Um dos mais importantes compositores brasileiros em atividade, Edino Krieger surpreende pela diversidade de sua produção, entre obras para orquestra, coro e instrumentos solistas se destacam as composições para piano, sempre ouvidas em concursos e recitais.  Ele nasceu em Brusque, Santa Catarina, em 1928, e começou a estudar música com seu pai que, era violinista. Em 1942, ingressou no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro para estudar composição com Hans Joachim Koellreutter, professor que introduziu a música serial no Brasil. Koellroitter, ao contrário de muitos mestres europeus, não via a música serial como o único caminho no campo da composição, estimulava seus alunos a observarem todo o leque de possibilidades existente no campo da música e a aplicarem esses conhecimentos tanto no ensino, quanto na composição. Essa visão pluralista foi fundamental para o desenvolvimento da obra de Krieger.

Nova vereda para música modernista brasileira

Até então, a música modernista brasileira se pautava pelas diretrizes nacionalistas de Mário de Andrade, que guiou uma brilhante geração de compositores entre os quais podemos citar: Villa-Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri e Lorenzo Fernandez, que inclusive era diretor do Conservatório Brasileiro.  Mário de Andrade tinha uma visão funcional da arte, os compositores eram estimulados a utilizar material da memória musical brasileira e a trabalhar conectados com a realidade social do país.  A comunicação com o público era uma questão primordial, o músico deveria trabalhar pensando numa função social para suas composições. O serialismo, por sua vez, foi uma escola de composição criada pelo músico alemão Arnold Schoenberg e pretendia substituir a linguagem musical vigente desde o renascimento por um novo padrão, ao invés das tonalidades tradicionais maiores e menores, o músico trabalharia com os doze sons da escala sem hierarquia, tudo na música seria feito a partir de uma série de doze sons e suas combinações.  Essa dualidade entre duas escolas aparentemente inconciliáveis foi um estímulo para que o compositor desenvolvesse um repertório variadíssimo em sua escrita musical.  Participando do grupo “Música Viva” junto com outros compositores como Guerra Peixe e Claudio Santoro, teve oportunidade de discutir profundamente os rumos que a música estava tomando nesse período. Em suas primeiras peças para piano, utiliza elementos da técnica serial de forma pessoal, fazendo o que chamava de música nacionalista de doze sons, utilizando melodias e ritmos brasileiros. Três miniaturas são exemplos dessas primeiras composições:

 

Como o serialismo anula as funções tonais, ou seja, não utiliza como recursos expressivos nem as tensões entre tônica e dominante nem modulações, a forma de estruturação da composição se dá por recursos do contraponto, onde as variações do tema serial vão se combinando por processos de inversão, espelhamento, aumentação e diminuição, entre outros. Essa ênfase na polifonia faz com que a música serial não tenha uma exuberância rítmica. Temos aqui uma verdadeira arapuca para os compositores que pretendiam utilizar a herança musical brasileira como base de suas obras, como utilizar uma linguagem musical que privilegia a melodia e tem tanta riqueza de padrões rítmicos em um método de composição que abole a melodia e não depende do ritmo como elemento estrutural?  Para piorar, à medida que o modernismo vai se tornando mais formalista, os processos de composição também se radicalizam no que se convencionou chamar de serialismo integral, aplicando os princípios seriais a todos os elementos da composição, como altura, duração, timbre e intensidade dos sons.

Além de Koellroitter, aulas com Peter Mennin

Krieger, atento ao que estava acontecendo no mundo da música, preferiu se afastar de posições tão radicais e mergulha no mundo plural da cultura brasileira, utilizando métodos de composição variados. Depois de estudar com o professor Peter Mennin na Juilliard School de Nova York podemos dizer que flertou com o neoclassicismo, sem abandonar seu lado nacionalista nem os conhecimentos de música serial. Um bom exemplo nesse estilo é a obra Variações Elementares, onde utiliza uma forma tradicional, que são as variações sobre um tema, mas também aplicando elementos de técnica serialista. O tema das Variações Elementares é uma série dodecafônica, mas essa série não é utilizada estritamente como elemento primordial da música, o compositor incorpora elementos de linguagem mais tradicionais e também elementos rítmicos e harmônicos da música brasileira, por exemplo, uma das variações chama-se Choro e outra Bossa-Nova.

