Há sempre muito a dizer sobre as contribuições de Leandro Vieira para o carnaval do Rio, mas, se o assunto é enredo – tanto os elementos para criá-lo quanto os elementos que ele cria – nada é mais importante do que pensar no legado que os desfiles assinados pelo artista têm deixado em termos de imagem. Desde a estreia de Vieira na Mangueira, em 2016, com um mergulho nas relações de Maria Bethânia com a religiosidade e a cultura ancestral do Recôncavo Baiano, cada passagem da verde-e-rosa no Sambódromo tem sido a reafirmação de que o carnaval não foi feito terminar na Quarta Feira de Cinzas, muito pelo contrário: maior manifestação artística e cultural deste país, a festa precisa reverberar depois de seu fim, com as imagens e os outros conteúdos poéticos gerados por uma escola de samba vivendo um processo de ressurreição contínuo a cada vez que são revistos.

Hoje com 36 anos, Vieira tinha apenas 31 e um único desfile no currículo, pela Caprichosos de Pilares na Série A, quando chegou à Mangueira em 2015, como o “novato” que assinaria o carnaval seguinte da mais popular das escolas cariocas. Mas foi justamente isso – o fato de a Mangueira ser o mais vistoso diamante de nossa cultura popular – o que assegurou um casamento perfeito entre a identidade da escola e os interesses plásticos e conceituais de seu novo diretor artístico.

Desde este começo até o desfile sobre Jesus em 2020, Vieira não tem optado exatamente, como grassa o senso comum, por “enredos políticos”. Como venho insistindo em todos os textos sobre carnaval, toda arte é política – sempre será. Quanto mais profundo for o mergulho de um artista nos fundamentos da linguagem onde ele está se exercitando, mais evidente ficará o caráter mobilizador da arte e, portanto, mais política ela parecerá ser – porque é política mesmo quando não quer ser.

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Neste ponto, o conjunto plástico, já temos em curso na história da folia a construção de uma assinatura singular. Ano a ano, a Mangueira repete certas escolhas estéticas que fazem com que os elementos visuais do desfile, sobretudo fantasias, sejam identificáveis como “um Leandro Vieira”. Alguns desses elementos sofrem variações a partir do enredo – evidenciando-o mais uma vez como uma grande fonte que irriga todo o desfile. Um exemplo importante, no carnaval deste ano, foi a mescla entre as estrelinhas de acetato nos esplendores, uma das marcas do carnavalesco, com caules cheios de espinhos, numa clara alusão à Paixão de Cristo.

Há outras opções recorrentes, como o esplendor em formato de meia-lua, as sobreposições de estampas e tecidos de fibras muito distintas. Uma marca visual que me parece apontar para uma síntese de um pensamento de Vieira é o uso da costura aparente, a construção das roupas como uma espécie de mosaico de retalhos, muitos deles com a presença de imagens – como se cada figurino fosse uma narrativa sendo formada por muitos pedaços, vindos de tempos e matérias-primas distintas. E não é desse tipo de retalho de imagens e sentidos que fazemos todas histórias?

A cada desfile, pelo menos uma imagem-âncora, feita para durar

Mais do que “marcas visuais”, o que tem sido uma contribuição decisiva deste criador é a construção de imagens feitas para durar. A cada desfile, temos pelo menos uma grande âncora, uma alegoria, fantasia ou adereço que serve como vetor daquilo que a Mangueira quer “continuar falando” mesmo depois do carnaval.

A porta-bandeira Squel, vestida como uma iniciada do candomblé

A porta-bandeira Squel, vestida como uma iniciada do candomblé

Logo em 2016, a pedra atirada em uma criança iniciada no candomblé (relembre o caso clicando aqui) motivou Vieira a transformar Squel Jorgea, porta-bandeira da verde-e-rosa, em uma filha de santo. Com os braços pintados e uma touca cobrindo os cabelos para simular a cabeça raspada – idêntica à da menina apedrejada – Squel girou para fazer rolar a imagem que se transformaria em vetor de tudo o que um desfile sobre Maria Bethânia poderia querer dizer.

