Mangueira, quilombo

A Mangueira marcou para ontem o início da festa que apresentaria o samba-enredo vencedor para o enredo “História para ninar gente grande”, através do qual o carnavalesco Leandro Vieira celebra a História da rua, dos conflitos sufocados e das margens, além das figuras de Dandara e Marielle Franco.

E aí veio a chuva, e com ela a reafirmação de que a quadra da escola, assim como suas raízes mais profundas, estão em uma das maiores favelas do Rio, sujeita a riscos quando chove. Por volta das 23h, um apagão deixou o morro totalmente sem luz. Mas, na quadra mergulhada no breu, o que poderia ser uma catástrofe para as centenas de pessoas presentes, dispostas a cantar e a dançar, acabou sendo uma aula e uma catarse.

Como atravessar tempestades? Como enfrentar a escuridão com a alegria? O samba nos ensina isso desde que passou a existir. De madrugada, a Mangueira me lembrou que é possível se transformar em quilombo.

Os raios insistindo, sinfônicos, do lado de fora. E a bateria sem parar de tocar do lado de dentro, com as vozes espalhadas pela pista e pelos camarotes se somando à capela, na ausência de microfones para os intérpretes. Leandro e integrantes da diretoria da escola desceram do palco para se misturar aos presentes. Baile.

Dançando no escuro. Então é assim que vamos resistir?

Os passistas da verde-e-rosa me disseram que sim: começaram sua apresentação ali no breu, ignorando que o céu enviava ainda mais chuva, e que parte dela entrava na quadra através das goteiras do teto. Não havia nenhuma luz de serviço, mas eles evoluíram iluminados pelos celulares, vaga-lumes emprestando seu brilho para as plumas e lantejoulas, para os corpos que desfilavam ao som da memória – sucessos de carnavais passados.

CADD4207-055E-46D8-9C16-F77E0F20F0BEE aí veio o samba deste ano. “Brasil, meu nego, deixa eu te contar”, diz o primeiro verso criado pelo grupo formado por Deivid Domênico, Tomaz Miranda e parceiros (ouça clicando aqui). O que se viu na sede da escola, logo depois disso, foi a concretização da proposta do enredo – um acalanto transformado em canto de luta e resistência. “Brasil, o teu nome é Dandara/ e a tua cara é de Cariri”: Squel, uma rainha rodopiando com a bandeira mangueirense, acompanhada deste polichinelo sorridente que é Matheus. Que dupla de porta-bandeira e mestre-sala tem a Mangueira. Que dupla. O chão molhado podia fazê-los cair; mas eles giraram a ponto de nos levantar. Naqueles minutos – ao menos neles – foi como se já tivéssemos ouvido e lembrado as “Marias, Mahins, Marielles, Malês”, como pede o samba. A Mangueira foi o Brasil “que não está no retrato”.

A luz voltou pouco depois da apresentação do pavilhão. O breu durou quase duas horas, transformadas em três pelo avanço do relógio pelo horário de verão. Talvez a escuridão que vamos atravessar dure mais do que estamos pensando. Talvez entre água no galpão da nossa festa. Mas sempre haverá esse Brasil de “Lecis e Jamelões” que a Mangueira vem cantando. A escola pode não ser a campeã do próximo carnaval, mas já nos permitiu vencer algo muito mais importante – e é “na luta é que a gente se encontra”.

“São verde e rosa as multidões”.

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A foto destacada na abertura do post é de Fred Soares. A outra, no corpo do texto, é de Paulo de Carvalho. Vídeos postados pelo Sambarazzo.