Pierre Clastres e Paul Auster: os mistérios de uma tradução

Quando vivia em Paris, em 1972, o escritor americano Paul Auster ficou amigo do poeta Jacques Dupin, de quem traduzira alguns textos para o inglês. Dupin foi um dos fundadores da revista L’Éphémère, da qual fizeram parte em seus 20 números, publicados de 1967 a 1972, o poeta Yves Bonnefoy, o crítico Gaëtan Picon e o etnógrafo e escritor surrealista Michel Leiris. A publicação cobria várias áreas, da crítica literária a ensaios estéticos, numa época em que o mundo vivia sob as irradiações de maio de 1968.

Durante o séjour parisiense, chegou às mãos do escritor um artigo intitulado “De l’un sans le multiple” (“Do um sem o múltiplo”), escrito por Pierre Clastres, um jovem antropólogo que Auster não conhecia  — e que anos mais tarde ficaria famoso no Brasil por dois livros de ensaios: A sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência. Surpreso pela qualidade do artigo, Auster indagou a Dupin de quem se tratava, sendo informado de que Clastres fora ex-aluno de Lévi-Strauss e fizera trabalho de campo entre indígenas da América do Sul. Ele era considerado representante da nova geração, destacando-se por seus estudos de antropologia política, em que via nas sociedades ameríndias um projeto empírico de anarquismo.

Chamou a atenção do escritor a tessitura da crônica etnográfica do francês, cuja retórica configurava um subgênero situado a meio caminho entre a prosa literária e o relatório etnográfico. Não à toa, Clastres atraíra o olhar de Lévi-Strauss, dono de uma prosa elegante, como se pode ver em Tristes trópicos, além da profundidade de conteúdo. A singularidade estilística de Clastres, por sua vez, aguçara em Auster uma sensação de intimidade - evidenciada sobretudo nas situações de sincronicidade, serendipity, atos falhos, unheimliche, acasos felizes e trocadilhos; e expressas por figuras de linguagem como ironias, lapsos, piadas internas, entre outras. Tais elementos aproximavam a narrativa de ambos, surpreendendo o ficcionista.

Instigado por Dupin e a própria curiosidade, Auster buscou outros ensaios de Clastres, como o relato etnográfico sobre um grupo ameríndio nômade do sul do continente (os Aché, ou Guayaki, de família linguística Tupi-Guarani), publicado originalmente na França como Chronique des Indiens Guayaki: Les Indiens du Paraguay. Une société nômade contre l’État. Na tradução brasileira de Tânia Stolze Lima e Janice Caiafa foi batizado de Crônica dos índios Guayaki  — O que sabem os Aché, caçadores nômades do Paraguai, e publicado pela Editora 34. A etnografia partiu de uma premissa tripla: organização de clãs (e sua relação com o poder), divisão de tarefas e mitos religiosos.

No trabalho de campo, realizado em 1963 e 1964, Clastres descreveu dramas e ritos, assim como crenças. Também observou relações com o meio ambiente físico, a morfologia social e a divisão do trabalho. Desenhou árvores genealógicas de grupos e subgrupos, fez mapas e diagramas de acampamentos, e o inventário de utensílios usados no dia a dia. Descreveu ritos - mortes, nascimentos e casamentos, conflitos, marchas na floresta, bestiário, entidades mágicas e a relação do grupo com o poder coercitivo.

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Ex-aluno de Lévi-Strauss, Clastres fez trabalho de campo na América do Sul

Etnografia e estilo literário

Após voltar a Nova York, Auster se viu obrigado a diversificar sua atividade de escritor para sobreviver. Começou então a redigir perfis biográficos, fez resenhas, revisões e muita tradução, sua principal atividade nesse momento inicial. O grosso desse trabalho consistiu em tarefas que lhe rendiam pouco prazer, obrigando-o a forcejar o texto. Era, no entanto, impelido pela escassez de renda.

