1. Álbum de fotos

Como escrevi certa vez numa crônica, meu pai gostava de repetir que Madureira tinha a maior arrecadação de ICMS do Rio de Janeiro. A contumaz referência à receita do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços era sua maneira de distinguir o bairro onde morávamos e no qual se localizava a loja da família, inaugurada em 1917 pelo avô que nunca conheci.

A Casa Hilda vendia roupas para homens adultos. Inicialmente, chamava-se Casa Luso-Brasileira, uma alusão direta ao processo migratório que trouxe para o Brasil os portugueses de Vale da Mula, pequena freguesia do município de Almeida, quase na fronteira com a Espanha.

O trajeto entre a residência e a loja era cumprido a pé, de segunda a sexta, pelo pai. Morávamos a cerca de seis quarteirões. Uma casa com cinco quartos, garagem, piscina, churrasqueira, canil, quintais à frente e nos fundos. Na paisagem composta por prédios e vilas, o imóvel se destacava pela imponência.

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Francisco Moutinho, meu pai, no caixa da Casa Hilda

Durante minha meninice, o cotidiano esteve concentrado em Madureira e em seus arredores. Fiz o Jardim da Infância em Marechal Hermes, que fica a quinze minutos, e o Ensino Básico — na época conhecido como Primeiro Grau — em Piedade, também bem próximo. O material escolar era comprado na Casa Batista, um tradicional estabelecimento da Rua Carvalho de Souza; as roupas, nas lojas da Estrada do Portela. Às vezes ia ao sobrado da bisavó atrás de balas de leite ou de trocado para um gibi. Nos fins de semana, se o tempo estivesse bom, brincava com os irmãos e primos no parquinho da Shopping Tem Tudo. O microcosmo onde a vida se desenrolava parecia imenso aos olhos de um garoto.

Meu pai, por sua vez, tinha proeminência no bairro. Além de participar da associação comercial, integrava os quadros do prestigioso Rotary Club, era sócio-proprietário do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano e ostentava, com manifesto orgulho, a carteira de número 2 do Madureira Esporte Clube. O status local e os laços de pertencimento à comunidade se faziam claros.

Em 1980, quando completei oito anos, o pai alugou uma casa na Barra da Tijuca. A rotina passou então a se dividir entre os dois bairros. Toda manhã ele nos levava de carro para a escola, ainda em Piedade, depois seguia para a loja. Na Barra, passei a frequentar a praia, aprendi a jogar futebol, fiz novos amigos. E, pela primeira vez, fui chamado de suburbano.

2. Rapto ideológico

Derivada do latim suburbiu, a palavra “subúrbio” refere-se a “cercanias da cidade”. A origem etimológica tem, portanto, sentido meramente geográfico. Na Antiguidade, as terras circunvizinhas à “urbe”, extramuros, serviam à fruição dos prazeres do esporte e da meditação por parte dos membros da nobreza que moravam nas áreas centrais. Já na cidade helênica, “era comum o ginásio, o teatro e academia se situarem no subúrbio”, como afirma o geógrafo Nelson da Nóbrega Fernandes no estudo que dedicou à configuração espacial do Rio.

Essa acepção se repete no Brasil dos tempos da Colônia e do Império. Fazendas, engenhos e igrejas são instalados nas áreas suburbanas, que se prestam a temporadas de refúgio e descanso da elite nacional. Bom exemplo é o de D. Carlota Joaquina, esposa de D. João VI. Em 1810, ela ergueu em Inhaúma um sítio que viria a ser conhecido como Engenho da Rainha. D. Pedro também contava com um espaço suburbano de recolhimento, a Fazenda de Santa Cruz, onde inclusive passou a lua de mel com D. Leopoldina. Hoje, a área corresponde ao bairro homônimo (Santa Cruz).

No âmbito da cidade moderna, o panorama começa a mudar entre as décadas de 1840 e 1970. Grandes reformas urbanas são implementadas em cidades europeias, como Londres, Paris e Bruxelas, no curso da industrialização. Fernandes analisa especificamente o caso da capital francesa, que entre 1853 e 1869 destrói a grande maioria das construções antigas, sobretudo nos bairros mais degradados, e acaba por impor a expulsão dos trabalhadores para as áreas periféricas. Trata-se de uma política de Estado, cujo segundo ato se daria no estímulo à compra da casa própria no subúrbio, consistindo no que o sociólogo Henri Lefebrve, citado por Fernandes, chama de “ideologia do habitat”.