Seguindo na utilização de formas tradicionais, temos a gênese de uma das peças mais queridas de Krieger, a Sonatina para piano. A Sonatina tem dois movimentos, o primeiro se inicia com um baixo tradicional da forma sonata (baixo Alberti) sobre o qual entra uma melodia bem lírica em defasagem, criando um efeito muito interessante, o segundo tema é rítmico e incisivo e no desenvolvimento desses dois temas podemos nos maravilhar com a escrita magistral do compositor. O segundo movimento é uma espécie de rondó, onde sobre um baixo movimentado um outro tema rítmico se desenvolve e faz um contraste com o tema II do primeiro movimento, a composição progride por variações surpreendentes desses dois elementos.

Em algumas composições, Krieger mescla formas da música barroca com formas essencialmente brasileiras, como o choro e a marcha-rancho. É o caso de Passacalha para Nazareth, a passacalha é um tipo de composição para órgão que utiliza um baixo ostinato, ou seja, uma linha melódica que se repete na parte grave da música e que serve de base para uma série de variações. O baixo criado por Krieger para sua passacalha é uma sequência de acordes melancólicos onde as notas graves caminham numa progressão cromática descendente, o ritmo é de uma valsa lenta que acompanha uma melodia evocativa das valsas de Ernesto Nazareth, na primeira variação a figuração do acompanhamento muda para a mão direita e a mão esquerda desenha uma melodia que lembra um violão, esse contraste pode nos fazer pensar em uma contraposição entre os universos feminino e masculino. Na terceira variação a melodia da mão direita muda para uma figuração em quiálteras, o que acelera o ritmo da composição e culmina numa sequência mais forte com os baixos acentuados e o canto na voz interna que vai aos poucos desacelerando para chegar novamente na suave melodia inicial encerrando a composição com delicadas notas repetidas na mão direita.

O Prelúdio (cantilena) e Fuga (marcha rancho) são uma dupla homenagem, ao compositor alemão Johann Sebastian Bach que eternizou a forma em seus dois cadernos do Cravo Bem Temperado e ao nosso mestre Villa-Lobos que tem entre suas obras primas as nove Bachianas Brasileiras. O prelúdio em forma de canção se divide em três partes, inicia com um tema suave que lembra uma canção de ninar, tem uma parte intermediária mais rítmica que se parece com algumas passagens de Villa Lobos e é seguida da repetição do tema inicial. A fuga a três vozes utiliza um tema simétrico que agradaria a Bach, uma sensacional visita de um bloco do carnaval carioca aos salões do príncipe Frederico II da Prússia.

Obras concebidas para o ensino da música

A última série de obras comentadas aqui serão os Estudos intervalares. Krieger tem várias composições com intuito didático, entre elas os Estudos intervalares são peças que utilizam como base os intervalos existentes dentro de uma oitava, respectivamente intitulados: Das segundas, Das terças, Das quartas. Das quintas, Das sextas, Das sétimas e das oitavas. Historicamente os estudos para piano surgiram como peças destinadas a concentrar a atenção do pianista sobre algum problema técnico do instrumento, funcionando apenas como exercícios ao teclado, posteriormente se tornaram parte do repertório de concerto por suas qualidades musicais, possibilitando ao pianista demonstrar seu virtuosismo e recursos interpretativos. Nos estudos do século XIX há um enfoque no desenvolvimento da destreza digital e velocidade, com a chegada  do século  XX  vemos o surgimento de um interesse muito grande dos compositores pelas características percussivas e de ressonância do instrumento, podemos observar isso na obra de Bartok, Stravinsky, Ligeti e Almeida Prado.  Isso também fica patente nos estudos de Krieger, os quais além de focarem num elemento básico da técnica pianística que é o domínio das distâncias entre os intervalos, fazem o intérprete dominar também elementos da música contemporânea como o controle da ressonância e da acústica peculiar do instrumento, acesso a procedimentos da música aleatória e gráfica e novas possibilidades da utilização do pedal.

 


Encerro essa breve introdução ao universo desse grande compositor lembrando que este ano ele comemorou 90 anos de idade. Uma vida inteira dedicada à música e ao ensino, além de compositor e professor, colaborou na programação da rádio MEC e rádio Roquete Pinto, foi crítico musical do jornal A Tribuna da Imprensa, trabalhou com terapia musical no hospital do Engenho de Dentro, teve um programa sobre música na rádio da BBC, recebeu vários prêmios nacionais e internacionais e criou as bienais de música contemporânea que são os principais eventos de divulgação da música da atualidade no Brasil. Aplausos eternos a esse baluarte da música brasileira.