luiz capinhaDuas cenas que poderiam sintetizar a gangorra retratada em O ar que me falta, corajoso livro do editor Luiz Schwarcz, dono do grupo Companhia das Letras. Na primeira, o jovem Luiz, filho único de uma família de origem judaica e morador do abastado bairro de Higienópolis, em São Paulo, enxerga da janela uma partida de futebol no campo vizinho ao seu edifício. Proibido pelos pais de jogar descalço e no terreno baldio, ele assalta a despensa, retira de lá barras de Diamante Negro e um estoque de bombons Sonho de Valsa e atira o chocolate para os garotos peladeiros, que tentam, em vão, identificar de que ponto o céu derrama sobre eles aquele milagre.

Na outra cena, Schwarcz é obrigado pelo pai a herdar precocemente as vestes cerimoniais que haviam pertencido a seu avô paterno – também um Luiz, Láios, em húngaro -, uma vítima do Holocausto no campo de concentração de Bergen-Belsen. O manto pinica e sufoca, mas, sentindo-se responsável pela felicidade do pai deprimido, o jovem se obriga a aguentar o peso da inversão de papéis: o filho que cuida de quem deveria cuidar dele, incumbindo-se ainda da tarefa impossível de aplacar o trauma causado por um genocídio.

Entre a onipotência do menino-deus que faz chover chocolate e o sacrifício do adolescente-mártir, que carrega toneladas de culpa sob a roupa ritual, a oscilação de Luizão e Luizinho. Estas são as personas metafóricas dos pólos entre os quais Schwarcz transitaria na infância e na juventude, mesmo antes de ter sua bipolaridade diagnosticada, e com as quais seguiu lidando ao longo da vida adulta.

O subtítulo de O ar que me falta anuncia o livro como “história de uma curta infância e uma longa depressão”, e é natural que o futuro leitor se sinta instigado pela segunda parte  – o relato dos episódios depressivos e da bipolaridade, aos quais Schwarcz se entrega com uma sinceridade desconcertante. Mas é na “história de uma curta infância” que O ar que me falta brilha mais forte: ao mostrar-se como o garoto oprimido pela frustração ansiosa e eventualmente chantagista dos pais, o editor e escritor dá a seu drama pessoal e não-ficcional uma alta voltagem literária.

Fiel de uma balança de impossível equilíbrio

É sem dúvida fundamental que alguém como Schwarcz – um empresário bem-sucedido, dono do maior grupo editorial do país – traga à luz sua bipolaridade, evidenciando que as fissuras psíquicas são uma doença sorrateira, involuntária, que nada tem a ver com fraqueza ou propensão ao fracasso. Mas é ainda mais interessante que ele escolha fazer seu relato a partir da perspectiva da infância, obliterando episódios e crises ocorridos durante sua trajetória profissional e focando a narrativa nos abismos que uma origem descalibrada pode causar nas personalidades sensíveis.

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. A frase com que Tolstói começa Anna Kariênina vibra nas entrelinhas de O ar que me falta, e o infortúnio da família Schwarcz teve, de fato, sua especificidade: nasceu no trauma de András/André, pai do editor, um sobrevivente das atrocidades nazistas na Hungria. André foi empurrado pelo pai, o tapeceiro Láios, do trem que os levava para Bergen-Belsen. Passou a vida se culpando.

Luiz Schwarcz com a mãe, Mirna, mulher culta que jamais se realizou no casamento

Luiz Schwarcz com a mãe, Mirna, mulher culta que jamais se realizou no casamento

Já casado com Mirna, uma mulher interessada em música e artes, André jamais conseguiu mergulhar nas possibilidades de alegria oferecidas por uma nova família, e o barulho da perna do pai batendo na cama, marcando as horas de angústia e insônia, se infiltraria em Schwarcz de forma decisiva. Mirna, por sua vez, se viu sufocada por um casamento que não lhe dava espaço de interlocução para seus interesses culturais e sociais, era açodada ainda pela dificuldade de engravidar de um segundo filho. Nos períodos acamada, depois dos abortos espontâneos, ela solicitava a companhia do jovem Luiz, e ele lia a seu lado a coleção Thesouros da juventude.

Nas inúmeras brigas e separações, pai e mãe fariam do filho o fiel dessa balança de impossível equilíbrio, transformando-o primeiro velada e mais tarde claramente em uma espécie de mediador da infelicidade. O relato de O ar que me falta se torna ainda mais forte na constatação de como as famílias tristes, descalibradas emocionalmente, são gatilhos poderosos para crianças, jovens e adultos deprimidos e descompensados. O título do livro foi retirado de uma crise que Schwarcz teve na vida adulta, nas bordas de um campo de esqui – o ar de fato lhe faltou. Mas não seria exagero dizer que a asfixia esteve presente ao longo de toda a sua vida, nas dificuldades impostas pela expectativa sempre frustrada de trazer a felicidade para Mirna e André.