A reforma de Paris serviu de inspiração para o “bota-abaixo” promovido pelo prefeito Francisco Pereira Passos no Rio de Janeiro, a partir de 1902. Entre 1857 e 1860, Passos frequentara cursos na École de Ponts et Chaussées, onde acompanhou as obras empreendidas por Georges Haussman, prefeito do Departamento do Sena. Dessa experiência, viria a proposta resumida na frase “O Rio civiliza-se”, lema de sua gestão.

Ao longo dos quatro anos de mandato de Pereira Passos, velhos imóveis foram aniquilados a fim de permitir a abertura de largas vias, como a Avenida Central (hoje, Rio Branco), a Rua do Sacramento (atual Avenida Passos), a Rua da Prainha (agora, Rua do Acre) e a Rua Uruguaiana, entre outras.

“Avenidas radiais e diagonais, cortando o centro em várias direções – as avenidas Mem de Sá, Salvador de Sá, Marechal Floriano – exigiram o arrasamento de morros, como o do Senado, e a demolição de moradias e casas de comércio que se encontravam no trajeto das “vias do progresso”, informa a historiadora Marly Silva da Motta em verbete do Atlas Histórico do Brasil. Segundo ela, são conflitantes as informações sobre o número de construções demolidas para dar passagem à nova avenida, variando entre setecentas e três mil. “Ao atuar sobre velhas freguesias e distritos centrais, esse conjunto de intervenções urbanísticas resultou na destruição de quarteirões inteiros de hospedagens, cortiços, casas de cômodos e estalagens, além de armazéns e trapiches das áreas junto ao mar, forçando boa parte da população que ali vivia e trabalhava a se deslocar para os subúrbios ou a subir os morros próximos – Providência, São Carlos, Santo Antônio, entre outros –, até então pouco habitados”, conta.

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Avenida Central, inaugurada em 1905 por Pereira Passos. Foto: Biblioteca Nacional

A Reforma Passos e o incremento do transporte ferroviário na cidade serão fundamentais para a ocupação dos subúrbios cariocas. Mas até então, mesmo diante das profundas mudanças urbanas, o vocábulo mantinha o significado de “arrebalde”. “Assim eram chamadas, em meados do século passado [ela se refere ao Século 19], certas áreas como Catumbi, Catete e Botafogo e Gávea”, observa a geógrafa Maria Therezinha Segadas Soares, precursora da pesquisa sobre a configuração da periferia carioca.

Soares foi pioneira ao esquadrinhar a transformação que o termo “subúrbio” sofreu no Rio de Janeiro, a ponto de ganhar uma acepção sui generis, alheia à etimologia. Com base nos estudos da professora, Fernandes dá um novo passo ao, citando mais uma vez Lefebrve, qualificar de “rapto ideológico” essa conversão. A perda do caráter essencialmente cartográfico em favor de uma classificação filtrada pela classe social seria, defende ele, um “fruto da história”. E também da segregação iniciada com a Reforma Passos.

“As picaretas dos diversos prefeitos que, à moda de Haussmann, empreenderam grandes programas de obras públicas na cidade não se limitaram a revolucionar apenas o tecido colonial de seu centro histórico. As transformações deflagradas chegaram ao espaço e ao significado da palavra subúrbio, tornando-a o conceito carioca de subúrbio”, diz Soares.

Esse conceito cuja gênese começava a nascer colidia com os critérios oficiais, como demonstra Decreto Municipal 1.185, de 5 de janeiro de 1918, que situa bairros como Méier e Todos os Santos dentro da área urbana, e localidades como Jacarepaguá, Gávea e Bangu, na zona suburbana. O caráter simbólico do termo, aponta Nelson da Nóbrega Fernandes, “não se baseia no tradicional nem no legal, mas na difusa consciência social”. É, portanto, também produto de intersubjetividades.

No curso do Século 20, a dissensão entre significante e significado se sedimenta, a palavra perde a polissemia e passa a designar, no universo carioca, exclusivamente os bairros localizados ao longo da linha do trem e ocupados pelas classes baixa e média baixa. Nesse imaginário, se uma região é, do ponto de vista cartográfico, suburbana, mas serve de moradia à elite financeira da cidade, então o termo subúrbio já não lhe cabe.

