Disco de Maé da Cuíca ilumina facetas escanteadas pela historiografia e revela uma capital paranaense estranha às tradições europeias 

Uma escola de samba fundada nos anos 1940, formada por trabalhadores ferroviários, articulada com um time de futebol, que teve sua vila de origem despejada e contava com compositores que ganharam um festival de músicas na Estação Primeira de Mangueira. Um compositor que fazia crônicas do cotidiano ao redor, incansável na defesa do samba, dos sambistas e do carnaval. Bem diferentemente  do que se possa imaginar, essas duas trajetórias não são de alguma comunidade do Rio de Janeiro. As histórias da Colorado e de Maé da Cuíca, que quase sempre estiveram entrelaçadas, vêm de bem mais longe, de Curitiba (PR).

Depois de alguns anos entre viabilização financeira, gravação e produção, está no ar, nas plataformas digitais, o álbum O bamba da Vila Tássi, que homenageia Maé, o mais importante personagem do samba e das escolas de samba da capital paranaense. Em sua homenagem, um time de peso de várias gerações da música da cidade se reuniu para fazer este fundamental registro, com produção e cuidados dignos da importância do homenageado.

Nascido em Ponta Grossa, no interior do Paraná, em 1927, Maé (ou Ismael Cordeiro, seu nome de batismo) chegou para morar em Curitiba aos cinco anos de idade. Ele residiu na Vila Tássi, localizada perto de onde atualmente é a Rodoferroviária. Na época, essa área ainda era distante do centro da cidade e por lá moravam aqueles que não conseguiam arcar com os custos de viver nos lugares com mais estrutura urbana. Também estavam ali muitos trabalhadores da Rede Ferroviária (como o próprio Maé viria a ser), que frequentemente faziam contato com outras regiões do país.

A presença de muitos negros, o intercâmbio com outros estados e a marginalização social gerou por ali um caldo cultural que possibilitou, assim como em outras localidades pobres do Brasil, o surgimento de manifestações culturais que buscassem recriar laços comunitários, como o samba, o futebol, as maltas de capoeira, entre outras.

Ainda bem jovem, Maé foi se envolvendo com essas manifestações. Em 1944, aos 17 anos, ele compôs seu primeiro samba para um concurso da rádio PRB-2. No ano seguinte, um conjunto de sambistas e foliões da Vila Tássi resolveu “ir até a cidade” cantando seus sambas. Diante da boa recepção a esse desfile, o grupo, liderado por Máe da Cuíca, resolveu fundar a escola de samba Colorado, em 1946. A partir daí, esta agremiação se configurou no principal movimento de difusão do samba em Curitiba, apesar de todas as dificuldades.

Maé da Cuíca e os músicos de um dos grupos que liderou. Foto: Divulgação ; SEEC

Maé da Cuíca e os músicos de um dos grupos que liderou. Foto: Divulgação ; SEEC

É importante registrar que, ainda que em nível nacional houvesse alguma disposição governamental de usar o samba como um símbolo de identidade brasileira, em Curitiba as elites locais insistiam na ideia de branqueamento da população a todo custo, negando até mesmo as ideias de mestiçagem, hegemônicas no plano federal. Se, em âmbito mais amplo, as ideias de Gilberto Freyre sobre mestiçagem ganhavam força, no Paraná era como se as leituras tivessem parado em Nina Rodrigues e Sílvio Romero.

No afã de criar uma identidade para o estado, que havia se emancipado de São Paulo em 1853, diversos intelectuais e artistas do Paraná construíram o Movimento Paranista a partir dos anos 1920. Essa articulação procurava exaltar as qualidades de um “Paraná moderno” a partir da visão e dos interesses das elites locais, o que acabou por excluir manifestações culturais consideradas inadequadas ou primitivas. Ainda que de maneira mais difusa, essa perspectiva segue hegemônica até hoje, com o Paraná e sua capital sendo sempre retratados como locais europeizados, escondendo a presença de indígenas, de negros e a ocorrência de intensas lutas sociais no estado [1].

Além dessa dificuldade fruto das posições políticas hegemônicas no estado, a Colorado também teve que superar obstáculos de seu contexto mais local. Um desses desafios foi o despejo da Vila Tássi para construção de um grande moinho,  ocorrido entre 1949 e 1950.

