Eis que retorno à Caju encarando um desafio: voltar a escrever sobre música. É uma sensação híbrida de começo e fim, de estreia e volta no tempo – mais ou menos como o próprio ano de 2021, que parecia novo mas logo se mostrou velho e encardido como filme de Sessão da Tarde.

estarmortaE a gente achava que o buraco não podia ficar mais fundo… mas, como na coletânea dos quadrinhos geniais da @estarmorta lançada pela Cia Letras, “parece que piorou”. Musicalmente, porém, nada reflete melhor nosso pesadelo coletivo quanto o alucinado Piorou (QTV), recém-lançado álbum para ferir ouvidos sensíveis de Tantão e os Fita.

Nesse terceiro disco, o trio eletrônico carioca alcança um equilíbrio raro: ser altamente experimental sem soar hermético. Talvez seja a duração das 16 músicas (a maioria abaixo dos 3 minutos), ou quem sabe a visceralidade com que abordam temas do Brasil contemporâneo em faixas sugestivas como Rota de fuga e Pessoas do mal. Seja lá por que motivo, é difícil ficar indiferente a Carlos Antônio Mattos (Tantão) e aos produtores Abel Duarte e Cainã Bomilcar.

Mesmo que você escute com moderação, vale ficar de olho no trabalho plástico das capas (em geral assinadas por Lucas Pires) e nas obras relacionadas às músicas, que vão de audiovisuais a multimídia. Os três podem ser vistos ainda em episódio recente da revista FACT, em que Tantão (que também é artista visual, e nos anos 80 integrou o seminal Black Future) toma de assalto o barracão da Pimpolhos da Grande Rio qual um intérprete de samba-enredo ensandecido.

Em um tuíte: Se a distopia à brasileira tem uma trilha sonora, ela com certeza é Tantão e os Fita.

 

 

Doçuras de Minas

Mas e quando 2021, de fato, chegar? Após a vacina, com que músicas vamos comemorar a verdadeira entrada do ano – ou ao menos o fim simbólico de 2020, “o ano que não terminou”?

Vocês eu não sei, mas gosto de associar as viradas a uma sonoridade que simbolize o clima pessoal do momento. No fim de 2019, por exemplo, minha preferência foi o intimista Dreaming fully awake (Balaclava Records), então lançamento dos incríveis mineiros do Moons.

Mesclando influências que vão de Clube da Esquina a Nick Drake, o Moons evoluiu de um projeto solo em 2016 para um dos grandes destaques da cena independente brasileira. Assista ao Live at Miguelão, deixe o queixo cair e não resista à tentação de cantar junto, ainda que em inglês.

A banda, aliás, resolveu facilitar a vida de quem curte um karaokê e lançou no YouTube o Karaokoons, “uma boa companhia para tempos tão solitários quanto estes que estamos vivendo”. O projeto, que inclui instrumental e letra de músicas cantaroláveis como Sweet and sour, conclama os fãs a fazer vídeos com a própria performance e a marcar a banda no Instagram.

Em um tuíte: Pra quem precisa lembrar que a vida também tem um lado doce, Moons é o lugar.

 

 

Coquetel molotov à pernambucana

Já na virada de 2020, após meses de pandemia, eu estava mais pra energia raivosa de Virada na Jiraya (Tratore), da pernambucana Flaira Ferro – essa espécie de Rita Lee agreste. Da “história que não foi contada” de Faminta ao dueto com Chico César em Suporto perder, o segundo álbum da artista impressiona pela força com que passeia por rocks, baladas e sons brasileiros.

Com ecos de carnaval, o disco levanta a bandeira do empoderamento em faixas como Coisa mais bonita, cujo clipe virou hit no YouTube ao retratar cenas de masturbação feminina. Quarenta anos após Rita cantar em Lança perfume sobre ficar “de quatro no ato”, porém, Flaira só pede que deixem “livre a sua teta” (e outras partes mimosas). Impossível não se identificar.

Na pandemia, a cantora, compositora e dançarina vem dando cursos online como “imersão artística” e “aulão de frevo”. Polivalente e incendiária, ela ainda tem participado de músicas alheias. Um exemplo é a recente Um frevo para pular fevereiro, de PC Silva, cujo clipe singelo, com cenas das ruas vazias em Olinda, anda circulando até em grupos de WhatsApp.

Em um tuíte: Basta uma dose de Flaira para se sentir “firme, forte e sólida”, como na letra de Ótima.

 

 

 

Playlist da Caju para deixar 2020/21 no retrovisor

Se chegaremos à “virada da vacina” precisando de acolhimento (Moons), confronto (Flaira) ou catarse (Tantão), só o tempo (ou nosso analista) dirá. Por enquanto, o que dá pra fazer é deixar com vocês essas três dicas cajuínas de humores tão distintos, mas igualmente potentes.

Dá também pra falar de “Quando a vacina chegar”, lista inaugural do perfil da Caju no Spotify (Ouça aqui). São quase três horas de música com a curadoria desta que vos fala, começando por quatro faixas de cada artista em destaque aqui e passando por quase todas as referências citadas no texto – a exceção é o Black Future, já que Eu sou o Rio (Plug/BMG) pode ser ouvido apenas no YouTube.

A lista tem ainda indicações de músicos, produtores e jornalistas que responderam à seguinte questão: que canções ajudariam a deixar 2020-21 no retrovisor? Em clima de “bancada coletiva”, Missionário José (Mombojó), Marcos Boffa (ex-Sonar e Motor Music) e Bernardo Araújo (Rádio Cidade) montaram uma seleção eclética, que vai do Guilherme Arantes dos anos 1970 (Cuide-se bem) a um Alice Cooper recém-lançado (Our love will change the world).

Polifonia, qualidade e diversidade, do jeito que a Caju gosta. Mas chega de dar spoiler. Agora é só apertar o play… e esperar o dia da vacinação chegar.

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Foto do cabeçalho: Flaira por Bruna Coutinho Valença/Divulgação