À lógica classista soma-se um menosprezo de fundo cultural. Além de abdicar de promover investimentos que pudessem dar melhores condições de habitação a quem vive nas áreas periféricas, o Estado operou durante muito tempo uma política de desqualificação moral. O próprio Pereira Passos costumava usar a expressão “Mato Grosso” para designar o subúrbio. Para ele, como destaca Soares, essa área da cidade era “um sertão incivilizado” ao qual a “nova” e “moderna” cidade deveria se contrapor.

 

3. Princesinha do Mar

Um dos introdutores da Antropologia Urbana no Brasil, o professor Gilberto Velho publicou, em 1973, uma adaptação da dissertação de mestrado apresentada dois anos antes ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Com o título A utopia urbana, o livro baseia-se em pesquisas realizadas em Copacabana, mais especificamente no prédio de apartamentos conjugados e de quarto e sala onde o autor morou por um período. O estudo parte de uma pergunta central, feita a todos os entrevistados: “Por que Copacabana?”.

Velho procurava entender o ethos particular do morador do bairro tão celebrado. A “Princesinha do Mar” da canção de Braguinha e Alberto Ribeiro, protótipo de cartão postal do Rio de Janeiro. A transformação daquela área de 5,2 km em objeto do desejo, como mostra o antropólogo, se dá na esteira da ampliação do transporte público na cidade e, sobretudo, da especulação imobiliária.

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A Praia de Copacabana, em reprodução de cartão postal dos anos 1950

“Paraíso à beira-mar”, “More como gente bem: em Copacabana”, “Seja feliz em Copacabana” – estampam, com destaque, os jornais entre os anos 1940 e 1960, em anúncios publicitários que o pesquisador destaca no livro. A propaganda, adverte, não explica por si só o status amealhado pelo bairro. Mas encontrou as condições sócio-históricas para que sua consolidação como símbolo de status se consolidasse. E, consequentemente, o número de habitantes crescesse em percentual muito maior do que o verificado no Rio como um todo. Entre 1920 e 1960, salienta o autor, Copacabana teve um aumento de 1500% em sua população, enquanto na cidade esse índice foi de 240%.

As razões são várias e devidamente exploradas por Velho no estudo. Mas o que nos interessa, aqui, é a fala dos moradores sobre o subúrbio. Um discurso que confirma a sedimentação da carga ideológica desse termo, conforme indicado por Nelson da Nóbrega Fernandes.

Nas respostas ao antropólogo, o enunciado parte quase sempre de um movimento de contraposição. “Por exemplo, a alegria de Copacabana se opondo à tristeza do Grajaú, ou a liberdade da Zona Sul se opondo ao ‘abafamento’ da Zona Norte”, salienta Velho. Seleciono algumas frases colhidas pelo pesquisador entre os entrevistados:

 

  • “Vivi mais de trinta anos levando vida de subúrbio, triste, sem graça. Agora aprendi a me divertir aqui”.
  • “No subúrbio é tudo igual, sem graça”.
  • “No subúrbio não se vive”.
  • “Para que quero ser dono de uma casa num lugar triste, como a Tijuca?”
  • “O Méier é muito ruim também. Não tem nada”.
  • “Quando vou ao Méier, na casa de um amigo, me dá aflição e quero sair logo”.
  • [No subúrbio], “o tempo não passa”.
  • “O subúrbio é muito triste”.

 

Já Copacabana, por contraste, desponta como lugar da diversão, de gente “moderna”, “adiantada”, “diferente”, “variada”. “Ao valorizarem tanto, “irracionalmente”, Copacabana [as pessoas] iluminavam o outro lado da moeda. Querendo tanto chegar ou permanecer no bairro ou na Zona Sul em geral, colocavam em pauta uma precariedade de condições de vida muito mais violenta, de que procuraram fugir ou escapar. Isso patenteava-se ao contrastarem a vida copacabanense com a da Zona Norte, do subúrbio, da periferia ou mesmo de outras cidades”, frisa o antropólogo.

Essa clivagem ressalta uma hierarquia que obedece ao mapa da cidade — este passa a funcionar, pondera o pesquisador, como “um mapa social onde as pessoas se definem pelo lugar em que moram”. O local de residência representa um signo de prestígio, sublinhando a estratificação da cidade. Assim, a sociedade carioca não se dividiria entre pobres e ricos, mas entre moradores de Madureira ou de Copacabana, do Méier ou de Ipanema. A distribuição espacial vai ser “fundamental para definir o status dos indivíduos, atribuindo-lhes mais ou menos vantagens ou privilégios que são, basicamente, as oportunidades de acesso a determinados padrões materiais e não materiais”, como afirma Velho.

