Filme dirigido por Florian Zeller e vencedor de duas estatuetas do Oscar reflete questões tratadas por Freud em seu célebre estudo sobre o totemismo 

 

O texto Totem e Tabu, escrito por Sigmund Freud em 1915, é considerado um importante recurso mítico para a descrição do momento fundamental na constituição do sujeito, da neurose e da civilização: a cena edípica. Partindo da suposição de um pai primevo, o “dono da horda” no início da história humana, o precursor da psicanálise apresenta alguns dos principais conceitos de sua obra, como tabu, horror ao incesto, complexo de Édipo e castração, nesse texto. Pela primeira vez em sua literatura, Freud deixa a teoria da sedução paterna como algo real, ativo e traumático na infância dos filhos para pensar o papel simbólico e fantasioso do pai enquanto figura que inaugura as leis internas e sociais.

O psicanalista inicia o percurso da teoria totêmica questionando a ordem natural do incesto no humano. Ao analisar sonhos, ele desconfiava do horror às relações familiares e acreditava que o desejo incestuoso seria o primeiro impulso sexual infantil. Com isso, recorreu à bibliografia antropológica e à perspectiva evolucionista de Charles Darwin para formular a narrativa histórica do Complexo de Édipo. Freud já havia citado essa teoria do desejo pela mãe e da rivalidade com o pai em Cartas a Fliess, mas foi debruçando-se sobre a prática do totemismo nas comunidades primevas que presumiu a provável gênese do tabu na civilização. No primeiro ensaio de Totem e tabu, “Horror ao incesto”, ele definiu a prática do totemismo:

“Suas tribos dividem-se em clãs ou estirpes menores, cada qual nomeado segundo seu totem. Mas o que é um totem? Via de regra é um animal, comestível, inofensivo ou perigoso, temido, e mais raramente uma planta ou força da natureza (chuva, água), que tem uma relação especial com todo o clã. O totem é, em primeiro lugar, o ancestral comum do clã, mas também seu espírito protetor e auxiliar” (FREUD, 1915, p. 19).

Nessa definição, Freud pontua uma das principais características do totemismo, a transmissão hereditária do totem. É essa crença, comum a todos os membros de um mesmo clã, que proíbe que eles matem, comam ou cacem o próprio totem, visto que o animal é tratado como um símbolo sagrado e ancestral pelo grupo. Nessa lógica, por serem todos irmãos, filhos de um único totem, outra grande proibição para esses povos seria a relação incestuosa entre os membros do mesmo clã, a endogamia. “Em quase toda parte que vigora o totem há também a lei que membros do mesmo totem não podem ter relações entre si, ou seja, também não podem se casar” (FREUD, p. 21), ressalta, ao analisar o imperativo da exogamia ligada ao totem.

Mas por que Freud investiga o totemismo e o relaciona com o tabu do incesto? Pois a partir da imagem que ele elabora acerca das comunidades ancestrais, o totem seria a representação tardia do pai primevo. O pai da horda, autoritário e supostamente “dono” das mulheres do clã, teria sido morto pelos filhos e devorado em seguida por eles. A morte e o subsequente ato canibalesco de devorar o pai provocam também a reação contrária nos irmãos, a culpa despertada pela introjeção do pai em cada um deles. Para Freud, a refeição totêmica inaugura então a relação de alteridade – a presença do outro no sujeito –, assim como a lei e a proibição internas, marcos da civilização. Segundo o psicanalista, é o banquete totêmico que origina o tabu.

Até hoje seguimos a lei do tabu, descrito por Freud como “uma série de restrições a que se submetem os povos” (FREUD, p. 47), um contrato social que independe de explicações. O tabu (matar o pai, ter relações incestuosas com a mãe, comer o animal totêmico, entre outras muitas restrições) era algo óbvio, fortemente proibido; era a primeira lei social na humanidade. A nível individual, tínhamos o recalque e a castração. A nível social, a lei e a cultura.

Ao analisarmos o mito totêmico, percebemos que o assassinato e a introjeção do pai provocam nos filhos uma sensação ambivalente: eles comemoram o extermínio da figura autoritária merecedora de raiva, o pai primevo, mas em seguida identificam-se com ele, o interiorizam como parte de si. A morte do pai é como fazê-lo no filho, é herdá-lo em si e vivenciar a culpa. É por conta desse sentimento contraditório em relação ao pai que Freud desenvolve o conceito de ambivalência, um forte desejo interno ao mesmo tempo abominado e proibido.

É importante notar que as restrições em relação ao clã e ao pai são apreendidas pelas gerações anteriores e provocam intenso medo de punição. Contudo, aquilo que é fortemente reprimido só pode ser profundamente desejado. O que o humano não gostaria de realizar não precisaria se tornar lei.

A teoria do tabu e da ambivalência no cinema contemporâneo

Após a contextualização de Totem e tabu, importante texto na trajetória de Freud, podemos analisar como a teoria permanece presente em obras atuais do cinema. The father (traduzido como Meu pai para o português), uma produção franco-britânica lançada em 2020, foi co-escrito e dirigido por Florian Zeller, baseado em sua peça de 2012. No primeiro ensaio de Totem e tabu, “Horror ao incesto”, o psicanalista definiu a prática do totemismo. Anthony Hopkins interpreta o personagem principal, um britânico idoso que sofre de perda de memória progressiva, ao lado de Olivia Colman e outros atores. Acerca do filme, que ganhou os prêmios de melhor ator (Anthony Hopkins) e de melhor roteiro adaptado no Oscar 2021, devemos dizer que, apesar de a produção se debruçar de forma inteligente sobre questões da velhice, a narrativa cinematográfica apresenta muitas outras camadas. São essas profundas nuances que revelam relações universais entre pais e filhos abordadas anteriormente.