Em 2017, foi a vez de um elemento cenográfico sincretizando Jesus ao orixá Oxalá ser o catalisador da intolerância, transformando o carnaval naquilo que ele deveria ser continuamente: o palco das discussões e das disputas contemporâneas. Censurada pela Igreja Católica e retirada do Desfile das Campeãs, a alegoria parece ter ressurgido no enredo da Mangueira deste ano, na fantasia de Jesus Oxalá trajada pelas baianas. Para mim é bastante comovente pensar no corpo sincrético e africano de Cristo ressurgido no colo das guardiãs do axé, das grandes mães do carnaval. As baianas como pietás periféricas e suburbanas.

Em 2020, o carro Jesus-Oxalá censurado em 2017 ressurge na fantasia da Ala das Baianas: pietá para o Jesus negro e sincrético

Em 2020, o carro Jesus-Oxalá censurado em 2017 ressurge na fantasia da Ala das Baianas: pietá para o Jesus negro e sincrético

Em 2018, o conjunto plástico e cromático criado pelo carnavalesco foi mais impactante do que uma imagem gerada, embora seja impossível esquecer do prefeito Marcelo Crivella transformado no “Judas” a ser malhado na Semana Santa, no topo de uma das alegorias. Já o desfile do ano passado ainda está acontecendo, com escolas de todo o Brasil reaprendendo seus currículos de História graças às personagens recuperadas por Vieira no enredo sobre as narrativas marginais que poderiam “ninar gente grande”. Mas foi a bandeira de um outro Brasil, pintada nas cores da Mangueira e com “Negros, pobres e índios” no lugar da “Ordem e progresso” que se transformou num misto de consolo e de plataforma utópica para muitos dos que assistiram àquele desfile.

 

A própria Mangueira deu corpo e cor ao redesenho simbólico da bandeira proposto por Vieira no desfile arrebatador de 2019

A própria Mangueira deu corpo e cor ao redesenho simbólico da bandeira proposto por Vieira no desfile arrebatador de 2019

 

Criticado em algumas justificativas do júri e também por parte do meio de carnaval pelo que se entendeu como uma “estética de passeata” no desfile de 2019, Vieira apostou este ano numa base narrativa híbrida para dar sustentação ao seu enredo sobre Jesus Cristo. Se na comissão de frente Jesus usava jeans, fazia selfie e era achacado pela polícia com seus brothers da favela, nas três alegorias seguintes a subversão proposta pelo enredo era uma espécie de camada sobreposta ao imaginário clássico sobre Jesus. Faces negras, femininas, indígenas e LGBTQI+ do Cristo recobriam a manjedoura e a chegada de burrico a Jerusalém, enquanto o carro sobre o templo não tinha qualquer intervenção “contemporânea”.

‘Jesus da gente’ foi retomado no terço final do desfile

Essa dualidade nas alegorias (acompanhada nos segmentos correspondentes por fantasias “bíblicas”, ligadas a uma narrativa reconhecível de Jesus), não chegou a prejudicar enredo – premiado com justiça com cinco notas 10 – mas pode ter contribuído para uma espécie de curto-circuito cognitivo por parte do público. Afinal, o que a Mangueira pretendia mostrar? Um Jesus atualizado, “moleque pilintra do Buraco Quente”, ou o Jesus já fundamentado pela Bíblia, com variações? Esta dúvida e ausência de um final mais contundente de ressurreição e compaixão podem contribuído para uma apresentação menos calorosa da Mangueira. A melodia do samba em tom menor, uma concentração bastante caótica e o peso inevitável – e necessário!!!! – do próprio tema podem ser considerados parcelas nesta conta.

