Um dia qualquer*

As portas de ferro da padaria se levantam às oito, como ontem, anteontem, semana passada, e o cheiro do pão vaza do forno pela rua afora num caminho invisível, feito só de desejo. Há uma fila, quatro ou cinco pessoas alinhadas à espera. Seu Risério, o dono, me acena de longe e eu ergo o braço direito, a mão espalmada girando e desenhando no ar o sinal de mais tarde passo aí. Ele volta a atender os fregueses.

A calçada guarda a réstia da chuva da madrugada, mas o sol, incipiente, já ameaça colher aquelas pequenas poças em seu regaço. Desisto de comprar pão porque a fome também se esvaiu. Desde ontem. Embora o organismo continue funcionando como máquina perfeita, a digestão, os processos todos, embora o último alimento tenha sido consumido há coisa de vinte e quatro horas, o apetite se recusa a fazer figuração.

Meu objetivo é aparentemente simples. Andar por cinco quarteirões e, chegando ao ponto almejado, retirar um documento. Não demora mais do que quinze minutos, me contaram.

Na loja de sucos, onde paro para engolir quase que à força a vitamina de mamão com laranja e cenoura, o assunto é a rodada de ontem. O time é um lixo, diz o atendente quando o senhor de cavanhaque faz troça da derrota do Flamengo. O time, não. O técnico é que é uma merda, basta sair na frente que bota todo mundo na defesa. Um merda, corrige o senhor. Pronome masculino. Não fode, Pereira. Não fode, que seu time também é uma merda. Pronome feminino.

Pago a vitamina e sigo pela avenida principal, que parece embaçada pela conjugação recente de sol e chuva. Dá licença, moço, a menina de trança me toca levemente as costas. Atrás dela, outras, de saias plissadas azul marinho e camisa social branca, para dentro. As mochilas passam ligeiras, deixando um rastro de vento e estridência.

Lembro do uniforme que usava nos tempos do curso primário. Os dedos longos da mãe ajeitando a gola da camisa, entrelaçados aos meus dedos de menino, do carro até a entrada da escola. Não esquece de comer a banana, banana tem potássio, alimenta. Tá bom, mãe, pode deixar, e a artimanha de trocar a banana por um pacote de pipoca doce, daqueles cor-de-rosa. As pipocas nem eram exatamente doces, uma ou duas a cada dez, e talvez nisso estivesse a graça. Na delicada alegria de fisgar o improvável, traduzido na carícia do açúcar que toca o palato.

Mais três quarteirões, checo o mapa no celular. Os camelôs começam a montar suas barracas. Daqui a pouco, a avenida estará tomada de gente, objetos, sujeira. O homem-sanduíche que veste a frase Compro Ouro me estica o panfleto. Não tenho ouro, recuso, e ele me entrega um segundo. As mulheres mais quentes do Centro. Até 20 horas, chope em dobro. Recuso, igualmente.

Temo por um segundo ter esquecido algum papel importante. Parado na esquina da avenida com a rua do cartório, verifico novamente a pasta. Certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF, título de eleitor, relatório médico. Em comum, o nome: Maria de Fátima Nogueira.

O nome que já não fala, avesso do corpo. E o Nogueira que resiste em mim, como se ressoasse o eco distante de um bumbo solitário. Atravesso a rua.

No cartório, é tudo muito rápido. Em poucos minutos, o funcionário me entrega a certidão. O óbito – assim se diz na linguagem burocrática dos balcões ­– é descrito em pormenores. Local e hora. O pulmão esmigalhado, o fígado com hipovolemia, as lacerações em diferentes órgãos após ação contundente.

Quando inicio a volta para o hospital, o sol já venceu a chuva por completo. As lojas anunciam nas vitrines suas promoções de Natal. Letras arredondadas, em vermelho e verde, brilhantes. Na entrada da galeria, um rapaz com o gorro de Papai Noel à cabeça reitera a mensagem dos cartazes. Natal barato é aqui, no Shopping Ouvidor.

Buzinas, bordões de venda, o silvo do apito do guarda de trânsito. O cachorro lambe a quentinha que o mendigo acabou de comer, refestela-se com os restos de feijão, enquanto seu dono dorme sobre duas folhas de jornal. Uma normalidade insuportável.

Encostado ao poste, o homem-sanduíche bebe um refresco de cor amarelada. Maracujá? Manga? Caju? Cogito os sabores enquanto percorro a avenida, agora em sentido contrário. Deve ser caju, está bem tênue o amarelo. Penso na acidez do caju, no frescor dos pães a comprar logo à frente com o Seu Risério, talvez porções de queijo e presunto, para meus irmãos que por tantas horas velaram uma esperança esparsa como o doce das pipocas de embalagem rosa.

Duzentos gramas de presunto e cem de queijo, por favor. O pão francês saiu agorinha, está quente ainda. Vou levar oito. Pode fechar. Bom Natal pra você. Pro senhor também. E feliz ano novo, digo, antes de sair.

 

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*Com o conto de Marcelo Moutinho, a Revista Caju dá sequência à publicação regular de textos inéditos de literatura brasileira.

O conto foi ilustrado com um detalhe da obra O horizonte, de Eloá Carvalho, 2016. Óleo sobre tela, 60 x 180 cm.