No livro Pele negra, máscaras brancas, Frantz Fanon aponta que o racismo herdado do colonialismo se manifesta explicitamente pelo viés do arquétipo físico, mas não apenas assim. A discriminação também se estabelece pela inferiorização de bens simbólicos daqueles que o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, visões de mundo, formas de celebrar a vida, de enterrar os mortos, de educar as crianças e assim por diante.

O discurso do colonizador europeu sobre os indígenas e os povos das Áfricas consagrou a ideia de que estes seriam naturalmente atrasados e a-históricos. Apenas elementos externos a eles – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental – poderiam inseri-los naquilo que imaginamos ser uma maiúscula História da humanidade.

Um boêmio que preferia sucos ao álcool

É instigante pensar como a reflexão poderosa de Fanon, elaborada no contexto das lutas anticoloniais, se encontra na encruzilhada com parte da obra literária de Jorge Amado. Longe de ser um apologista da ideia esdrúxula de “democracia racial”, ainda que tenha sido acusado disso, Jorge foi um reconhecedor e difusor dos saberes que circulavam nos terreiros e esquinas da Bahia e do Brasil. Reconheceu a importância simbólica do candomblé, por exemplo, em uma dimensão que rompe com o viés folclorizante e percebe no complexo cultural que envolve o culto aos orixás a sua altíssima e sofisticada relevância civilizatória.

Mas este é apenas um dos Jorges retratados por Joselia Aguiar no ótimo Jorge Amado: uma biografia, calhamaço lançado com sucesso de público e crítica no final de 2018 pela Editora Todavia. Estão no livro também o Jorge grapiúna das terras do cacau; o militante comunista de décadas, com boa dose de sectarismo, que se dizia ateu mas, ao mesmo tempo, tinha uma relação com o socialismo soviético bem próxima do dogmatismo religioso em tempos de Guerra Fria; o viajante que, paradoxalmente, parecia não ter saído da Bahia; o deputado federal constituinte de 1946, autor da lei que estabeleceu a plena liberdade culto no Brasil; o boêmio que preferia sucos ao álcool, não era musical e nem fã de praia; o escritor profissional que precisava produzir sempre e muito para viver de direitos autorais.

Jorge Amado e o antropólogo Pierre Verger participam de

Jorge Amado (à esquerda) e o artista Carybé participam de cerimônia do Candomblé na Bahia

Nada no livro é descartável

Na empreitada, Joselia marca alguns golaços. O primeiro é o de escrever um livro com mais de 600 páginas de texto com um fôlego que em nenhum momento dá sinais de esgotamento ou resvala no excesso. O segundo é o de conciliar a narrativa fluente, a trajetória do personagem, e a conjuntura histórica em que ele se insere com notável competência. Saí da leitura com a nítida impressão de que não há nada que seja descartável. Até o aparentemente corriqueiro ganha sentido para iluminar a trajetória do homem no tempo. Outro golaço – e talvez o mais difícil – foi o de driblar o personagem sedutor e, reconhecendo a sedução, apontar contradições, encarar temas espinhosos, dar ao homem e a sua obra a radical dimensão humana que se estabelece também nas limitações.

O personagem admiravelmente retratado por Joselia, enfim, é tão múltiplo que só me ocorre defini-lo de uma maneira: Jorge Amado foi um macumbeiro.

Explico: macumba é uma espécie de reco-reco tocado com duas varetas, uma fazendo o grave e outra, o agudo. O termo tem provável origem no quimbundo mukumbu, que significa “som”. Foi relativamente popular na época dos pioneiros do samba, e João da Baiana falava com frequência de sua importância. Macumbeiro, portanto, é o instrumentista que toca macumba. Mas Jorge Amado não era músico.

Acontece que macumba é um instrumento, mas designa também um conjunto de rituais religiosos resultantes do amálgama fabuloso entre os ritos de ancestralidade dos bantos centro-africanos, calundus, pajelanças, catimbós, encantarias, cabocladas, culto aos orixás iorubanos, arrebatamentos do cristianismo popular, espiritismos e o que mais couber no caldeirão.

Macumba, instrumento que se assemelha a um reco-reco, é também uma forma de designar certo conjunto de rituais religiosos de matriz africana

Macumba, instrumento que se assemelha a um reco-reco, é também uma forma de designar certo conjunto de rituais religiosos de matriz africana

A confusão entre o instrumento e as práticas religiosas deve-se a um compreensível problema de etimologia.  Antenor Nascentes, no Dicionário etimológico da Língua Portuguesa, e Raymundo Jacques, no fundamental O elemento afro-negro na Língua Portuguesa, sugerem que macumba, no sentido dos ritos, vem do quimbundo dikumba – “cadeado” ou “fechadura” –, referindo-se a cerimônias secretas de fechamento dos corpos. Nei Lopes, no Dicionário banto do Brasil, aposta que o termo vem do quicongo kumba – “feiticeiro” (o prefixo ma, no quicongo, forma o plural). Robert Slenes, em seu estudo sobre o jongo, aponta a mesma coisa.

A expressão macumba, portanto, pode designar tanto uma espécie de reco-reco como as cerimônias religiosas. A etimologia, porém, é distinta nos dois casos: a primeira deriva do quimbundo e a segunda, do quicongo.

Reconhecer a macumba é dar valor à alteridade e à impureza

Jorge é macumbeiro no segundo sentido: um feiticeiro que viveu e produziu os seus livros-ebós para despachar o carrego dos preconceitos brasileiros na encruzilhada em que qualquer essencialismo – e qualquer pedantismo característico dos que se sentem puros – é impossível. O espaço da macumba é o das impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas.

Como escrevi certa feita, “o macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes. A macumba é a terra dos poetas do feitiço; dos encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente e propor maneiras plurais de reexistência e descacetamento urgente pela radicalidade do encanto, em meio às doenças geradas pela retidão castradora do mundo como experiência singular de morte”.

Saí da leitura do livro de Joselia Aguiar convencido de que Jorge não virou orixá. É mais provável, para susto do materialista que ele declarava ser, que Jorge tenha dado uma de Jesuíno Galo Doido, que morreu para viver como caboclo nas macumbas da Bahia.

Posso assegurar que o terreiro em que o caboclo baixou tem mais de 600 páginas de encantarias.