O Jesus negro e favelado da Mangueira este ano - Foto Ana Carolina Fernandes

O Jesus negro e favelado da Mangueira este ano – Foto Ana Carolina Fernandes

A opção pelo “Jesus da gente”, atravessado e martirizado pelas dores de hoje, foi retomada por Vieira nos segmentos finais do desfile, a partir do carro sobre a Paixão. Não por acaso, estão localizadas neste terço final as duas imagens que, isoladamente,  serão as mais importantes que este carnaval de 2020 vai perpetuar: o gigantesco corpo negro e favelado crucificado e a aparição – caracterização e performance – da rainha de bateria Evelyn Bastos como um Jesus mulher martirizado pelo feminicídio. O corpo negro cravejado na cruz, bofetada na cara, é a vítima sem nome nos jornais, os meninos de favelas chamados de “suspeitos” e computados como número, e não como identidade. O corpo silencioso e propositalmente sem samba de Evelyn é o de inúmeras mulheres que muitas vezes aceitam nova surra e se calam, com medo do que avaliam como um mal maior – deixar seus filhos sem mãe.

A Rainha da Bateria Evelyn Bastos e o ator Arthur Leal, que interpretou Cristo na comissão de frente - Do Instagram de Evelyn Bastos

A Rainha da Bateria Evelyn Bastos e o ator Arthur Leal, que interpretou Cristo na comissão de frente – Do Instagram de Evelyn Bastos

Estas não são imagens quaisquer, e por elas tendo a achar que a descalibragem de alegorias e fantasias no desfile da Mangueira este ano é digna de nota, mas está longe de ser fundamental. O que é urgente mesmo é termos imagens que vão sobreviver, por conseguirem fazer um salto elástico de tempos, acessando dados muito importantes do nosso passado colonial e escravocrata – sulcado na nossa memória – e ao mesmo tempo bagunçando-o a ponto de roçar o futuro.

A urgência de disputar Jesus como narrativa

É exatamente por isso, por serem imagens-portal, daquelas que sobrepõem tempos e escavam dores, que estas imagens geram o mesmo nível intenso de atração e repulsa. Quem as repele procura camuflagem e seu conjunto de alfinetes para o ataque em argumentos do tipo “Rainha de bateria tem que sambar” (Onde está escrita esta “regra”? O corpo inerte não é também uma forma de dança, do mesmo modo que o silêncio é uma fala?). Ou ainda: “O desfile e o enredo da Mangueira são conservadores, porque Cristo é uma herança europeia”.

Sobre esta última frase, digo que Cristo de fato veio como imposição, mas aqui foi amalgamado e sincretizado a tudo aquilo que é muito nosso: na umbanda carioca, no Senhor do Bonfim, no “Ai, Jesus”, interjeição que se presta a cobrir tantas das nossas emoções. Se pode ter começado como arma do inimigo, Jesus acabou engolido como o Bispo Sardinha e assumido como nossa memória e identidade.

Não é possível que quem tenta sustentar o argumento de um conservadorismo por parte da Mangueira não pare para pensar no que é o Brasil de hoje, e também o carnaval de hoje. Vivemos em um país açodado por correntes mistificadoras totalitárias, que usam o nome de Jesus para incitar o ódio e assegurar o poder político – cada vez mais institucionalizado. Vivemos em uma cidade em que baianas e mestre-salas abandonam seus postos nos desfiles porque virou pecado sambar.

O que pode ser mais urgente, então, do que disputar a narrativa sobre Cristo numa festa que tem em suas entranhas uma favela pentecostal?

O que pode ser mais contundente do que pensar em Evelyn como Claudia, arrastada pelo camburão da polícia, ou todas as mulheres negras espancadas e mortas por seus companheiros, pais e namorados nos morros como o da Mangueira?

O que pode ser mais esperançoso do que chorar pelo Jesus menino negro de cabelos platinados, crucificado cheio de tiros por “ter cara de bandido” e vê-lo ressuscitar nas vielas da Mangueira – ou da Maré, da Babilônia, da Providência, do Jacaré, do Alemão – para brincar o carnaval?

Sei lá, não sei, não.

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Entrevista publicada com Leandro Vieira em 2019 – Clique AQUI