Depois de se consolidar na cidade, a escola alçou outros vôos e o maior deles foi certamente a presença do conjunto Maé e Seus Batuqueiros no Festival de Novos Compositores da Mangueira em 1977, quando o samba “Não vou subir”, de Claudio Ribeiro e Homéro Reboli, ambos da Ala de Compositores da Colorado, foi vencedor.

Essa aproximação entre os sambistas curitibanos e mangueirenses havia começado anos antes, quando o compositor Cartola foi jurado do desfile das escolas de samba de Curitiba. Num raro momento de incentivo para o carnaval de escolas de samba, a Prefeitura de então convidava nomes de expressão nacional (como Ricardo Cravo Albin, Leci Brandão, Ismael Silva e Mano Décio da Viola, além de Cartola) para fazerem parte da comissão julgadora. Em 1974 e 1976, Cartola esteve presente como jurado, dando nota 10 nas duas ocasiões para o samba-enredo da Colorado.

Cartola como jurado do carnaval de Curitiba, na década de 1970. Foto: Reprodução do livro "Colorado", de João Carlos de Freitas

Cartola como jurado do carnaval de Curitiba, na década de 1970. Foto: Reprodução do livro “Colorado”, de João Carlos de Freitas

Os sambas compostos por Maé da Cuíca e agora devidamente registrados contam exatamente essas histórias. Eles também versam sobre a realidade social da Vila Tássi e das demais comunidades pobres de Curitiba e região. Mostram um compositor atento ao que estava à sua volta e preocupado com sua gente. Há também uma diversidade de estilos: samba de terreiro,  samba-enredo, partido alto e sambas-exaltação.

Logo na abertura do álbum, temos “Deixa o moço falar”, um típico samba de terreiro, exaltando a Vila Tássi como o lugar do samba no Paraná e que, com os versos “O Brasil inteiro / Fala do Salgueiro, Mangueira, Estácio de Sá / Mas ninguém sabe que a Vila é / O bom do samba do Paraná”, faz uma provocação às localidades do Rio de Janeiro famosas pela qualidade dos suas composições. A interpretação é de Mãe Orminda, cantora da velha guarda do samba de Curitiba, intérprete da escola D . Pedro II nos anos 1970. A Vila Tássi é também o tema de “Saudade da Vila”, interpretada por Didi Hess.

Já a história do despejo da comunidade onde foi fundada a Colorado é contada por “Vila Tássi”, interpretada pela mineira Gabriela Pilatti, cantora que acompanhou Maé em muitos shows nos últimos anos de vida dele. O relato do cotidiano também está em “Mais Um Que Subiu” (na voz de Juçara Santos ) e “Tristeza e Alegria” (interpretada por Bruno Santos de Lima), que versam sobre a violência e o feminicídio ainda tão presente nas nossas cidades

Em “Pagode da Lili”, um típico partido alto, e “Pernilongo”, Maé mostra que também sabe nos fazer rir, falando de situações engraçadas do cotidiano. A interpretação de Léo Fé e Claudio Peba, compositores e partideiros de presença frequente nas rodas de samba curitibanas, deu todo um charme para à primeira canção.

Além de exaltar sua escola e sua comunidade, relatar o cotidiano nas suas dificuldades e também nas alegrias e compor sambas-enredo (representados no álbum por “Princesa dos Campos” e “Visita à Cidade de Paranaguá”), Maé falou das desilusões amorosas, como podemos ouvir em “Vai Saudade” e “Rosto Bonito”.

A homenagem a Maé chega ao fim com duas importantes faixas: a música “Colorado na Mangueira”, exaltando a presença dos compositores paranaenses no já citado festival de sambas organizado na verde-e-rosa e com um testemunho de Cláudio Ribeiro, um dos mais importantes e frequentes parceiro de Maé na Colorado.

Em vários dessas faixas, é possível fazer paralelos com alguns clássicos do samba carioca (e que acabaram se tornando clássicos da música brasileira). A história sobre o despejo da Vila Tássi, por exemplo, faz recordar as diversas canções que abordam o fim da Praça Onze; a simbiose entre a Vila Tássi e a Colorado nos sambas de terreiro lembra muito a relação que existe entre muitos bairros e escolas de samba do Rio.

