Lyz 40º se configura através de uma narrativa carioca-kitsch-tropical a partir das linguagens de rua da cidade onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida. Hoje, já em seu segundo deslocamento após residir em São Paulo, vive em Paris, fazendo da exposição uma releitura afastada da cidade “caos-tropical”. 

O Rio de Janeiro, o paraíso maravilhoso das praias mais bonitas do mundo, também é palco de grandes atos de violência dos mais variados tipos. As atenções da mídia aos crimes nem sempre são homogêneas ou solidárias às vitimas, ou melhor… na maioria das vezes é questionado se a vitima possuía integridade suficiente para ter sido mantida viva. E por sua vez, a integridade geralmente está atrelada também ao corpo da vitima. A comunidade LGBTQ+ é uma das mais afetadas por preconceito e violência nas ruas cariocas.

Mas em nome da beleza, do espírito despojado e do humor leve, não questionamos e muito menos resolvemos esses crimes e ações nefastas na frequência e da forma que deveríamos. Não é à toa que Lyz Parayzo avaliou a ironia da situação carioca e criou uma série de obras que desafiam o olhar e a suposta verdade da nossa sociedade patriarcal. Através de releituras de anúncios urbanos de serviços sexuais, ela se dispõe a descolonizar esse olhar, dar palestras sobre as dívidas históricas e armar pessoas com joias bélicas contra o “macho-astral”. Seu corpo é palco para isso. Sua forma transsexual permite essa descolonização de visão e o início do diálogo de inclusão ao ser, em si, um espaço deslocado e um campo aberto para a multiplicidade de pensamento e crítica.

Enquanto os posters estimulam a contemplação do problema em questão, as obras bélicas são o armamento dessa luta. Suas “Bixinhas”, objetos baseados nas famosas obras de Lygia Clark, têm cerdas afiadas para previnir que o espectador manipule. Estas não têm dobradiças, seus corpos não mudam nem ganham novas formas ao serem manipuladas. Elas optaram por uma forma e desta forma ficarão, sem que ninguém ameace impor mudança nelas. Cada uma tem a sua estrutura, podendo unir círculos a quadrados ou não, com as cerdas sempre exageradas. São obras-armas para a proteção desta manipulação da sociedade.