Imagine a Terra como um grande teatro cujas tramas são cercadas de alegrias, tristezas, sucesso, tropeços… mas, acima de tudo, o palco perfeito para a realização de sonhos. A lona de um circo também é como um planeta: a materialização dos desejos é atravessada pela magia, pela arte e pela poesia.
Isso fica claro na programação 5º Festival Internacional de Circo (veja aqui), que termina no domingo, 18 de novembro.  Artistas de vários países estão se apresentando em 16 diferentes locais espalhados pela cidade.
Um deles, o picadeiro do Circo Crescer e Viver, está montado no berço do samba carioca, o bairro do Estácio. E foi com muita ginga, ali, naquele chão, que o jovem Richard Estrela deu piruetas sobre os obstáculos da vida para se transformar numa das atrações do espetáculo de abertura do festival. O jovem acrobata foi uma entre tantas crianças cariocas que passou por muitas dificuldades no início da sua caminhada. Ainda jovem, morava com a irmã num pequeno quarto do bairro carioca, onde viu a mãe morrer. Entre idas e vindas, foi adotado pela mulher dona da casa onde vivia, mas acabou em um abrigo para menores. Neste contexto, conheceu o Programa Circo Social, organizado pelo Circo Crescer e Viver, destinado a apoiar a formação de crianças que tenham talento para arte circense.
“Quando cheguei ao Circo Social, tive a certeza de que ali estava a minha casa. Ali, eu fui formado, virei um cidadão e encontrei o caminho para a minha vida”.

Richard sabe bem do que fala. Numa cidade onde a educação pública praticamente inexiste, qual seria o ponto final da sua trajetória. Ainda bem que no meio do caminho havia o circo. Ele percebeu que ali estava mais do que a sua realização pessoal. Era a sua salvação. Seguiu em frente e fez da arte circense a sua profissão. Atualmente, está em vias de completar o seu desenvolvimento no Programa de Formação de Artista de Circo (Profac) e viverá nesta semana uma noite especialíssima: quando se apresentará para o mundo exatamente na casa que o abrigou.
“É um sonho, sem dúvida. Foram tantas coisas, tantas pessoas. Um filme passa na cabeça, mas ainda bem com final feliz”.
Dentre tantas pessoas, uma estará ali à beira do picadeiro. Tão artista quanto Richard, e que, em outras circunstâncias, também encontrou no circo a sua conquista pessoal. Trata-se de Lurian D. Ainda menina, percebeu que sua realização necessariamente seria obtida sob uma lona. Formou-se na tradicional Escola Nacional de Circo. Atingiu o ápice da sua carreira quando passou a fazer parte do casting do famoso Cirque du Soleil.
“O circo sempre foi a minha vida. Tudo o que conquistei na minha vida eu devo a ele e sempre que puder vou retribuir de alguma forma”.
Uma retribuição que se manifesta de uma forma nobre ao ajudar na formação de novos talentos. Lurian segue a sua carreira artística, mas acumula também a função de professora do Profac. Ela é uma das mentoras de Richard e protagoniza um encontro de gerações ao dirigir a apresentação inaugural do 5º Festival Internacional do Circo. Lurian sai dos holofotes para oferecê-los a meninas e a meninos que assumem as rédeas para a preservação de uma das grandes tradições artísticas mundiais. Serão eles os agentes que vão nos levar até as lonas para nos passar a sensação tão bem descrita por Fabiana Moneró: “E quando o show acabar / Vendo a cortina se fechar / Pra sempre eu vou dizer / Que o melhor da vida é viver”.