Pensar e praticar o experimental em um curso de pós-graduação, evitando defini-lo ou confina-lo, foi o deleitante desafio assumido por Ivair Reinaldim e Michelle Sommer no segundo semestre de 2017 e no primeiro semestre de 2018. Duas disciplinas ministradas pela dupla no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio de
Janeiro foram operadas como verdadeiras indisciplinas. Reinaldim e Sommer assumiram o experimental na prática docente, apostando mais no processo de construção do conhecimento, na coletividade, nas trocas com discentes e convidados, do que na transmissão de um saber fixo, que jamais poderia dar conta do experimental. Os dois cursos foram oferecidos junto ao programa de extensão Plataforma de Emergência do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica,
tornando-os abertos a estudantes de outros programas de pós-graduação, a graduandos e a pessoas de fora da academia.

Ivair Reinaldim e Michelle Sommer assumiram o desafio de trazer o experimental para um curso de pós-graduação em história e crítica da arte

Ivair Reinaldim e Michelle Sommer: desafio de trazer o experimental para um curso de pós-graduação em história e crítica da arte

O livro Experimentar o experimental: onde a pureza é um mi(s)to, furor da margem, lançado pela Editora Circuito, deriva dos dois cursos oferecidos por Reinaldim e Sommer: Experimentar o experimental: onde a pureza é um mi(s)to – introdução aos estudos expositivos e à crítica de arte no Brasil” (2017.2) e “Experimentar o experimental: furor da margem – estudos expositivos e crítica de arte no Brasil” (2018.1).

 Edição evidencia cartografia dos cursos

O livro apresenta uma documentação ampla dos cursos e seus desdobramentos, contendo textos de Reinaldim e Sommer, a republicação de escritos históricos que embasaram as discussões, registros fotográficos e exercícios desenvolvidos coletivamente nos encontros. Nos anexos constam as ementas dos dois cursos, que podem indicar caminhos para novos estudos, além das listas de convidados e de estudantes, a fim de somar à memória dos encontros e ressaltar aquelas pessoas que contribuíram para seu desenvolvimento. Essa compilação amplia significativamente o alcance dos debates promovidos nos dois semestres, possibilitando novas interlocuções e desdobramentos em torno dos temas em questão.

Se os cursos buscavam ser mais geradores de perguntas e problematizações do que de respostas, o livro segue a mesma proposta. Não se trata de um material que irá indicar aos leitores definições fixas ou que irá atuar como um manual de instruções para experimentar o experimental. Sendo o experimental um estado de invenção, como afirma Hélio Oiticica, o livro, tal como os cursos, induz a manifestação dessa instância em cada sujeito e indica caminhos possíveis para pensar o experimental na atualidade, sem aprisiona-lo a categorias, teorias e afirmações.

A publicação é dividida em duas partes, correspondentes aos dois cursos. Como marcador de abertura, cada parte tem em suas páginas iniciais registros de exercícios coletivos de cartografia realizados nos encontros. A primeira cartografia deriva da pergunta “quais as possíveis ‘origens’ do experimental na arte brasileira?”. A partir dessa provocação – inspirada no projeto “Museu das Origens” (1978), de Mário Pedrosa – foram reunidas referências matéricas e visuais que formam uma constelação de respostas ao questionamento proposto. Em seguida, compõem a primeira parte do livro a republicação de alguns dos textos históricos de Mário Pedrosa e Hélio Oiticica que embasaram os eixos temáticos e propositivos dos cursos. A reedição desses textos – que datam das décadas de 1960 e 1970 – evidenciam os
pontos de partida da primeira (in)disciplina e algumas das problemáticas por ela enfrentadas: a passagem do moderno para o contemporâneo, a afirmação do experimental e suas diferentes
origens na arte brasileira. Já os escritos de Ivair Reinaldim e Michelle Sommer, que aparecem em seguida, foram gerados a partir de reflexões desenvolvidas no curso e enfrentam alguns
eixos de discussão abertos pelos textos anteriores – como as exposições dedicadas às artes dos povos indígenas, a atividade artística de pacientes de Nise da Silveira e o pensamento museal
de Mário Pedrosa – vistos sob a ótica das problemáticas contemporâneas.

Colaboração de Cristina Ribas incluiu visita e registro reflexivo da exposição "Luz com trevas", de Cabelo

Colaboração de Cristina Ribas incluiu visita e registro reflexivo da exposição “Luz com trevas”, de Cabelo. Foto de Pedro Agilson.

Enquanto o exercício de cartografia que abre a primeira parte do livro se dedica às possíveis origens do experimental, a segunda cartografia diz respeito ao experimental no presente ou em um passado próximo, correspondendo ao objetivo do segundo curso de dar continuidade aos temas do primeiro a partir de reflexões sobre a relação entre léxicos e os usos da arte na conjuntura atual. Foram enfatizados debates sobre práticas artísticas marginais e contracânones expositivos e, dessa maneira, a tríade experimental-furor-margem tornou-se o principal objeto de investigação coletiva do curso, conduzida a partir de exercícios-criação que são registrados no livro – em alguns casos sem identificação da autoria, de modo a reforçar o caráter de coletividade das propostas. Além de reunir os exercícios desenvolvidos ao longo do semestre e um ensaio de Michelle Sommer sobre o Furor da margem – cuja emergência configura um “devir-Brasil” no presente – a segunda parte conta com contribuições de Cristina Ribas, que impulsionou os exercícios performativos e de construção de léxicos e diagramas, e registros de uma aula externa na exposição individual de Cabelo, Luz com trevas, cuja prática artística vai ao encontro da pesquisa sobre léxicos que orientou o curso.

Marielle e Matheusa (en)lutam escritos

Com seu caráter aberto, as duas (in)disciplinas se deixaram contaminar pelas urgências do presente: as repressões a exposições ocorridas em 2017, os assassinatos de Marielle Franco, Anderson Gomes e Matheusa Passarelli em 2018 e as eleições presidenciais daquele mesmo ano foram alguns dos acontecimentos que atravessaram os cursos e afetaram diretamente suas programações. O posfácio do livro evidencia esses atravessamentos e aponta para outros, correspondentes aos dois anos que separam o encerramento dos cursos e a materialização da publicação, compondo um panorama tóxico do Brasil atual.

Matheusa Passarelli: artiste, vítima de assasinato violentíssimo na Zona Norte do Rio, é lembrada com Marielle e golpe de 2018

Matheusa Passarelli: artiste, vítima de assasinato violentíssimo na Zona Norte do Rio, é lembrada com Marielle e golpe de 2018

Se o experimental não pode ser revivido, parafraseando mais uma vez Hélio Oiticica, o livro Experimentar o experimental, sem se reduzir a alimentar uma nostalgia dos cursos realizados no passado, abre caminhos para novas reflexões e experimentações. Operando como um motor de perguntas e inquietações, a publicação se abre às potencialidades do porvir.

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