Em livro sobre o sistema oracular de origem africana, Nei Lopes ilumina uma tradição de admirável força simbólica, mística e literária

 

Há uma pergunta recorrente a quem se revela iniciado no Culto do Ifá: mas é candomblé ou umbanda? Apesar do vínculo com essas duas doutrinas, também baseadas na cosmogonia dos orixás, o Ifá tem características singulares. É um sistema completo de comunicação com o mundo invisível que combina espiritualidade e racionalidade, e em torno do qual uma religião se desenvolveu, como ensina Nei Lopes no recém-lançado Ifá Lucumí – O resgate da tradição.

“O Ifá surgiu não como culto, e sim como instrumento para responder a questões; um oráculo, enfim”, salienta o cantor, compositor, ficcionista e estudioso dos saberes africanos. Nei explica que a tradição dos orixás é oriunda do ambiente nagô-jeje dos atuais territórios dos povos iorubás de Nigéria e Benin. “Tudo o que é do candomblé ortodoxo tem origem nos saberes de Ifá. E a umbanda tem como base a liturgia do candomblé”, diz. Isso não significa, como faz questão de pontuar no livro, que se trate de uma “linha auxiliar”, subsidiária de outras vertentes religiosas.

Mitologia definidora de nossa identidade

Sem revelar informações acessíveis apenas aos que se submeteram aos ritos iniciáticos, a obra propicia ao leitor um mergulho no riquíssimo universo místico e simbólico da tradição trazida ao Brasil a bordo dos navios negreiros. Sua importância não se esgota na abordagem do tema específico. Ao abordar o Ifá, o autor acaba por lançar luz sobre uma mitologia que, embora tão definidora de nossa identidade, costuma ser ignorada por aqui.

Nei investiga as origens do culto a partir da África Ocidental, traçando uma linha histórica até o desembarque nas Américas. Ao longo das 224 páginas, propõe analogias com outras práticas oraculares, como a do chinês I Ching, igualmente baseado na decodificação de séries de linhas inteiras e partidas. Vale ressaltar a caprichada edição da Pallas, ainda mais valorizada pelas ilustrações de Pedro Rafael, que assina também a capa do livro.

O oponifá, tabuleiro do Ifá, na ilustração de Pedro Rafael para o livro

O oponifá, tabuleiro do Ifá, e a leitura do babalaô nos caroços de dendê: ilustração de Pedro Rafael para o livro

 

O sistema divinatório do Ifá centra-se no oponifá, espécie de tabuleiro, e no opelê, corrente metálica dupla, que traz quatro elementos incrustrados em cada uma de suas partes. É a partir das figuras formadas pelo opelê que o babalaô vai “ler” as mensagens enviadas por Orumilá. O jogo pode ser feito também por meio de ikins, os caroços do dendê.

No Ifá, portanto, é Orumilá, a divindade da sabedoria e do conhecimento, quem fala. E essa comunicação se dá através dos odus. São, ao todo, 256, que constituem a base do conhecimento e os signos de destino dos indivíduos. Cada ser humano tem um odu relacionado à sua caminhada pela existência. Os odus apontam interdições, vocações, orientando também sobre oferendas (os “ebós”), alimentação e cuidados com a saúde. As narrativas deles emanadas, chamadas de “itãs”, formam um mosaico de histórias míticas.

No obra, Nei mostra que, para além do aspecto religioso, os itãs compõem um precioso corpo literário. “Eles fundamentam os ritos; mas são,  acima de tudo, apólogos, parábolas de fundo filosófico”, observa.

Assim como outras religiões africanas, o Ifá baseia-se numa dialética distinta daquela professada por tradições como a do cristianismo. Nei realça essa perspectiva ao dissecar a relação entre Orumilá e Exu. O primeiro é destino e lógica. O segundo, acidente e paradoxo. E ambos se complementam. “A complementaridade entre Bem e Mal é indispensável ao equilíbrio do Universo. Um não existe sem o outro. E Exu (Eleguá) é o dínamo e  o vetor da relação entre essas duas possibilidades”, sublinha o autor.

‘O inferno é aqui mesmo’, diz autor

Sob tal concepção, emerge uma mitologia que situa o Inferno, por exemplo, em lugar menos etéreo, mais próximo do humano. Ao evocar o ensaísta Adrian de Souza Hernández, Nei afirma que se há algo que se parece com o Inferno, é a Terra, “o lugar situado abaixo do céu, onde é gerada a energia negativa”. A passagem remete ao protagonista-narrador imaginado pelo escritor italiano Italo Calvino, em As cidades invisíveis. O personagem, ao fim do romance, observa: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele no qual vivemos todos os dias”. Segundo Nei, essa noção saltou da tradição oral – e dos livros – para a sabedoria popular: “O inferno é aqui mesmo”, como se diz por aí. Mal absoluto não chega às instâncias onde agem as energias superiores”.

