“Quitação” confirma Agrade Camíz como uma artista sempre disposta a trazer para a sua obra uma ideia de trânsito de imagens e valores. A partir de um desacordo com posições históricas de poder, esta criadora destemida reorganiza uma iconografia urbana bastante ligada ao Rio de Janeiro, mas reconhecível por habitantes de qualquer grande cidade do mundo. Propõe ainda um rearranjo de hierarquias narrativas ao mirar seus holofotes nos discursos vindos do subúrbio e da favela, geografias e culturas recalcadas. Agrade faz brilhar esses mapas invisíveis com a beleza das luzes pisca-pisca numa festa da laje; com o calor da brasa que gira de mão em mão e interrompe o breu.

Vista da exposição "Quitação", na galeria A Gentil Carioca de São Paulo

Vista da exposição “Quitação”, na galeria A Gentil Carioca de São Paulo

O título da mostra alude aos sonhos embalados para o consumo da população periférica, da casa própria financiada a perder de vista aos carnês de parcelas infinitas para procedimentos estéticos. A sensação de estar permanentemente em dívida, com “restos a pagar”, é uma estratégia de aprisionamento dos mais pobres, estancados em posições sociais subalternas. Ao ironizar a ideia de quitação – e, mais do que isso, afirmar sua obra e a exposição como o calote em todas as dívidas injustas – Agrade enfatiza uma operação recorrente no seu trabalho: retirar aqueles que estão às margens dos lugares de vítimas para as posições de desejo e poder. 

A escultura "Divisa", com uma das pinturas da série "Habitacional" ao fundo

A escultura “Divisa”, com uma das pinturas da série “Habitacional” ao fundo

Para chegar a esse ponto, é preciso estar em movimento. Todos os trabalhos apresentados n’A Gentil Carioca embaralham signos e suportes, retirados de seus lugares e funções originais: temos a grade presente na escultura “Divisa”, limite vazado, ganhando novos significados nas marcas de fita isolante da fotografia da série “Padrão sobre o corpo”. Há cenas típicas do subúrbio, como os pequenos salões de beleza montados em casa. Vemos ainda os bolos de debutantes retemperando a memória desse momento em que a menina de subúrbio é oferecida à sociedade como alguém pronta para o sexo. Embora se refira biograficamente à sua vivência, as pinturas executadas em placas de eucatex também registram restos de outras vidas e ganham nova carga existencial a partir da imaginação. 

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A série “Alligator”, de pinturas feitas em janelas de ônibus, forma uma espécie de eixo do conjunto de trabalhos, elevando a voltagem das ideias de êxodo, intercâmbio e ‘sampler’ de imagens presente em toda a trajetória da artista. A artista era passageira da linha 474, que ligava o bairro do Jacaré, onde morava, ao Jardim de Alah, no Leblon. Do ponto final era possível caminhar até a praia. 

Afirmar o direito à produção estética

Agrade faz questão de cobrir as janelas, elemento tão importante na história da pintura, com elementos gráficos  e líricos. E há ainda uma afirmação enfática de uma iconografia das bordas cariocas e uma rinha – luta mesmo, disputa e desafio – com a obra de Raymundo Collares e a geometria sensível e ancestral acessada pelos neoconcretos. Sem  arrogância  ou desconsideração com quem veio antes, a artista afirma seu direito como produtora de imagens e como uma detentora de saber estético. Com muita sagacidade, inverte a lógica vigente no imaginário, sobretudo no discurso crítico, artístico e acadêmico, de que, por exemplo, Hélio Oiticica teria “descoberto” a Mangueira, e mesmo alçado a escola de samba a uma posição de visibilidade ao conceber os parangolés.

O trabalho de Agrade e a postura da artista, anos depois de a verde-e-rosa ter sido impedida de entrar no Museu de Arte Moderna com seus ritmistas e passistas na exposição Opinião 65, evidencia que foi a Mangueira quem empurrou Oiticica para uma redescoberta de si mesmo. Os saberes diaspóricos e periféricos reunidos ali colaboraram para que o artista desenvolvesse uma outra noção sobre corpo e participação coletiva, e a vivência do carnaval permitiu a ele que repensasse a transformação causada pela cor em movimento e a possibilidade de fazer dos corpos e da dança uma espécie de bandeira. O parangolé não deixa de ser uma encarnação do trânsito dos desfiles, da ideia de um percurso dançado que carrega uma narrativa e uma possibilidade de transformação.

