Novo single de Caetano Veloso, Anjos tronchos faz acerto de contas com anos 2010 pelo que produziram de mais monstruoso e sublime: o Vale do Silício e sua influência cibernética na política mundial

Na época em que divas pop reformulam seus projetos e lançam novas “eras” a cada biênio, parece sintomático que Caetano Veloso tenha escolhido esperar nove anos para lançar algo consistentemente inédito desde a dobradinha Recanto/Abraçaço. Excetuando-se músicas lançadas aqui e ali — Pardo, para Céu, Alexandrino, para o espetáculo Ofertório, com os filhos, De Santo Amaro a Xerém, para o show de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho –, a última década não trouxe nada de muito notável. Como se o novo estivesse à espera de ser dito na hora certa, enfim.

 

A chegada de Anjos tronchos rompe o sentimentalismo de Gayana, que encerrava o disco Abraçaço, último volume da trilogia com a banda Cê, e instaura uma melancolia que repassa os anos 2010 pelo que ela produziu de mais monstruoso e sublime: os americanos nada pobres do Vale do Silício e sua influência cibernética na política mundial. Na densa letra, Caetano passa um pente fino na corrida tecnológica capitaneada pelos Bezos e Musks sem deixar de citar a Primavera Árabe. Se as revoluções políticas são trabalhadas a partir do digital, há nada mais Caetanesco que se voltar para essa tendência. Não estão aqui as caravanas minuciosamente descritas por Chico Buarque, nem a opinião sobre “a tal, a vil situação” que pedia Gilberto Gil. Caetano salta por cima do muro e comenta a política pela ótica das redes sem nenhum vestígio de querer aceitar a pecha de comedor de paçoca. Ou melhor: se o que víamos nesses últimos anos era a chegada do neto, a turnê em família, as paçoquinhas oferecidas por Paula Lavigne, por dentro — como sempre foi em sua obra — havia algo mais duro sendo gestado.

A abertura da música, com baixos e guitarras de Pedro Sá — e minimalista na produção de Lucas Nunes —, dá o tom de cinza. A base em diálogo com as produções da “Miss [Billie] Eilish” citada ao final é fio condutor para que o baiano estabeleça, aos 79 anos, uma conversa com Carlos Drummond de Andrade: ser virtuoso no vício da tela, essa profusão de us do começo da canção, com um quê de O cu do mundo sub-reptício, soa melancólica e cria o cenário perfeito para que o eu-lírico contemple a destruição ao seu redor. Não há nada pacífico em seus quase quatro minutos. O próprio Caetano foi vítima das redes ao ser linchado pela turba bolsonarista. Quem fala é o mesmo alguém que decretou que alguma coisa estava fora da ordem e o Haiti era aqui, não era aqui. O mesmo que mencionou os Americanos, os Podres poderes, o que sabia, ao final do disco , que ser herói era algo que só Deus e ele sabiam como dói.

Reencontrar esse Caetano da política é reencontrar o Caetano possível em 2021. Não espanta que Anjos tronchos tenha sido escolhida para abrir os trabalhos do novo disco. Intitulado Meu coco — minha cabeça, meu ritmo, meu Brasil – e com previsão de lançamento para 14 de outubro, o álbum já diz a que veio pelas faixas conhecidas: Pardo, a gravação de Noite de cristal e o Autoacalanto feito para o neto Benjamin. Se a nova safra tem espaço para o amor, a celebração e a família, há — e bastante — para a política. Seria ingênuo imaginar que o homem que cantou Zumbi no disco lançado em 2000, na ano do quinto centenário do falso descobrimento, fosse se ausentar do debate. Logo ele, que começa organizando o movimento, orientando o Carnaval e implodindo todas as noções de música popular para então refundar o mito que João Gilberto ensinou a conhecer.

92a9ed41-9be3-4090-8cfc-41989edf16c0

Caetano no Festival de 67: artista doma a plateia e sai do palco consagrado para nunca mais abandoná-lo. Foto: Arquivo Nacional

O eu-lírico também não se furta a enxergar coisas boas na internet e nas redes, ao mesmo passo em que assume sua centralidade e a comunhão com os concretistas — em conversa no Twitter, Caetano disse que pensava especificamente em Augusto de Campos. Na penúltima estrofe, o vaticínio: “Mas há poemas como jamais/ Ou como algum poeta sonhou/ Nos tempos em que havia tempos atrás/ E eu vou, por que não?/ Eu vou, por que não? Eu vou”.

Retomar Alegria, alegria mais de meio século depois — com bumbo e triângulo feito uma fuga feliz — não é acaso algum, como também não o era em O estrangeiro quando dizia “sigo mais sozinho caminhando contra o vento”. Billie Eilish no quarto com o irmão “enquanto nós nos perguntamos do início” configura menos a passagem da tocha que a confirmação de que há uma tristeza envolvendo nossas vidas: “Um post vil poderá matar/ Que é que pode ser salvação?/ Que nuvem, se nem espaço há/ Nem tempo, nem sim nem não”. Se não há tempos atrás, tudo segue inexoravelmente em direção ao futuro, e o tempo que permitia orações tornou-se anacrônico demais; em consequência, porque havemos de convir que um pensador como ele jamais pararia, vai-se adiante — e aqui o arranjo estabelece uma marchinha: não por acaso, a divulgação do single exibia vídeos do Festival de 67, quando um Caetano seríssimo dá lugar a um Caetano que doma a plateia e sai do palco consagrado para nunca mais abandoná-lo.

O antigo e o novo, o arcaico e o concreto, o “império e seus vastos quintais”, Schönberg e Billie Eilish, palhaços líderes e o agora “sem pele, tela a tela”: fragmentado na capa do single, Caetano volta ao estúdio na era do sexting e do frenesi disposto a dar opinião por intermédio de um eu-lírico que não perde a contundência. O Caetano combativo está aqui, e acena mais uma vez para as novas gerações: não apenas as do funk de Chico em 2017, ou aquelas dos amigos de Moreno, no começo dos anos 2000: as que estão em seus quartos ganhando o Grammy e mudando o mundo, em oposição à terraplanagem intelectual do Vale do Silício. É claro que ele, otimista programático, teimosamente otimista, em suas próprias palavras, as entenderia. Por que não?

 

+++

 

Crédito da imagem principal: detalhe da capa do single “Anjos tronchos”