(…) E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos.

Ray Bradbury, Fahrenheit 451.

 

 

O que você salvaria se tivesse apenas alguns minutos para escapar de um incêndio? Como tentaria fugir? Conseguiremos escapar das queimadas cognitivas a que temos sido submetidos?

Estas perguntas relampejam a minha cabeça quando percorro esta primeira individual de Danielle Cukierman. A mostra é baseada em signos ligados à prevenção de incêndios e reafirma o interesse da artista pela ressignificação de materiais industriais e da sinalização urbana. Além de uma série de gravuras – trabalhos que se apropriam dos elementos gráficos das placas de orientação para a fuga em caso de fogo – a exposição reúne dois trabalhos site specific. O primeiro é “Emergência”, um conjunto de tapetes recriados a partir do retângulo vermelho e amarelo que sinaliza as áreas com extintor de incêndio em locais públicos. O outro é “Resguardo”, instalação na janela e na porta de sua sala na galeria que reverbera na fachada da Villa Aymoré, dialogando com a escultura permanente de Iole de Freitas instalada no prédio.

DANIELLE CUKIERMAN geral“Resguardo” é uma cortina feita de PVC colorido, que, nas cores específicas utilizadas pela artista (âmbar, verde, amarelo), serve para a proteção contra faísca em áreas industriais de solda. Seu título e as ambiguidades nele contidas me fazem crer que  Danielle dialoga com a noção de ready made, mas a ultrapassa, realizando uma operação recorrente na arte brasileira. A apropriação que a artista faz de materiais que já estão no mundo é recoberta por uma teia narrativa, que lhes embaralha os significados originais. Cria com isso o que gosto de chamar de “objetos turbulentos”, tomando emprestado o título de um livro do escritor goiano José J. Veiga, um mestre da literatura fantástica.

Na coletânea de contos Objetos turbulentos, J. Veiga imagina vidas secretas e invisíveis para objetos comuns, caso de um soturno relógio de parede.  Na arte de nosso país, o que chamo de “objetos turbulentos” é algo que recobre o legado de Duchamp com uma camada de frescor e de inquietação, enchendo sua Fonte de desdobramentos. Mas o que seriam tais objetos? Quando penso em Dado, de Cildo Meireles, ou em Satélites, obra em que Antonio Dias se apropria das latas redondas de queijo do Reino, enxergo tais “objetos turbulentos”. Se Cildo assume que seus objetos são “semânticos”, Antonio cria com as latas de queijo uma espécie de móbile, que insinua uma galáxia, fazendo com que o título insinue a fricção, o ponto de turbulência a que me refiro. Os Satélites de Antonio vêm de latas retiradas de sua função industrial, mas há menos ênfase na operação conceitual que lhes altera o campo do que no esforço semântico de lhes criar novos fluxos de discurso, falas estas que são silenciosas, recalcadas. Eu me arriscaria a dizer que, se pensarmos nas neovanguardas dos anos 1960 e 1970 de nosso país, fica claro um viés poético e literário na abordagem do objeto, que passa a ser não apenas um objeto viajante, que se desloca da indústria para o museu, mas também um objeto narrador, que inventa novas histórias para si. Esta abordagem narradora é um paradigma para as gerações posteriores.

Ao longo de sua trajetória, Danielle tem caminhado para uma inscrição nessa abordagem do objeto oriundos da indústria e também dos restos e obsolescências oriundos da atividade industrial. Isso fica evidente nos trabalhos seminais da série Parahyba, pinturas criadas a partir dos cobertores populares utilizados pela população de rua das grandes cidades brasileiras. O interesse da artista pelo material em si é evidente, já que ela enfatiza o aspecto táctil e a geometria existente nos cobertores. Mas sua obra extrapola a fronteira do trato formal, embora de forma alguma possa ser restrita ao que alguns críticos chamariam de “relacional”. O interesse de Danielle não é no histórico dos refugos, e nem nas odisseias de cada objeto (ela jamais trabalhou com cobertores de fato usados por desabrigados, por exemplo, preferindo materiais “novos”). Mas fica evidente que a artista pretende acessar a memória que cada um de nós tem dos materiais e dos signos gráficos que utiliza, contribuindo de forma decisiva para isso dois aspectos recorrentes: o cuidado com os títulos e a ênfase no aspecto táctil dos trabalhos.

DANIELLE CUKIERMAN fachadaNo caso dos títulos, Parahyba (ao mesmo tempo a marca dos cobertores populares e o termo preconceituoso e redutor com que se referem aos nordestinos e pobres) é um marco inicial, mas Resguardo também é um ótimo exemplo para o que estou tentando dizer. Parte da série “Entre”, que cria cortinas com tiras de PVC colorido. Elas sempre convocam o corpo do visitante das exposições, que precisa ultrapassar essa barreira translúcida entre um ambiente e outro, entre o dentro e o foro. Resguardo ocupa, sem nenhuma timidez, a fachada e a área interna da Aymoré simultaneamente.  Trata-se de um trabalho que, embora ocupe fisicamente o dentro e o fora com uma única instalação, jamais acontece dentro e fora a um só tempo. Durante o dia, é o momento de Resguardo tingir com suas cores as paredes da galeria, dialogando com os demais trabalhos de Rota de fuga. Á noite, sua presença na área interna se dilui, com as tiras coloridas transformando-se em um plano opaco. Em compensação, as cores brilham na face voltada para a rua, alterando o aspecto do prédio e sinalizando que há algo de diferente acontecendo em seu interior.

Sinalizar. É disso também que fala essa exposição, que de alguma maneira ecoa os momentos terríveis que temos atravessado, individualmente e como nação. Em Emergência, Danielle volta a sobrepor seus interesses formais e semânticos. Ela cria com tapetes de sinalização de incêndio um tapete-mosaico, totalmente irregular. Se por um lado a instalação brinca, gestalticamente, com a apreensão da cor e com uma releitura no chão dos Metaesquemas de Hélio Oiticicapor outro o título e a função desses tapetes reveste o trabalho com a camada de turbulência narrativa a que me refiro desde o início deste texto. O piso da galeria em estado de atenção. O piso da galeria alertando: em caso de fogo…

Como reagir? A xilogravura Escape e as duas da série Quebra evocam e subvertem signos de placas contra incêndio. Elas estão banhadas de certa angústia e o fato de terem sido feitas a partir de uma matriz em madeira faz com que haja corpo e textura nessa aflição. A atmosfera opressora talvez resida no fato de que elas são e não são sinalizações reais. Mas os sentidos libertadores também residem aí: a ficção é, em si, uma porta de saída. Ou de novas entradas, como mostra outra gravura, Encurralados,  monotipia realizada no verso do paspatur, papel de gramatura alta que geralmente é usado como moldura nas gravuras. Em uma operação metalinguística e mais uma vez coalhada de interesse semântico, Danielle traz as margens para o centro, o refugo para o protagonismo. As figuras quase invisíveis que convergem e se amontoam em um ponto de encontro, aparentemente encurraladas, poderiam ser a síntese da multidão de discursos quase invisíveis que povoam a obra desta artista inquieta.