Antes de mais nada, é bom dizer que Julieta, filme mais recente de Pedro Almodóvar que acabou de estrear no Brasil, é um grande filme, enorme, a despeito de certa decepção que os fãs dos filmes mais vibrantes do cineasta vêm demonstrando. E entre estes vibrantes há obras-primas incontestáveis como Mulheres à beira de um ataque de nervos eTudo sobre minha mãe, entre 21 longas.

No caso de Julieta, o estranhamento está ligado ao fato de que há um evidente choque entre o universo de Almodóvar com o da autora dos três contos que inspiraram o filme, a multipremiada canadense Alice Munro (1931), Nobel de 2013. São dela as histórias Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio, que integram o livro Fugitiva, de 2004, e adaptados com razoável fidelidade por Almodóvar.

No original, as histórias lidam com três fases da vida da mesma personagem, Juliet, que, jovem, deixa os pais para viver um romance com um pescador e depois lida em duas fases diferentes da vida com o retorno para “casa”, enfrentando o envelhecimento dos pais, seu próprio amadurecimento, e por fim experimenta o distanciamento cruel da filha, quase uma punição pelo seu próprio abandono dos pais.

É uma variação para o tema da “fugitiva” (runaway), do título do livro e do conto que empresta o título à obra, uma das melhores compilações da escritora.

Como sempre, Munro mostra um domínio total da narrativa breve, com exuberância, ironia, ambiguidade e catarse, por mais que suas histórias mimetizem o tempo lento e contemplativo (no melhor sentido) do ambiente canadense, ao mesmo tempo bucólico e urbano, cosmopolita e provinciano, moderno e atávico.

Tragédia grega e mitologia nórdica em três atos

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COM O FILME, Almodóvar volta a explorar o universo feminino

Munro e Almodóvar são mestres em explorar o universo feminino, ainda que (muito) separados pelo tempo e espaço. Mas Munro é uma autora da sutileza, do detalhe e do distanciamento, alimentados por uma grande cultura e erudição que a levam a utilizar na profissão de Juliet e de seu pai o estudo das culturas clássicas, ou a emprestar a mitologia nórdica para o fim trágico do amante-marido da personagem. No original, há personagens Penelope e Irene, por exemplo, que ganham novos nomes no filme de Almodóvar.

Curiosamente, a “Tchekóv de saias” também dividiu em três tempos, em três contos como que interligados, a jornada da sua heroína, como se dividisse seu destino em três atos, uma releitura (irônica) da tragédia clássica.

E Almodóvar é o rei do ‘melodrama’, visto simplificadamente como uma forma mais leve, dramática, moderna e popular, com encadeamento de ações e lógica. Com muito humor ou drama ou, ainda melhor, os dois.

ALICE MUNRO: tempo narrativo da "Tchekov de saias" difere do de Almodóvar

ALICE MUNRO: tempo narrativo da “Tchekov de saias” difere do de Almodóvar

Isto em nada desmerece a riqueza e a densidade da história de Almodóvar, adaptada para o universo espanhol/europeu. Sua maturidade e domínio da linguagem fazem deste um de seus filmes mais completos e ambiciosos, voltando a trabalhar a explosão de cores (alguém já estudou a sério sua ligação com o holandês Jos Stelling ou com a gama pictórica do cinema iraniano?), a ousadia estética, a atenção aos detalhes.

Sua Julieta é uma personagem trágica no sentido literal, triste e arrasada ou em vias de cair no abismo o tempo todo. A Juliet de Munro é uma personagem trágica no sentido clássico, vítima do destino, de suas próprias escolhas, de sua luta para tomar as rédeas da sua vida (como mulher independente, profissional, mãe, amante, intelectual, filha rebelde).

A “química” é complexa e funciona parcialmente, mas seria injusto dizer que o filme de Almodóvar não é muito bem resolvido. Vale a ousadia, a reverência inteligente a uma das grandes autoras contemporâneas, que quebrou mais uma barreira ao triunfar com seus contos em um universo literário dominado pelo prestígio do romance.

E vale também a provocativa comparação de Almodóvar com outro espanhol que implodiu o paradigma literário clássico e inconteste de seu tempo, e abraçou a forma popular com ironia, humor e paixão, e inventou o novo cânone que até hoje nos aprisiona: o romance moderno, criado por Cervantes.

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