Escrita como um caminho de sanidade

Schwarcz evita entrar em episódios muito específicos de sua vida profissional, e também não detalha como a bipolaridade açodou sua família – os dois filhos e a mulher, a antropóloga e escritora Lília Moritz Schwarcz, a Lili, com quem se relaciona desde os 17 anos. Mas tributa à entrega e ao amor da companheira a possibilidade de ele ter encontrado saídas para o tratamento constante, já que não há cura definitiva para os gatilhos depressivos e maníacos. É preciso – e aqui opto por reescrever, me incluindo: precisamos – estar em constante atenção, evitando ainda que esta atenção não se transforme em opressiva vigilância.

Schwarcz com o também editor Jorge Zahar: um outro pai, mais emotivo e solar

Schwarcz com o também editor Jorge Zahar: um outro pai, mais emotivo e solar

De forma lindamente elíptica, o livro aponta que manter-se sereno é um trabalho parecido com o de escrever. Todos os dias rever, todos os dias perceber se não há letra faltando, palavra repetida, antigos vícios; todos os dias perguntar se não é possível encontrar uma via mais feliz nas entrelinhas, nos apostos antes apenas insinuados. Talvez este seja o aspecto mais bonito de O ar que me falta: ver como a escrita acompanhou os sintomas, mas também os caminhos de libertação deste grande editor, que desejou e deseja ser autor – e é.

Antes de entrar nisso, uma digressão para a formação no meio editorial. Depois de estudar Ciências Sociais, Schwarcz foi fazer um estágio de fim de curso na Brasiliense, de Caio Graco Prado, e acabou se transformando em um editor-revelação, disputado pelo mercado. O desejo de autonomia aconteceu naturalmente, e ele chegou a pensar numa sociedade com Jorge Zahar, da então Zahar Editores e da Livraria Ler, que seria em sua vida uma figura regeneradora – um outro pai, arrebatado, emotivo, solar e ligado aos prazeres da vida. Acabou se associando à parceira de vida Lilia Schwarcz, e o casal fundou a Companhia das Letras em 1986, ocupando os fundos de uma gráfica da família. O primeiro livro já mostrava a ousadia e o faro de Schwarcz no comando da então pequena equipe de sua empresa: Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, título de 1940 jamais traduzido no Brasil, foi alçado rapidamente à condição de best-seller. A Companhia se transformaria em padrão de qualidade para a ficção brasileira e internacional, abocanhando autores de outras editoras, conquistando espólios e descobrindo novos artistas. Também inventou novas maneiras de editar não-ficção, em especial biografias e livros de reportagens e relatos, caso do importantíssimo Estação Carandiru (1999), de Drauzio Varella.

A estreia como escritor se dá com um livro infantil, "Minha vida de goleiro" (1999), que mistura futebol e a memória familiar do Holocausto

A estreia como escritor se dá com um livro infantil, “Minha vida de goleiro” (1999), que mistura futebol e a memória familiar do Holocausto

A leitura de O ar que me falta revela o avesso desse sucesso, mostrando como grandes crises do autor coincidiram com momentos de muito êxito, caso do lançamento de Chatô, biografia do empresário Assis Chateaubriand por Fernando Morais, que se transformaria em um fenômeno de vendas. É aí que a escrita entra em cena: o livro evidencia como o Schwarcz editor – e, portanto, um habilidoso leitor das escritas alheias – foi tomado por um desejo de narrar. E como esse escritor sempre esteve, em maior e menor medida, tentando reconfigurar os mitos de sua origem, repisando os caminhos percorridos pelo avô, pelo pai. Foi assim com alguns dos contos de Discurso sobre o capim (2005) e Linguagem de sinais (2010); foi assim com dos romances jamais publicados, por não terem passado por sua autocrítica; foi assim, ainda, com o belíssimo livro infantil Minha vida de goleiro (1999), em que o santista Schwarcz mistura seu amor pelo futebol com as memórias familiares do Holocausto.

Não deixa de ser emblemático que a primeira investida do autor na ficção tenha ocorrido a partir de um discurso dirigido às crianças, o que torna ainda mais pungente o relato de sua grande crise depressiva, ocorrida justamente depois que as lembranças contidas nesse livro foram atiçadas. Em sua “história de uma curta infância e uma longa depressão”, Schwarcz relata que começou a passar mal no dia em que tinha um encontro marcado com uma plateia infantil, para mais uma ação de lançamento de Minha vida de goleiro. Chegou a ser internado e passou meses em casa sob cuidados médicos, e nesse ponto sua escrita, no livro, vai encontrando saídas para a prostração, exatamente como o corpo e a mente encontraram, anos atrás.

É também por isso que O ar que me falta é o livro mais importante escrito por Schwarcz até agora – certamente virão outros. Ao recuperar sua voz, em vez de “inventar uma ficção para preencher o silêncio” de seu pai, ele acha a trilha para “transformar tanta tristeza num livro”, o que “talvez seja um dos finais felizes para esta história”. Só depois de dar vazão ao próprio impulso de contar é que um narrador se sente apto a ouvir, a ser empático e colaborador das histórias alheias. Ao enfrentar suas dores, Schwarcz recuperou o ar que lhe faltava, e vai poder voltar a ler.

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Veja no Instagram da Companhia das Letras Luiz Schwarcz lendo um trecho de O ar que me falta, clicando aqui.

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