4. Refúgio dos infelizes

A percepção do subúrbio como território triste e letárgico, que depreende do discurso dos moradores de Copacabana entrevistados pelo antropólogo, pode ser atestada em outros campos da cultura. Na esfera da música popular, temos as “flores tristes e baldias / como a alegria que não tem onde encostar” da canção Gente humilde (1970), parceria do violonista Garoto com Chico Buarque e Vinicius de Moraes. No cinema, o belíssimo Chuvas de Verão (1978), de Cacá Diegues, traz um subúrbio pacato, quase melancólico, onde a plenitude parece estar no desacontecimento.

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Cena do filme “Chuvas de Verão”: um subúrbio do ‘desacontecimento’

A literatura destaca particularidades afins. Em Clara dos Anjos, romance escrito em 1922, após fazer uma longa discrição da paisagem suburbana, o narrador criado por Lima Barreto resume: “O subúrbio é o refúgio dos infelizes”. A frase faz ecoar, mais uma vez, as falas da dissertação de Gilberto Velho.

Lima morou em Todos os Santos. Pegava diariamente o trem na Central do Brasil e costumava viajar no vagão de segunda classe, que encarava como laboratório para seu trabalho literário. A relação do escritor com o subúrbio foi marcada pela ambivalência. Se lhe apraziam a sociabilidade da vizinhança, os papos de bar, incomodava-se com a monotonia e as “preocupações domésticas”, que “tiravam toda e qualquer manifestação de inteligência, de gosto e de interesse espiritual” dos moradores.

Assim como o escritor, Gilberto Velho tinha uma relação de familiaridade com seu objeto de pesquisa. Na “Introdução à primeira edição” de A utopia urbana, ele revela que morou em Copacabana dos seis aos vinte e quatro anos de idade. “A Antropologia, tradicionalmente, tem estudado os ‘outros’ e eu me propus a estudar o ‘nós’”, ressalta. É o próprio autor quem pondera: “O fato é que, dentro da grandes metrópoles, seja Nova York, Paris ou Rio de Janeiro, há descontinuidades vigorosas entre o “mundo” do pesquisador e outros mundos, fazendo com que ele mesmo sendo nova-iorquino, parisiense ou carioca, possa ter a experiência de estranheza, não reconhecimento ou até choque cultural comparável à de viagens a sociedades e regiões “exóticas”.

Essas distinções que latejam dentro do universo da metrópole resultam em categorizações sociais, como a que configurou a imagem do suburbano no Rio. Um arquétipo de tamanha força que chegou aos principais dicionários, dando uma roupagem “oficial” à acepção. “Aquele que é pouco refinado, que revela ou tem mau gosto; saquarema, cafona, brega”, registra o Dicionário Houaiss na Língua Portuguesa, no terceiro item do verbete. O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa eletrônico, igualmente no tópico três, o define como aquele “que tem ou revela mau gosto”.

5. Os muitos subúrbios

A noção de subúrbio como um marcador geográfico não demorou a se insinuar para o menino de Madureira que fui há mais de quarenta anos. E se cristalizaria ainda na adolescência, a partir da lembrança das conversas com meu pai. “Vamos à cidade”?, ele eventualmente propunha. Era um dos meus passeios preferidos. Acompanhá-lo na ida ao Centro, almoçar por lá, “na cidade”. Se íamos “à cidade”, é porque estávamos fora dela, pude concluir.

Ao mencionar essas idas “à cidade”, penso novamente em Lima Barreto. Na crônica “O trem de subúrbios”, de 1921, o escritor trata da “elite suburbana”. Aquela da qual meu pai, alguns anos mais tarde, faria parte. “Eles estão na sua atmosfera própria que os realça desmedidamente. Chegam da Rua do Ouvidor, e desaparecem”, observa. Era o que eu via acontecer quando aportávamos no Centro do Rio.

