Há muito que não é possível reduzir a “brasilidade” à ideia de mestiçagem entre brancos, indígenas e negros. Não que essa invenção identitária passou a ser algum dia delimitável ou passível de ser definida. Nossa produção artística tem enfatizado isso ao se deparar e presentar corpos que, atravessados por distintos critérios – raciais, étnicos, de gênero, geográficos, religiosos –, disputam, implodem, redefinem e alargam aquilo que poderia ser compreendido como “brasilidade”. Entre eles, os evangélicos neopentecostais começaram a aparecer com certa recorrência nas artes nos últimos anos. Apesar de ser um grupo que cresce em importância cultural e política, suas representações ainda são pouco discutidas. Faço aqui breves considerações sobre trabalhos de artistas contemporâneas que, a partir de diferentes perspectivas, se interessam por aspectos identitários desse segmento religioso e introduzem debates sobre os mesmos.

"Ministério Madureira" (da série "Crentes e pregadores", 2014), de Bárbara Wagner

“Ministério Madureira” (da série “Crentes e pregadores”, 2014), de Bárbara Wagner

Bárbara Wagner

Em suas fotografias e vídeos, Bárbara Wagner tem se interessado por evangélicos neopentecostais que vivem em regiões de Pernambuco. Em entrevista concedida a Solange Farkas em 2020, em evento realizado pela Revista Zum, Wagner falou sobre a recepção ao seu trabalho Terremoto santo (2017, imagem do cabeçalho), espécie de videoclipe produzido em parceria com uma gravadora gospel de Palmares, Pernambuco, no qual cantores e dançarinos interpretam suas canções religiosas, seja em cenas de estúdio, seja em meio à natureza, rios e cachoeiras. Apresentado a princípio em festivais de vídeo, o trabalho produziu desconforto entre o público ao ser interpretado como uma potencialização e reforço da imagem de um grupo tido como conservador e que, especialmente naqueles anos entre o golpe de 2016 e a eleição do atual presidente em 2018, tem sido capitalizado para sustentar eleitoralmente uma direita reacionária e autoritária.

Still do vídeo "Trem em transe" (2019), de Virginia Medeiros

Still do vídeo “Trem em transe” (2019), de Virginia de Medeiros

Virginia de Medeiros

Trem em transe (2019), de Virginia de Medeiros, dá destaque para outras dimensões da prática dessas religiões. Filmado em um vagão de trem de Salvador, o vídeo mostra um grupo de evangélicos que, para a pregação, tocam instrumentos percussivos e interagem com os passageiros por meio da dança e da representação do transe. Além de chamar a atenção para o engajamento dessas religiões em conquistar fiéis em diferentes cantos do espaço urbano, instaurando situações de tensão entre receptividade e aversão, nesse caso, com os passageiros, o trabalho de Medeiros evidencia intersecções de alguns cultos evangélicos com práticas de religiões de matriz africana.

A manifestação religiosa representada em Trem em transe, ao ter sua singularidade ressaltada pelo hibridismo, por aquilo que, a princípio, é característico do outro, aponta para o interesse de Medeiros, expresso em outros de seus trabalhos, em desconfiar das singularidades e fronteiras artificiais, muitas vezes empregadas para justificar segregações a partir de convenções, inclusive morais. Seus trabalhos não negam diferenças, mas questionam como nós as operamos. Esse (des)equilíbrio entre mesmidade e outridade faz parte do interesse da artista, como ela própria costuma afirmar, pela aproximação de alteridades de modo a, simultaneamente, pensar na constituição de si enquanto sujeito.

Ventura Profana

Se os problemas nos trabalhos de Bárbara Wagner e Virginia de Medeiros dizem respeito à abordagem do outro, Ventura Profana parte do lugar do outro evangélico para, a partir da linguagem e do sensível, disputar códigos e práticas religiosas. Criada em um meio batista, a artista travesti lança mão da própria biografia e de seu afeto pela religiosidade para questionar o modo como reacionários tentam instrumentalizar a prática religiosa enquanto instrumento de ódio e de poder sujeitador. Sem senhor (2019) faz parte do projeto Tabernáculo da edificação, resultado da participação da artista na Bolsa Pampulha (2018-2019) e que originou um misto de instalação e performance. Ao redefinir o espaço e práticas habituais de cultos batistas, Profana propõe uma cerimônia repleta de ressignificações e aberta aos corpos e identidades que não se reconhecem nos padrões hegemônicos da heteronormatividade branca colonial.

"Sem senhor" (parte da instalação "Tabernáculo da edificação", 2019), de Ventura Profana

“Sem senhor” (parte da instalação “Tabernáculo da edificação”, 2019), de Ventura Profana

O termo “sem senhor” pintado ao redor do espaço da cerimônia não rejeita a palavra de Jesus – nome próprio recorrente em outros de seus trabalhos –, mas as intenções subalternizantes, racistas e discriminatórias pressupostas em expressões como “sim, senhor” ou “amém, senhor”. Contra essas práticas violentas, Profana propõe um espaço não de coação, mas de liberdade. A estratégia da artista, de colocar a religiosidade em perspectiva, vinculada a quem a opera, evoca o modo como negros escravizados da Virginia (EUA) proferiam citações bíblicas que, apesar de ter o mesmo conteúdo aos ouvidos de brancos e negros, adquiriam sentidos diferentes para cada um deles, como foi representado por Nate Parker em seu filme O nascimento de uma nação (2016). Enquanto os brancos pretendiam garantir a submissão, os negros ouviam incentivos de sublevação.

Essa breve seleção de trabalhos mostra a complexidade de questões que representações de determinado grupo, ao serem desdobradas, podem suscitar. O medo, a eleição de “inimigos” e as caricaturas são perigosos e empobrecem nossas experiências, reflexões e nossa democracia. Assim como essas obras, eventos políticos recentes, como a eleição de pastores evangélicos progressistas que tem favelas como base eleitoral e que não se coadunam com pautas reacionárias e antidemocráticas, caso da deputada estadual Mônica Francisco (PSOL/RJ) – cuja entrevista dada ao jornalista Bruno Torturra para o canal Estúdio Fluxo no YouTube recomendo – comprovam o quanto estereótipos e “inimigos” minam nossa disposição para o diálogo e nos lançam para o mundo do “faz de conta”, que alguns ditadores e presidentes genocidas querem nos fazer acreditar.