Neste 31 de janeiro de 2021, a pianista Yuja Wang publicou em seu instagram uma homenagem ao aniversário do músico Franz Schubert (1797-1828). Curiosamente, a pianista não escolheu uma obra original para piano, afinal Schubert era um compositor prolífico para o instrumento, mas sim uma transcrição da canção “Erlkönig” feita por Liszt (1811-1886) que também se chamava Franz. As transcrições para piano eram uma maneira de divulgar peças originalmente escritas para diversas formações instrumentais como concertos, sinfonias e obras de câmara e fazer chegar essa música a públicos que não tinham acesso às apresentações em teatros; eram também utilizadas para uso particular. As reduções das partituras para piano solo ou piano a quatro mãos foram um meio poderoso para promover a circulação da música nas épocas anteriores ao advento das gravações.

Uma coleção de transcrições que atravessou séculos foi realizada por Bach. O mestre transcreveu para cravo solo uma série de concertos de diversos compositores como Vivaldi, Alessandro e Benedetto Marcello. Era um modo de tornar mais próxima a música dos mestres italianos e se familiarizar com seus processos de composição. A coleção inclui outros compositores da época como Telemann e o Duque de Saxe-Weimar.  Bach não se conteve em apenas transcrever as composições literalmente; fez acréscimos de vozes e modificou a harmonia de acordo com sua linguagem musical, de forma que há um duplo deleite em estudar essas obras em comparação com os originais para orquestra, observando a maestria da transcrição e as partes onde Bach faz uma parceria com seus contemporâneos criando suas versões.

Beethoven: universo paralelo onde convivem várias temporalidades

No período clássico eram comuns transcrições de obras orquestrais para conjuntos instrumentais mais reduzidos. Mozart fez diversas versões de sinfonias e aberturas de óperas para serem tocadas em reuniões ao ar livre e eventos que eram animados por pequenos grupos de músicos. Seu interesse pela música barroca fez com que também arranjasse vários prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado de Bach para quarteto de cordas. Beethoven com seu ego gigantesco não se preocupou em transcrever muitas obras de outros compositores, mas a coisa muda de figura em relação à sua própria música. Um exemplo monumental é a transcrição da Grande Fuga Op. 133, cujo original é para quarteto de cordas, para piano a quatro mãos. Essa obra ocupa um lugar único na produção de Beethoven. É como se o compositor estivesse vivendo num universo paralelo onde se sobrepõem diversas temporalidades, o tema da fuga tem relação com o tema da última fuga do Cravo Bem Temperado em Si menor, onde Bach utiliza as doze notas da escala e a composição de Beethoven faz uma predição em sua estrutura harmônica do que seria a música expressionista do início do século XX que culmina com um método de composição onde se utilizam também essas doze notas. É como se houvesse uma conexão entre as origens do sistema musical ocidental na relação com Bach e sua dissolução na relação com a estética da segunda escola de Viena. É realmente perturbador constatar que Beethoven nas profundezas de sua surdez estava ligando o passado ao futuro. Mudando para um assunto mais prosaico, o manuscrito dessa transcrição foi descoberto há poucos anos no arquivo de um seminário nos Estados Unidos e foi vendido pela casa de leilões Sotheby’s por quatro milhões e duzentos mil reais.  Se o mundo fosse justo deveria existir um meio para retornar esse valor às mãos do compositor que passou sua vida em meio a problemas financeiros.

Outro uso das transcrições era para enfatizar problemas técnicos. No caso a transcrição tem a utilidade de um estudo para piano. Brahms fez diversas transcrições de peças do repertório ampliando as dificuldades técnicas visando o desenvolvimento do virtuosismo. Seus cinco estudos para piano começam com uma versão absurdamente difícil do estudo Op.25 n.2 de Chopin com a linha melódica do tema transformada em terças e sextas e terminam com a Chacona da Partita n.2 para violino solo em Ré menor de Bach, que já é dificílima de ser tocada com as duas mãos, num arranjo só para a mão esquerda.

Finalmente chegamos a Liszt e sua obsessão por transcrições. O grande pianista húngaro possuía um talento fenomenal para transformar tudo que ouvia em música para piano. Seu virtuosismo era inigualável e levou o processo de transcrição a um nível técnico que acabou com a ideia dessas publicações como música para uso doméstico. Suas versões são feitas para músicos profissionais de alto gabarito. Algumas vezes Liszt exagera nos efeitos virtuosísticos descaracterizando algumas composições, mas na maior parte das vezes seu trabalho é exemplar. É conhecida a história que após ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz, Liszt chegou em casa transtornado com a peça e começou a escrever tudo de memória numa partitura para o piano. Outra empreitada hercúlea foi a transcrição de todas as sinfonias de Beethoven para piano solo, tarefa praticamente impossível tornada realidade por esse gênio do romantismo. Schubert nessa época era um compositor pouco conhecido fora do meio musical vienense e aqui ocorre um fato inusitado.

Economia de Schubert facilitou e multiplicou execução de peças

Como disse acima, as transcrições são feitas para tornar acessíveis ao âmbito doméstico músicas que só podem ser executadas por grandes formações orquestrais, mas a música de Schubert é, em sua maioria, formada por composições para piano solo e lieder que só precisam de um cantor e um pianista. Liszt se encantou pelos lieder de Schubert e transcreveu várias canções para piano solo onde a dificuldade para o pianista é fazer soar a parte do canto em meio ao acompanhamento que muitas vezes envolve a linha melódica. Claro que Liszt não se conteve em acrescentar arpejos e alguns floreios virtuosísticos ao acompanhamento conciso de Schubert, mas não podemos reclamar, o fato de usar sua fama de estrela internacional para divulgar a música do grande Schubert supera qualquer crítica. Liszt era um artista generoso, ajudou na carreira de muitos compositores e foi fundamental na divulgação da grande música do passado para o público de sua época.

E chegamos aos dias de hoje, quando temos toda a música do mundo na palma da mão. Podemos pensar em épocas onde não havia nem escrita musical e tudo era passado de memória de um músico para o outro e que hoje em dia ainda existem exemplos disso nas músicas dos indígenas onde cada músico é responsável por decorar uma parte vocal ou instrumental da composição e passar adiante, para que o conhecimento não se perca. Mesmo após a invenção da notação musical era sempre necessária a presença dos músicos para executar as obras. A criação musical era envolvida por uma aura de fenômeno único, um momento singular na vida do indivíduo que guardava na memória aquela ocasião tão especial. Com o advento da gravação tornou-se disponível ao grande público a audição de obras por músicos profissionais a qualquer momento e o parâmetro da execução musical mudou radicalmente, afinal para que ouvir uma apresentação modesta numa transcrição para piano, tocada por um músico da família se estava disponível o original por uma grande orquestra e um regente de renome? Aqui vamos nos lembrar de Walter Benjamin e seu texto sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte. Na música a perda do caráter de evento mítico e místico é notável, não se precisava mais ir a um teatro ou uma igreja para participar de uma experiência musical.

Por outro lado, o poder da música foi amplificado de uma maneira imensurável, a mensagem musical podia chegar a qualquer hora na casa das pessoas para o bem e para o mal e não é a toa que essa mensagem foi cooptada por diversas ideologias totalitárias. Nos dias de hoje além de ouvir o artista podemos ver a performance como se estivéssemos na sala de concerto, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar. Não é uma experiência de comunhão como um concerto ao vivo, mas também não é pouca coisa em relação aos nossos antepassados que batalhavam ao piano para ter uma noção da música dos grandes mestres.