Na narrativa, o pai mostra-se extremamente dependente dos cuidados da filha Anne. Ele recusa a convivência com enfermeiras e luta para viver de forma independente. Anne, no entanto, tem o desejo de se mudar de Londres, onde moram, para Paris e para isso precisa deixá-lo sob a responsabilidade de uma casa de repouso. Anthony (Hopkins) opõe-se completamente à decisão da filha, e é esse o embate que marca as quase duas horas do filme.

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Hopkins e Colman protagonizam a trama cujas nuances revelam relações universais entre pais e filhos

O envolvente roteiro se desenvolve sob a perspectiva desse idoso que já apresenta profundas confusões em relação às figuras que o cercam e ao que lhe acontece. E nós, espectadores, olhamos aquelas cenas sem o propósito de respondê-las. Somos levados pela angústia do pai que já não consegue reconhecer a filha, esquece o nome do genro, confunde os objetos da própria casa e até pede pela mãe que já está morta há vários anos. Durante os dias, Anthony apresenta forte preocupação com o relógio. Ora diz que foi roubado, ora acha que vê o objeto no pulso do marido da filha. A presença repetitiva do símbolo do tempo marca a tentativa do personagem de se manter consciente ao que lhe ocorre – embora essa postura se comprove em vão.

É em relação à filha, no entanto, que podemos ver uma forte correspondência com a teoria de Freud de Totem e tabu. Anne, que na maior parte do filme cuida do pai com forte dedicação e zelo e o recebe em sua própria casa para oferecê-lo conforto, é tomada pela inescapável ambivalência. Ao dar-se conta dos sinais de confusão e da demanda incessante desse pai, uma das cenas mais marcantes – embora também mais curtas – do longa metragem é o momento em que ela o sufoca. Como não podemos fazer afirmações acerca do que de fato acontece, apenas supomos que aquele foi um forte desejo de Anne, exausta da dedicação constante ao pai, que lhe priva do desejo de morar em outra cidade. Também não sabemos se matá-lo foi um desejo consciente ou uma fantasia datada da infância dessa filha. É possível apenas imaginar que, apesar de demonstrar amor ao acariciá-lo no rosto, provocar a morte do pai foi, no mínimo, um pensamento recalcado por ela.

Outras construções da ficção corroboram para a presença da teoria do tabu em Meu pai, como a cena do jantar em família. Em uma alusão à imagem da refeição totêmica de Freud, é à mesa de jantar que Paul, o marido da filha, entra em conflito direto com o pai e insinua que este deveria sair da casa. O pai, que passa a morar com o casal e a influenciar em decisões, como a permanência de Anne em casa todas as noites, a contratação de uma enfermeira que iria frequentar o apartamento, o período em que a filha tira ou não suas férias para cuidar do idoso, irrita o marido dela. São as solicitações e desejos desse pai totêmico que provocam a raiva de Paul, que insiste em levar Anthony à uma casa de repouso. Após essa tentativa de eliminar o “pai da horda” na mesa de jantar, Anne repete a cena do sufocamento, porém sem hostilidade – apenas acariciando seu pai com ternura. Nessa revisão da tentação de matá-lo, ela se identifica com o pai e manifesta culpa por querer sua morte. Anne apaga do roteiro o impulso de extingui-lo.

Devemos também reconhecer o tom de luto presente no filme. Parece-nos que a filha desde o início se prepara para a morte do pai, que apresenta diversos sinais de velhice. Em Totem e tabu, Freud dedica uma parte do texto especificamente para o tabu com os mortos, em que o psicanalista discorre sobre o medo que aqueles  considerados “fantasmas” e “demônios”, provocavam nos vivos, pois acreditava-se que os recém-mortos poderiam perseguir e punir os descendentes em vida. Até os nomes dos mortos não podiam ser citados enquanto o clã acreditasse que eles poderiam retornar do “mundo imaterial”. Era a conclusão do processo de luto que marcava o fim do tabu dos mortos e permitia a presença deles no discurso dos vivos novamente.

O filme, que explora a perda da memória na velhice, nos coloca diante daquilo que Freud afirmou ao longo de Totem e tabu: o mito da horda primeva estava recalcado em nossa história. Apesar de marcar a origem da cultura, o assassinato do pai totêmico e a instauração da lei do tabu foram esquecidos ao longo do tempo. Gerações depois, os membros do clã não sabiam mais responder por que se consideravam filhos de lobo, peixe, carneiro, leão, ou qualquer outro totem – embora, como uma lei natural, respeitassem os tabus impostos. Durante milênios, vivemos sob “a perda da memória” acerca da origem da civilização e só pudemos acessar a gênese da castração após esse contato com a literatura antropológica. Foi a revelação do mito primevo que nos permitiu reconstruir essa cena há pouco mais de cem anos. É por isso que reconhecemos em Anthony a amnésia de nossa espécie.

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Referências:

FREUD, S. Totem e tabu [1912-1914]. In: FREUD, S. Obras completas, volume 11:Totem e tabu, contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Meu pai. Direção de FlorianZeller. Inglaterra/França: California Filmes, 2020 (97 min).