Texto originalmente escrito para a exposição Catilina, de Angelo Venosa, inaugurada em 1 de agosto de 2019, no Paço Imperial.

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Tudo que é sólido se desmancha no ar – a frase do manifesto que mudou o século 20 tão dolorosamente atual. “Não posso te dar tempo, porque eu sou o Tempo” – sentença que ressoa através do espelho. A l’America noi siamo arrivati/ Non abbiam trovato nè paglia e nè fieno/ Abbiam dormito sul nudo terreno/ Come le bestie abbiam riposà, diz a mais conhecida canção dos italianos que chegaram ao Brasil para se refugiar da fome e da guerra, numa tentativa de adiar a morte.

Estamos sempre tentando adiar a morte.

E é também sobre isso Catilina, uma espécie de besta que repousa e desperta no Paço Imperial, depois regurgitar para o ambiente da Sala 13 de Maio uma parte de si. Refugo e memória de um corpo que faz o caminho de volta ao pó. Areia, ruína. Areia, tempo. Areia: borda do mar, exílio.  A escultura-intervenção de Angelo Venosa parece ter as três patas que a sustentam apoiadas nessas possiblidades simbólicas. Um equilíbrio instável, avesso da harmonia pleiteada pelas Três graças, e que parece iluminar a trajetória do artista, reforçando aspectos ainda pouco analisados em sua obra.

Catilina foi o político corrupto que tentou destruir a República Romana, minando-a por dentro. Em 63 a.C, Cicero proferiu a série de discursos conhecido como Catilinárias, tentando barrar o golpe planejado por seu adversário político. O trecho dos discursos com a pergunta Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? (“Até quando, Catilina, você vai abusar da nossa paciência?”) se mantém como um paradigma da retórica. Um “basta”, que talvez seja impossível no momento em que estamos mergulhados. A melancolia dessa constatação, embora periférica ao trabalho, o infiltra de modo insistente, enfatizando características que sempre fizeram parte do vocabulário plástico de Venosa.

Desde o início de sua carreira, nos anos 1980, Venosa se dedica ao que chamei, em outro texto-conversa sobre suas esculturas, de um “corpo em andrajos”, náufrago.  A noção de “resto” esteve sempre presente na utilização de ossos e dentes, mas aparece ainda na reincidência de matérias-primas como cera, resina ou mesmo o tecido pintado e plastificado, mimeticamente ocupando o lugar dos fluidos corporais ou da pele.  O revestimento das peças com essa “pele”, que não deixa de ser pintura, cria um jogo de opacidade que me parece crucial para o entendimento das inquietações do artista. Venosa cria estruturas em camadas, esqueletos de madeira e outros materiais. O revestimento, longe de escondê-los, faz dos “ossos” algo entrevisto e latente.

A “pele” esticada não deixa dúvidas do vazio que preenche Catilina e suas antecessoras. São corpos famélicos, à míngua, que muitas análises já definiram como “fósseis”. É uma palavra precisa, sobretudo quando compreendemos que o exílio evidente contido nas esculturas do artista não é geográfico, e sim temporal. Sua obra insiste em um anacronismo. E é ele que pode levar esses seres opacos tanto para uma aproximação com os “fósseis” – passado indeterminado – como com corpos desconhecidos de um futuro intangível. Este tempo projetado, nunca vivido, mas já imaginado, é vizinho da ficção. Ela é também um vazio a nos preencher por dentro, a exemplo do espaço propositalmente desocupado que sustenta os ossos desenhados por Venosa.

Catilina guarda um parentesco com outros corpos criados pelo artista. Seu eixo central, que poderia lembrar uma ampulheta, tem forma muito semelhante a duas obras sem título revestidas de tecido negro do início da carreira de Venosa. São peças em grande escala que lembram um coração e algo semelhante a um polvo. Ainda no que diz respeito à “ampulheta”, ela parece ser um crânio de ave invertido – o bico para baixo, a cabeça no topo – o que alude à série Turdus. Catilina poderia ser ainda uma prima distante das esculturas de vidro e sal realizadas por Venosa nos anos 1990, e apresentadas pela primeira vez justamente no Paço. A ponte que liga o novo trabalho aos estes com sal, mais antigos, não vem da imagem ou da aparência, mas de um engenho processual.

"Catilina" no Paço Imperial. Foto Angelo Venosa.

“Catilina” no Paço Imperial. Foto Angelo Venosa.

Os desenhos criados com sal reagiam à umidade, escorrendo, borrando, formando linhas imprevistas, novas rotas no vidro. Já Catilina perde um pouco de si mesma – “resto e rastro”, como define seu criador – para se bifurcar em renascimentos. Esses recomeços contínuos e contraditórios, ciclos que marcam a obra de Venosa desde o seu alvorecer, exigem que olhemos para as esculturas do artista um pouco (ou muito) além de seus aspectos formais. Quando pensamos simbolicamente nas elipses e nas analogias que seus seres nos propõem fica mais fácil perceber como as indeterminações e duelos entre passado/futuro, fim/começo, cheio/vazio são barrocas. E o barroco, como modo de pensar e de criar, é a base do Brasil, com todas as suas diásporas. O barroco é, intensamente, o oco daquilo de que somos feitos.

Areia: ruína, tempo e exílio. Areia: do barro bíblico e da poeira que formou o universo na cosmogonia iorubá. Areia, portanto, como aquilo que se desfaz, mas como o símbolo de muitas gêneses.

No beijo entre os começos e fins, areia como travessia.