‘Há vivos que estão mais mortos que os mortos’

Neste 2018, o feriado de Finados acontece em um fim de semana prolongado, o que amplia a sensação de sincronicidade entre sua atmosfera simbólica e um país divivido e parcialmente enlutado. Foi a ocasião que me soou perfeita para entrevistar Luiz Antonio Simas a respeito de seu Almanaque brasilidades, edição primorosa da Bazar do Tempo com ilustrações de Mateu Velasco (uma delas como imagem de destaque neste artigo). Simas tem dedicado sua vida – como professor de ensino médio, pesquisador e autor –  à história que brota das margens e da rua. Seu Almanaque plasma, na forma e no conteúdo, este interesse que também é encarado pelo escritor como uma espécie de missão: o de apresentar um país constantemente redesenhado como uma encruzilhada, se fazendo a partir dos fragmentos constantemente negociados em conflito.

Almanaque brasilidades é uma múltipla jornada pela fé e pelos saberes populares do país, viagem que o tempo todo é feita na companhia das forças do invisível. Os mortos podem estar mais vivos que os vivos, ensina Simas, e a frase que é o avesso desta se revela igualmente verdadeira.

Nesta conversa sobre o livro e muitos matizes da cultura popular, o historiador também comenta o simbolismo das placas em homenagem a Marielle Franco – morta que é memória das margens e da população mais ameaçada do Brasil neste momento:  “As placas são como assentamentos, totens que lembrarão o exemplo das lutas e que servirão como elemento de coesão do grupo. De certa forma, celebrar nossos mortos é uma maneira de estarmos vivos em torno, e por causa, deles.”

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simas foto

Queria começar pela coincidência em nosso calendário, já que o calendário é uma das marcações do Almanaque brasilidades. Esta entrevista está sendo publicada no Dia de Finados. Qual é a importância de lembrar os mortos e o que isso significa para as nossas brasilidades?

LUIZ ANTONIO SIMAS: Fui criado em uma tradição, a das religiosidades brasileiras de fundamentos afro-ameríndios, em que a morte é muito mais vinculada ao esquecimento do que ao fenômeno biológico. Há mortos que estão mais vivos do que os vivos. Há vivos que estão mais mortos do que os mortos. Falar dos mortos, celebrar a memória dos que lutaram, cantaram, dançaram e construíram o Brasil, é falar mais da vida do que da morte.

Ainda neste campo, um assunto que não está diretamente em seu livro, mas que de alguma m maneira o atravessa, por ter se dado na rua: a placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassina estr ano, foi quebrada por políticos ligados à extrema direita, e depois multiplicada em 13 mil placas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Qual é a importância dessa sutura simbólica e da celebração de uma finada como Marielle, no momento que vivemos?

SIMAS: Na cerimônia do axexê, dentre outros procedimentos, o povo do candomblé celebra aquele que se foi e que, pelo papel que desempenhou durante a vida, voltará ao todo primordial e passará a ser cultuado como modelo de conduta na casa dos ancestrais. Penso na questão de Marielle desta maneira. As placas são como assentamentos, totens que lembrarão o exemplo das lutas e que servirão como elemento de coesão do grupo. De certa forma, celebrar nossos mortos é uma maneira de estarmos vivos em torno, e por causa, deles.

‘O Brasil é um país em disputa’

As forças do invisível e a fé atravessam todo o seu Almanaque. Tem de São Longuinho às benzedeiras, de Ogum e Oxóssi aos santos juninos, dos Reis Magos à Encantaria. Como você enxerga a multiplicidade de crenças do brasileiro, que tanto evidencia no livro, em um momento de preponderância extrema de uma corrente política fortemente calcada nos códigos e na pregação evangélica?

SIMAS: Foi rigorosamente proposital pensar a fé brasileira como uma aventura incessante de criação da vida nas encruzilhadas da formação do país. O amálgama entre tradições distintas que se reencontram e se redefinem, a capacidade de profanar o sagrado e sacralizar o profano, a maneira de pensar a fé como festa e enxergar a fé que há na festa, estabelecem um contraponto ao discurso de intolerância que perpassa o projeto monolítico, castrador, intolerante, de certas designações evangélicas. O Brasil é um país em disputa. Ressaltar a pluralidade da nossa formação, como todos os tensionamentos decorrentes disso, reconhecer que somos pluriversais, colocar no centro da cena saberes negligenciados, apagados, obscurecidos, é uma maneira ainda de insistir no Brasil.