Outra semelhança é a proximidade entre futebol e samba, tão presente na história de escolas como a Mocidade Independente de Padre Miguel, a São Clemente e a Unidos de Vila Isabel. A Colorado desenvolveu, desde a sua fundação, uma relação com o Clube Atlético Ferroviário, time de futebol fundado em 1930 por trabalhadores da rede ferroviária. Maé chegou a jogar pelo time, onde foi campeão paranaense em 1953 e muitos membros da diretoria da escola eram também do clube e vice-versa. Após o despejo da Vila Tássi, por exemplo, os ensaios da Colorado aconteceram por muito tempo no Estádio Durival Britto e Silva, atualmente a casa do Paraná Clube (formado pela fusão entre o Pinheiros e o Colorado Esporte Clube, este fundado a partir da união entre Britânia, Palestra Itália e Ferroviário, em 1971).

Além de importante compositor, Maé destacou-se como uma grande liderança social. Articulou com os chefes de polícia para que os foliões e as foliãs da Colorado, muitos deles envolvidos em contravenções e pequenos crimes, fossem soltos para poderem desfilar; incentivou a criação de conjuntos de samba que animavam shows e bailes ao longo do ano na cidade; não se intimidou perante a famosa  Estação Primeira e conquistou seu espaço no Rio de Janeiro. Até o fim da sua vida manteve-se ativo nas rodas de samba da cidade, passando aos mais jovens o seu conhecimento e mantendo viva essa importante resistência (ou será insistência?) cultural em Curitiba. Em setembro de 2012, cerca de três meses antes de seu falecimento, Maé estava com sua cuíca nas rodas do Samba do Sindicatis no Largo da Ordem, no centro histórico da cidade.

A capa do disco traz desenho de Jonas Lopes feito sobre uma foto de Maé

A capa do disco traz desenho de Jonas Lopes feito a partir de uma foto de Maé

O lançamento de O Bamba da Vila Tassi é mais um importante resgate dessa história, que costuma ser escanteada pelos registros sobre a cidade. E todo o processo para a produção do álbum foi digna das dificuldades que a Colorado teve ao longo de sua trajetória: as primeiras gravações foram em 2013. Três anos depois, uma vaquinha virtual para arrecadar o dinheiro para a finalização do disco não atingiu a meta. Foi então que o Samba do Sindicatis doou parte do valor que arrecada em suas rodas de samba para que o projeto virasse realidade e, em janeiro de 2020, o álbum foi enviado para as plataformas digitais, sendo apenas agora disponibilizado.

Em razão da pandemia, o lançamento tem sido feito por meio de eventos virtuais. Nos dias 8 e 15 de agosto, aconteceram os dois primeiros. E a série continuará a acontecer todos os sábados até 19 de setembro, com o pessoal envolvido na realização do projeto falando sobre os diversos aspectos da música e da história de Maé da Cuíca. A transmissão se dá pelo canal de Youtube do Samba do Sindicatis, das 16h às 17h30.

O resgate da história de Máe da Cuíca e da Colorado é importante para uma espécie de acerto de contas de Curitiba com sua própria realidade: muito mais do que um centro de “tradições europeias”, trata-se de uma cidade de intensas desigualdades e que se planejou para colocar os “moradores indesejáveis” na sua periferia, buscando sempre esconder as contribuições que as populações afro-brasileiras e indígenas deram para seu desenvolvimento.

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[1]  Ainda que as posições políticas de direita (e de extrema-direita) historicamente tenham muita adesão no estado, foi lá também que, em 1984, houve a fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que nos anos 1940 formou-se a Guerrilha de Porecatu e onde também enxergamos, nos últimos 20 anos, várias revoltas populares, como as ocupações da Assembleia Legislativa em 2001 e 2015 e as ocupações estudantis em 2016. Há todo um debate sobre o que leva a esses sucessivos articulações progressistas serem derrotadas e o que faz prevalecer tantos conservadores do estado como seus representantes na política nacional, mas isso seria um tema para outro texto/momento.