Moscas

Corro o dia

Sem a mínima vontade de existir

 

Sou jovem e padeço

De possibilidades

 

Mas nada nesta vida é crucial

Exceto ganhar dinheiro

 

Porque já não há honra a resguardar

Ignoro o espectro do pai que pede vingança

 

Hamlet me ensinou

Tudo que nos retarda a ação

Retorna em forma de cadáveres

 

Será que falo difícil e ninguém me entende?

 

Tenho pesadelos com toboáguas

Detesto gente molhada deslizando em alta velocidade!

 

Vou ao mercado

Meu Deus quantos grãos cabem num pão de forma!

 

E na fila do banco tenho certeza

Sou um joguete dos deuses

 

Vou parar num retiro

No interior não consigo

Meditar de olhos abertos

 

Duas moscas circulam minha cabeça

E cada uma pousa numa bochecha

Estalo as duas mãos na cara

 

Vocês têm ideia do terremoto que isso representa na cabeça de um indiano?

 

Antes de ser expulsa o guru grita

Killing não!

 

Enquanto rege com os braços

Go moscas go!

 

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A imagem que ilustra este poema de Yasmin  Nigri faz parte de Surveilleance, trabalho em videoarte de Regina Silveira projetado sobre os prédios de São Paulo durante o Choque Cultural de 2016. Na obra, uma mosca gigante rodeia um facho de luz, em movimento entre o vago e o ameaçador.