O livro não se furta a temas polêmicos, como o sacrifício de animais e o impedimento de mulheres no sacerdócio. Ilustração Pedro Rafael

A caprichada edição da Pallas tem ilustrações de Pedro Rafael

Para o Ifá, como o livro relata, a natureza não é espírito, nem matéria. É força vital, traduzida pelo axé presente nos objetos sagrados, na comida, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo com o ritmo do tambor. “Não há distinção entre o natural e o sobrenatural, nem entre matéria e espírito. O espírito é um sopro que se pode sentir, uma chama que pode nos aquecer ou queimar. A doença é como um elemento estranho, que se pode tirar do corpo; o sonho é a própria ação”, escreve Nei.

O livro toca em questões polêmicas, como os ritos sacrificiais. Embora o sentido de oferecimento ao sagrado esteja na própria etimologia da palavra “sacrifício” (“fazer agradável aos deuses”), a prática é condenada por alguns setores da sociedade. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal foi chamado a decidir em processo que tentava impedi-la. O rumoroso caso não escapa à avaliação de Nei, cuja formação é de advogado. “Entre os argumentos levados ao STF nesse julgamento, estava o de existência de sacrifícios, não apenas simbólicos, nos ritos tradicionais do judaísmo e do islamismo. E aí o princípio da isonomia prevaleceu”, conta.

Outro tópico controverso que não escapa de exame é a crítica a uma suposta posição subalternizada do gênero feminino nos cultos das religiões africanas. Nei argumenta que, se à mulher é vedada a possibilidade se ser babalaô, seu papel é importantíssimo em outras partes essenciais do culto. “Há a observância do preceito seguido nas sociedades tradicionais, segundo o qual cada gênero e cada grupo de idade ocupam lugares específicos, desempenhando tarefas pertinentes, em proveito e benefício da organização social”, argumenta.

Quanto à costumeira correlação entre religiosidade africana e feitiçaria, Nei é categórico. “O colonialismo se alimentou dessa falácia, que perdura no racismo de hoje”, afirma. Em dinâmica similar, recai sobre as tradições provindas da África uma contumaz pecha de fetichismo pelo uso de artefatos como morada simbólica de seres espirituais. O que, curiosamente, não se repete com relação a outros sistemas de crença. Bom exemplo é o do próprio catolicismo: a hóstia consagrada, para seus adeptos, representa o corpo de Cristo. “Uma estatueta ou máscara de um ancestral é um símbolo que invoca sua presença e seus atos, e não o ancestral em si; do mesmo modo que ferramentas, insígnias ou pedras votivas consagradas a divindades são apenas representações desses seres ou forças, isso é, signos que manifestam a presença espiritual deles entre os vivos, e não eles em si mesmos”, explica o autor.

Cuba: território de força da religião

A segunda metade do livro é dedicada a analisar especialmente o Ifá Lucumí, a vertente cubana da religião. Cuba, aliás, foi onde o culto se desenvolveu com mais força. No Brasil, há nos últimos anos um reavivamento da prática, depois de sua quase desaparição na década de 1930. “Uma das explicações para esse apagamento pode estar no longo período exigido pela formação de um babalaô. Então, a consulta através dos búzios, que é uma simplificação do sistema Ifá, acabou prevalecendo”, conclui Nei. Segundo ele, a popularização em Cuba deveu-se à simpatia de alguns governantes e ao fato de o país ter-se convertido em atração para religiosos de outros cantos, como o próprio Brasil. “A questão foi mais econômica e política do que étnica”, resume.

No livro, Nei não foge de temas polêmicos, como o sacrifício de animais e o impedimento para que mulheres se tornem babalaôs.

No livro, Nei não foge de temas polêmicos, como o sacrifício de animais e o impedimento para que mulheres se tornem babalaôs.

O autor lembra a oposição, proposta pelo sociólogo Roger Bastide, entre as “religiões em conserva” – aquelas que, embora vividas intensamente por seus adeptos, imobilizam-se numa espécie de “mineralização cultural” – e as “religiões vivas”, que se abrem a inovações capazes de mantê-las acesas. Desse contraste, sobrevém a convicção de que o Ifá se enquadra no segundo caso. “Quando efetivamente se constitui em uma religião, e não apenas um instrumento de consulta às divindades, o Ifá incorpora em Cuba práticas da santería e, no Brasil, usos do candomblé, sobretudo música e dança, em situações específicas. Outras adaptações eventualmente necessárias ainda hão de surgir”, aposta.

De acordo com as premissas do Ifá, a existência transcende o tempo da estada do indivíduo no planeta Terra. Isso se daria por intermédio das lembranças que ele deixa após a morte física. A memória seria, assim, uma forma de existir. Com Ifá Lucumí – O resgate da tradição, Nei Lopes faz um movimento de permanência, de axé. E finca mais um pilar na preservação dessa secular filosofia.