Nava. No dia 13 de maio de 1984, ele atirou contra a própria cabeça. Poucos minutos antes, recebera um telefonema, que, segundo a esposa, o deixou desconcertado. Nava então saiu de casa com a arma e rumou para o bairro da Glória, onde consumou o suicídio. Imediatamente, as redações começaram a receber a informação de que o escritor havia sido chantageado por um garoto de programa, com quem se relacionaria em segredo.

Após exaustivos debates internos, os jornais optaram por não levar adiante a apuração da história. Mas os depoimentos colhidos por Dapieve demonstram que ela acabou sendo um divisor de águas. “O fantasma de Nava ainda assombra as redações porque encerra uma das questões éticas mais complexas do jornalismo: os limites entre aquilo que é público e cujo conhecimento é um direito de todos – e dever do jornalista divulgar – e o que, por pertencer à esfera privada, deve ser mantido como tal”, salienta Zuenir Ventura, que na época do suicídio do escritor chefiava a sucursal da revista IstoÉ no Rio.

Tantos anos passados, o dilema permanece. E enfumaça a relação entre norma e prática, uma queda-de-braço sempre renovada. Fios complexos, múltiplos, subjetivos, envolvem aquele que Albert Camus, em O mito de Sísifo, chamou de “único problema filosófico verdadeiramente sério”. “Fazer a apologia do suicídio é tão inútil quanto fazer a apologia da vida”, sublinha Dapieve. A consciência do absurdo atordoa jornalistas, leitores, todos nós. A recusa à existência, ainda mais. Talvez reste imaginar, como fez Camus, que ao rolar a pedra montanha acima, vê-la descer e então reiniciar a subida, Sísifo seja feliz.

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A imagem que ilustra o topo do ensaio é de Daniel Senise. (sem título, 1986, óleo sobre tela, 210 x 190 cm)

Daniel Senise podio