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Lima Barreto, que pegava diariamente o trem na Central

Ao ser chamado pela primeira vez de suburbano, contudo, meu sentimento inicial foi de incompreensão. Para uma criança cuja vida até então se resumira ao bairro de morada e às cercanias, o termo era por demais amplo. E vago. Isso porque não percebia o subúrbio como um ente único. A pacata Oswaldo Cruz diferia da agitada Madureira, assim como Cascadura pouco tinha a ver com o Méier — o qual, pelos traços comparativamente mais elitizados, a família chamava de “Zona Sul da Zona Norte”. Essa, sim, era uma assimetria distinguível: a Zona Sul em contraste com a Zona Norte.

O “suburbano” utilizado pelos colegas da Barra para me designar, porém, extrapolava o aspecto espacial. Carregava todo o viés ideológico que transformou a acepção original do vocábulo, redundando em uma etiqueta generalista e pretensamente desqualificadora. Como salientam o arquiteto Rodrigo Cunha Bertamé Ribeiro e geógrafo Flavio Lima, estudiosos das identidades periféricas, o suburbano em geral é visto “de um ponto de vista externo, reforçando a experiência do exótico”. Os dois autores são críticos do dualismo usualmente empregado quando se analisa a região. Existem “inúmeros subúrbios”, reforçam.

Basta nos desprendermos da rigidez do vínculo construído entre subúrbio e linha férrea para que isso se evidencie. Há os subúrbios “da Central” (como Madureira, Méier, Cascadura, Engenho de Dentro) e da Zona da Leopoldina (Ramos, Olaria, Penha), ambos com estreita ligação ao trajeto dos trens, mas também os guanabarinos, como Pavuna e Anchieta, aqueles que se encontram sob a circunscrição de Jacarepaguá (Praça Seca, Taquara, Freguesia), e ainda os que compõem o chamado Sertão Carioca (Campo Grande, Santa Cruz).

Essa lógica de pluralidade me remete ao título do estudo de Renato Cordeiro Gomes, professor de Literatura e Linguística, sobre a legibilidade do espaço urbano. Ao dar nome a um de seus livros, Gomes evoca um conto de Julio Cortázar para sintetizar a rarefação imagética da cidade contemporânea. Todos os fogos, o fogo, do escritor argentino, vira Todas as cidades, a cidade. Parafraseio a paráfrase no intuito de iluminar o movimento operado em torno dos arrabaldes cariocas. Como demonstrado, seus diversos bairros, cada qual com atributos singulares para além da geografia, acabaram sendo empastelados no artigo definido. Todos os subúrbios, “o” subúrbio. Ou ainda: todos os suburbanos, “o” suburbano.

E um indício do vigor dos significados de fundo ideológico, como esse capaz de deslocar o viés geográfico do topônimo “subúrbio carioca”, nos é dado curiosamente pelo próprio Gilberto Velho. Sempre atento aos rigores do trabalho etnográfico, cuidadoso a ponto de refletir em seus ensaios sobre a dimensão das noções produzidas pela cultura e os desafios à prática da observação familiar, no texto “A utopia revisitada”, publicado como pós-escrito de A utopia urbana, o antropólogo comete uma espécie de ato falho. Situa a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes, bairros que integram a desprestigiada Zona Oeste da cidade, na fidalga Zona Sul. Do menino suburbano ao referencial professor, ninguém está imune a se perder, vez por outra, no labirinto do simbólico.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1a edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade. 1a edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1994

LINS, Antônio José Pedral Sampaio. Subúrbio e periferia: onde a cidade é híbrida. In: DOS SANTOS, Joaquim Justino; GUILHON, Teresa; MATTOSO, Rafael (orgs.). Diálogos suburbanos – Identidade e lugares na construção da cidade. 1a edição Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019

MOTTA, Vilma Silva da. O bota-abaixo. In: Atlas Histórico do Brasil. Disponível em https://atlas.fgv.br/verbetes/o-bota-abaixo. Acesso em 14/06/2021

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RIBEIRO, Rodrigo Cunha Bertamé; LIMA, Flavio. Subúrbios cariocas, uma deriva contemporânea sobre o nosso chão. In: Diálogos suburbanos – Identidade e lugares na construção da cidade. 1a edição. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019

SCHWARCZ, Lilia. Lima Barreto, triste visionário. 1a edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017

SOARES, Maria Therezinha de Segadas; BERNARDES, Lysia M.C. Rio de Janeiro – Cidade e região. 2a edição. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1990

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VELHO, Gilberto. Um antropólogo na cidade – Ensaios de Antropologia Urbana. 1a edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2013

VELHO, Gilberto. A utopia urbana. 7a edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010