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Ela é cria do subúrbio, ex-moradora de um conjunto habitacional – universo arquitetônico e social que alimenta sua obra com uma iconografia autoral e singular. Sua história foi avessada pelas muitas interdições às quais as populações das bordas do Rio de Janeiro enfrentam, e Agrade exige para si o direito à voz e, mais do que isso, à imaginação. É preciso afirmar essa luta, e ela também o faz recobrindo expressões de sufocamento ouvidas e vividas com pintura, com cor, forma e ficção.

“Nome sujo” é uma tela de grandes dimensões que exibe frases como “não pode rir muito” e “pratos vazios sem acordos” junto a uma iconografia que vem da infância suburbana, mas também do olhar para dois artistas estadunidenses – Mary Lovelace O’Neal e Noah Davis. Verticalizada, a obra traz acoplada  à tela uma grade com o grafismo de coração que remete a Sankofa, narrativa afrodiaspórica que lembra a importância de se olhar para trás, para o contato com os antepassados, para que se consiga avançar para o futuro. Voltar para pegar, seguir adiante. A grade, que pode ser movimentada por quem se põe diante da pintura, remete a uma ultrapassagem, a um estouro de um limite. É com esta pintura que Agrade mergulha fundo na ideia de calote, de uma escolha por “sujar o nome” para que não seja necessário pagar as dívidas injustas, não quitar crediários ou parcelamentos que em algum momento podem ter sido desejos manipulados ou impostos.

Outra pintura importantíssima para se entender esse processo é “Últimas oportunidades para você quitar sua dívida” – título retirado dos avisos enviados por celular pelos serviços de proteção ao crédito. Neste trabalho, a artista mescla o tridente de Exu, especificamente de pomba-giras como Maria Padilha ou Maria Mulambo, com pernas femininas abertas. Junto a esses desenhos propositalmente inconclusos, insinuados, que poderiam ser vistos de relance nos muros da cidade, estão outros pedaços de imagem e a inscrição “Tratar direto com a proprietária” com o número de celular da própria artista. Esta reafirmação de posse – do corpo, da obra – está ligada a uma ideia de gênese, de origem do mundo. Do próprio mundo. É a proprietária quem tem o poder de acordo com aquilo que lhe pertence – ela não deve nada, mas está disposta a cobrar de quem tem dívidas históricas.

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Mas é preciso que este texto volte a “Alligator”, e me reafirmo como passageira para acompanhar Agrade neste percurso. A série, que começou a ser concebida para a mostra coletiva “Crônicas cariocas”, no Museu de Arte do Rio, tem o poder de reafirmar,e, mais ainda, de redirecionar o trânsito de imagens e de poder.  Prova que as escritas em janelas, bancos e chassis  dos ônibus fazem parte de uma manifestação cultural, muitas vezes o primeiro espaço conquistado por artistas e pensadores pertencentes às classes que dependem do transporte público para se locomover. Isso está mudando, e esta exposição de Agrade, que já escreveu e desenhou nos ônibus, constata isso. Há um caminhar progressivo e constante na posse  de novos campos de manifestação.

Trabalho da série "Alligator"

Trabalho da série “Alligator”

Não abrir mão da própria força como geradora de ficção e do seu lugar no debate da arte talvez seja o gesto mais político realizado pela artista em “Quitação”. Agrade não quer limitar sua obra a uma reivindicação ou panfleto escrito a partir de sua origem, mas sim afirmar sua identidade como um estado de metamorfose, de si mesma e do meio de arte que ela conquistou. Não há dívida, nem pedidos de licença. O lugar da transformação – do imaginário, da própria pintura – é também o da abundância, como reitera seu “Coração cifrão”. A assinatura iconográfica com a qual ela já ocupou os muros das cidades e agora cobre uma das paredes da galeria pulsa como afeto, memória e fartura. O lugar da periferia não é o da miséria, e o entendimento de que a margem é próspera é uma premissa que ninguém conseguirá mais negar.

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IMAGEM DO CABEÇALHO:

Detalhe da pintura “Sentimental”, cuja íntegra se vê abaixo.

ARTES name agrade

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Todas as fotos foram feitas por Daniela Name e, mais do que um registro técnico, são testemunhos de um processo de interlocução entre crítica de arte e a artista.