As relações entre o corpo e a cidade sempre fizeram parte da obra da artista paulistana Lia Chaia, e essa seleta de trabalhos recentes enfatiza essa fusão. Expondo pela primeira vez no Rio a partir do convite conjunto das curadorias da Revista Caju (Daniela Name) e da Galeria Aymoré (Gabriela Davies), Lia apresenta o trabalho sonoro “Percurso” ao lado de um grupo de outras obras que enfatizam as possibilidades de uma descoberta peripatética do mundo. Na instalação site specific “Desenho coreográfico”, Lia convida o visitante a reescrever o espaço com o movimento de seu corpo. Já nos “Setamancos”, outra proposta interativa, o caminhar pela galeria muitas vezes contraria a seta estampada no calçado, que aponta para outra direção. O contraste entre os fluxos orgânicos do corpo e a demarcação cartográfica da linguagem também está presente nos “Desenhos-carimbos-setas” e no vídeo “Bolas”. Tanto este último trabalho quanto a narração à la GPs de “Percurso” evidenciam o humor como um marca mobilizadora e transgressora da obra da artista. Esta entrevista foi feita por Daniela Name e Priscila Medeiros, curadora e curadora assistente da Caju.

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Percurso, exposição na Aymoré, é uma reunião de trabalhos recentes e outros nem tanto, mas todos inéditos no Rio. No seu entender, há um fio entre eles, proposto pelo seu diálogo com a curadoria?

LIA CHAIA: É a minha primeira individual no Rio de Janeiro e nunca exibi nenhum dos trabalhos na cidade. Foi muito legal a liberdade que tive para montar essa exposição. Alguns trabalhos são novos, outros nem tanto, mas de um modo geral são trabalhos que falam do movimento, de não estar parado. É m movimento incessante, que às vezes é descontrolado; outras vezes é totalmente controlado. No áudio do trabalho Percurso, a sugestão é que a pessoa siga esse aúdio em que narro uma espécie de GPS e veja onde vai parar. Nos Setamancos, a sugestão é que o visitante caminhe pelo espaço, experimentando essas direções que os calçados indicam, sugerem. Já o Desenho coreográfico sugere que se feche os olhos e siga em contato com as linhas da parede. O que acho interessante nessa exposição é que ela reúne trabalhos que exploram vários sentidos, não só no campo sensorial (olhar, tato, audição), mas também o sentido das setas, da direção.

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Nas suas obras o corpo é o assunto principal, mas não qualquer corpo, você fala de um corpo que sente que habita o mundo, de um corpo que habita o próprio corpo em suas limitações, incômodos e verdades. Em Glan, de 2010, por exemplo, é seu corpo-mulher-grávida que se move a todo momento parecendo buscar uma posição confortável. Em outros trabalhos você dialoga com a arquitetura e a paisagem. Como isso se conecta para você, como pesquisa? Pensando nisso, gostaria que você comentasse um pouco sobre o seu processo e como você pensa os seus programas performativos.

LIA: Eu acho que o corpo é uma maneira do corpo é uma maneira de perceber e estar presente no mundo. É com ele que eu faço ao meu trabalho, com ele que eu vou caminhando na cidade comprar material. Então no fim das contas o corpo é uma forma de eu pensar o meu trabalho e ter ideias e estímulos. Pensar esse corpo performático é importante, e estou sempre buscando encontros que trabalham o corpo, tanto de dança quanto de teatro, para estar sempre despertando esse estado de presença. E também para ir “pensando junto com o corpo”, para não ser só com a cabeça sempre. Quando uso o corpo nas performances, estou sempre aprendendo e vivendo o mundo. É um corpo poroso, que está aprendendo e recebendo a paisagem que o rodeia. Um corpo que pisa na terra mas que também está recebendo a terra que está pisando. O corpo performático é uma maneira de estar presente e estar em contato com os outros corpos, com as outras pessoas, uma maneira de escutar com outros olhos e outros ouvidos o meu entorno.