Há exato um século, o cronista sofria o infarto que o vitimou e desolou toda a cidade. Mais de 100 mil pessoas compareceram ao funeral do escritor. Num Rio de Janeiro tão diferente e tão vilipendiado, imagino como seria hoje sua flânerie

No dia 23 de junho de 1921, parou o coração de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. O extenso nome estampado na cédula de identidade do falecido não foi, contudo, o que correu de boca em boca pela cidade, a ponto de atrair mais de 100 mil pessoas — quase dez por cento da população da época — a seu funeral. Para aquela impressionante multidão, o homem que morrera aos 39 anos no banco traseiro de um táxi, deixando um rastro de desolação pela então capital da República, era simplesmente João do Rio.

“Gente modesta vestindo roupas de todo o dia, cavalheiros de luto, senhoras trajando sedas negras (…) foram portar nas ruas por que passaria o préstito, para prestar as homenagens do seu carinho e da sua admiração. (…). Os choferes prestaram todas as homenagens que puderam ao saudoso defensor e amigo. Não só as associações da classe mandaram depositar coroas sobre o féretro, como os proprietários de autos deram passagem gratuita, de todos os pontos da cidade à avenida, aos que pretendiam associar-se à tocante homenagem”, relatava, quatro dias após o enterro, o jornal O Paíz.

A multidão presente ao enterro do escritor / Foto: reprodução FBN

A multidão foi ao enterro para se despedir do escritor / Foto: reprodução FBN

Curioso pensar que a efeméride do centenário da morte do escritor, completado hoje, se dê num ambiente de quase silêncio. Arrisco dizer que, ao menos em parte, isso se deve ao “do Rio” presente no cognome. A cor local ficou demodê, desbancada por uma lógica de suposto cosmopolitismo cuja premissa desconhece as interseções entre as diferentes metrópoles. “Uma cidade moderna é como todas as cidades modernas”, observou o próprio João do Rio.

E poucos descreveram o espaço urbano como ele. A partir do exercício da flânerie — o exercício da caminhada que serve à observação —, João do Rio esquadrinhou o fascinante universo das ruas, descrevendo tipos, catalogando gírias, costumes, comportamentos. “Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível”, anotou na célebre conferência que viria mais tarde a abrir a coletânea A arte encantadora das ruas.

Para ele, o flâneur era um “eterno convidado do sereno”. Sua curiosidade sempre acesa lhe permitiu construir uma etnografia original, cuja gênese mesclava crônica e reportagem. Mais do que os grandes acontecimentos, interessavam-lhe as miudezas da cidade. Roupas, casas de chá, confeitarias, tatuadores, ambulantes, comedores de ópio, malucos de toda sorte. Com essa matéria-prima, ecoou as profundas transformações sofridas pelo Rio no início do século passado

Seu trabalho transitou ainda pela ficção, pelo teatro, e inclui uma pioneira investigação sobre a fé afro-brasileira: a série de reportagens que originaria o livro As religiões no Rio (depois republicado com o título As religiões do Rio). Fruto da imersão nos terreiros de umbanda e candomblé da zona portuária que viria a ser conhecida como “Pequena África”, a obra tornou-se referência na pesquisa de campo sobre o tema.

"As religiões no Rio", ainda com o título original, em edição da Garnier

“As religiões no Rio”, em edição da Garnier

“Mulato, gordo e homossexual, João do Rio era, segundo os provincianos da República Velha, um exemplo típico do carioca com todas as suas qualidades e seus defeitos”, salienta o jornalista João Carlos Rodrigues, na alentada biografia que dedicou ao escritor. Como afirma, o cronista “tudo viu e ouviu” — e nos lugares mais díspares: “elegantes recepções no Palácio do Catete, bombardeios durante a Intentona Monarquista em Lisboa, roda de samba numa favela no Largo da Carioca, Cascatinha da Tijuca ao luar com Isadora Duncan…”

Se vivesse neste 2021 e estivéssemos enfim livres da pandemia, é bem provável que pintasse na gira do Awurê, no baile charme do viaduto de Madureira, numa batalha do passinho. Talvez, nas andanças pelo Centro, parasse para tomar um drink no Bafo da Prainha ou prosear com a turma da Livraria Folha Seca. Porque o Rio que lhe deu alcunha, hoje tão distinto e desdenhado, viceja aqui e ali. Para além dos vaticínios, das predições de morte. Proferidas quase sempre por aqueles que, ao contrário do que fez o escritor, não circulam pela cidade.