O livro também destaca lindamente as simpatias. O que elas significam para a cultura brasileira?

SIMAS: Significam basicamente que criamos maneiras de encantar o mundo, ritualizar o cotidiano, praticar o drible na monolinguagem do racionalismo, capazes de mostrar que a vida, como diria o mestre Paulinho da Viola, não é só isso que se vê. E as simpatias são também vestígios capazes de oferecer pistas para que pensemos as peculiaridades das nossas gentes.

O Almanaque tem um capítulo dedicado aos conflitos que atravessaram nossa História. À primeira vista, é um trecho do livro que soaria destoado dos demais. Mas depois se percebe a costura que você faz como autor. Para quem ainda não tem o livro, como você defenderia a importância de se destacar as inúmeras insurreições que aconteceram no país (das Guerras Guaraníticas aos Quilombos, passando por Paraguai e Farrapos, entre outros) em um Almanaque de Brasilidades?

SIMAS: Certa feita me perguntaram qual seria o símbolo definidor do Brasil. Não acredito em uma resposta fechada para essa questão. De toda maneira, disse que um pedaço de madeira talvez nos defina minimamente. Por aqui, o pau bateu no corpo para castigar negros e índios, e bateu no couro do tambor para inventar a vida dos corpos que sambam. Somos um país de flor e faca. O Brasil que festeja, também guerreia e mata. É como um oriki de Ossain, o orixá iorubano das matas: veneno e remédio moram na mesma folha. Somos essa folha.

‘Os mundos importantes me interessam pouco ou quase nada’

Uma das últimas histórias presentes no livro é a da Nau Catarineta, registrada, entre outros, por Mario de Andrade. É curioso como uma narrativa de naufrágio, deriva e antropofagia esteja ainda tão presente no imaginário brasileiro. Para onde vai a nossa Nau Catarineta, como país? Como sobreviver aos naufrágios recentes?

SIMAS: O livro começa com uma peregrinação: a dos Santos Reis em busca do Messias, o Menino Deus Salvador, numa manjedoura de Belém. E termina com outra peregrinação: a da Nau Catarineta, que vaga no mar sem porto em busca de uma ilha de prosperidade, a Ilha Brasil, que talvez só exista nos nossos delírios. Nós somos basicamente os marinheiros da Nau: em busca do porto que não chega, cantando as desventuras, dançando e cruzando espadas e bandeiras entre irmãos de um mesmo naufrágio. Se jamais encontra o porto, a Catarineta também nunca sucumbe ao furor das águas. Parece-me que uma chance de sobreviver ao naufrágio seja, de cara, reconhecer a situação em que estamos. Marujos perdidos que, entretanto, driblam a morte e os diabos porque, enquanto procuram incessantemente o porto, fazem dessa procura arte.

Você é historiador e professor de ensino médio, além da atuação nos livros, artigos e palestras como escritor e ensaísta. Em todas as suas atividades, tem destacado não apenas a sabedoria da rua, mas também a história escrita pelas margens, pelos anônimos. A rua e as margens se confundem? Elas são apenas um interesse ou, sabendo eu de sua relação com os orixás, também são encaradas como uma missão?

SIMAS: É interesse e é missão. Sou filho de um orixá da rua, sou babalaô com um odu que fala de relações espirituais com as potências de encruzilhadas, caminhos e ruas. E sou um modesto historiador dessas encruzilhadas, um contador de histórias de ajuremados, vagabundos, bebuns, foliões, jogadores de ronda, rufiões, damas da noite, poetas fracassados, chacretes, partideiros, coveiros, macumbeiros, perebas e brasileiros miúdos. Eu cresci numa espécie de terceira margem, a do terreiro de Mãe Deda, minha avó. Como escrevi certa feita, eu fico na tocaia dos desacontecimentos que bordam as vidas comuns e dizem muito sobre as histórias das mulheres, dos homens e das crianças. Os mundos importantes me interessam pouco ou quase nada. Causam, sobretudo, enfado e desencantamento. As histórias que conto são maneiras de afagar a memória dos meus avós e a gentes de batuques, marafos e arrelias.