Pra sempre privado de respostas

Chegou semana passada o convite de reencontro do pelotão, o convite para um churrasco, depois de dez anos de veganismo, viadice e sensatez. Talvez nem saibam por onde eu ando agora, ou apenas convidaram todo mundo, cada um dos trinta e cinco soldados que um dia rastejaram na lama, dormiram dentro de um lago, apenas com o rosto para fora d’água, aprenderam a atirar com fuzil. Eu era o desajeitado da turma, o bisonho, aquele que não conseguia acertar o compasso da ordem unida, não lembrava o hino de cor, transparecia má vontade, não conseguia sumir entre os outros. De tanto ser repreendido, resolvi um dia que seria um bom soldado, e fui, fui o melhor da turma da metade para o final do tempo de serviço, sempre levantando o joelho acima da cintura e vibrando com qualquer tarefa, pondo toda a masculinidade que havia em mim para fora, até um ponto em que comecei a gostar daquilo em que tinha me transformado, como se minha simples defesa ao querer deixar de ser o pior soldado tivesse me feito acreditar que eu pertencia àquele lugar, e mais, acreditar que tinha nascido para aquilo. Era o que o Exército queria. Meus colegas, que antes me odiavam, me olhavam com pena e desprezo, passaram a me admirar, como se tivessem visto aquela força finalmente, aquela força que sempre esteve lá. Depois de me formar no Exército e ter a vida ocupada pela universidade, virei militante de esquerda, conheci o garoto que viria a ser meu namorado, ressignifiquei aquele ano de serviço como uma lavagem cerebral bem feita. Me admiro com a naturalidade do processo, hoje até me considero psicologicamente mais forte, e me pergunto como estão meus colegas, aqueles que eram a um tempo companheiros e hostis uns com os outros, faziam questão de peidar alto à noite quando dormíamos no galpão, me olhavam torto mas passaram a me respeitar a partir da minha inflexão à normalidade. Já não sei que narrativas tomaram, se ainda são os mesmos, se aderiram ao neoconservadorismo, se me odiariam, se é tudo coisa da minha cabeça, mas, afinal, o que não é? Ir ao churrasco é questão de honra, e é por isso que estou agora com o dedo na campainha, não pode ser que eu tenha inventado todas essas maquinações; prefiro ver todos rindo de mim, e eles já estão, ao entrar já percebo que não queriam a surpresa da minha presença, já vejo caras de nojo e revolta, talvez eu saia desse churrasco sob socos, mas prefiro reviver traumas depois de tantos anos em que aquelas cenas ficaram grudadas no fundo da minha retina do que ser para sempre privado de respostas.

 

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A imagem que ilustra o conto de Tobias Carvalho é um desenho sem título de Nazareno