Inspirado pela prosa de Clastres, Auster observou a linguagem do francês, sobretudo a mescla equilibrada entre monografia e literatura  —  não à toa, sua etnografia é classificada pelo próprio antropólogo como “crônica”. Já o memorial de Auster intitulado O inventor da solidão é exemplar do estilo tomado de empréstimo ao antropólogo. Trata-se de um texto que pode ser lido como um romance ou como a etnografia urbana de uma família nuclear de classe média americana, subitamente confrontada pela morte e o luto.

Além da técnica literária, chamou a atenção de Auster a relação entre identidade e alteridade, uma velha preocupação da antropologia desde que os evolucionistas abandonaram as confortáveis poltronas de antigos institutos para ir a campo ver o que de fato acontecia  —  o que os aproximou não apenas dos nativos, mas também, paralelamente no plano estético, das experimentações de movimentos artísticos de vanguarda, que abalaram a narrativa convencional e historicista propondo uma arte visceral em que a relação com o Outro se tornou essencial.

A narrativa de Clastres o permitiu escapar de convenções acadêmicas, e a de Auster desenvolver um estilo literário próprio, equilibrando forma e conteúdo. Abriu-se assim um vasto campo de ousadia para a prosa de ambos, cuja raiz está na observação empírica associada à imaginação. Além dos cientistas sociais, também jornalistas e escritores preenchem suas cadernetas com dados observados empiricamente  —  basta nos lembrarmos dos casos de Mário de Andrade e Guimarães Rosa, para ficarmos em dois exemplos. A escrita de Clastres participa desse diálogo e é com ela que Auster se conecta.

Observador e objeto

Com essa percepção, o escritor se debruçou sobre os originais do antropólogo. No prefácio da tradução que fez para o inglês das crônicas sobre os Guayaki, Auster afirmou que percebeu que havia na escrita etnográfica não só um balanço da experiência de vida daquele grupo étnico, mas paralelamente um bom exemplo do trabalho de campo. A relação entre identidade e alteridade e a preocupação em evitar uma abordagem etnocêntrica deram a Clastres elementos para interpretar as situações daquela realidade.

Quanto a Auster, a crítica em geral atribui a qualidade de sua ficção a um olhar cinematográfico. De fato, a lógica de encadeamento audiovisual está presente em sua literatura, como se vê sobretudo após a realização do thriller Lulu on the bridge (O mistério de Lulu), filme que dirigiu, além de escrever o argumento e o roteiro. ­Romances como Leviatã, o citado memorial O inventor da solidão, e as histórias reunidas em Trilogia de Nova York, para ficarmos em poucos exemplos, reforçam essa impressão. Mas o que verdadeiramente fascinou Auster foi encontrar num texto etnográfico, em meio ao jogo entre identidade e alteridade, a possibilidade de uma prosa.

A saga da tradução

De volta a Nova York, antes de firmar-se na carreira de ficcionista, Auster tentou sobreviver como tradutor, aceitando encomendas que, embora não despertassem maior entusiasmo, garantiam sua renda. Era raro algum original atiçar seu interesse, como aconteceu com a monografia de Clastres. O texto sobre os Guayaki permanecia no topo de suas intenções, conforme o escritor relataria no prefácio da edição americana. Infelizmente, pouquíssimas editoras demostraram interesse pela tradução do francês, até que uma nova casa editorial  — pequena, porém, ousada  —  resolveu apostar no projeto.

Embora não conhecesse o escritor americano pessoalmente, Clastres ficou feliz quando soube da novidade e manteve com Auster uma intensa troca de correspondência, aderindo à iniciativa. O tradutor entregou a primeira versão dos originais à editora, e o projeto seguiu adiante para a etapa das correções e remendos, bem como observações do editor e do próprio autor. Tudo parecia correr bem, a ponto de o escritor americano nem se preocupar em fazer uma cópia dos originais.

Auster só se deu conta de que as coisas iam mal, quando as parcelas de pagamento dos royalties começaram a atrasar até pararem completamente. Na verdade, sem que Auster soubesse, a editora havia entrado com pedido de concordata, e os ativos, inclusive os originais do antropólogo, foram reservados para o acerto com credores e devolução aos autores.

Mas nem mesmo isso. Na confusão dos bens separados para o acerto, ninguém conseguia achar os originais. O escritor americano tentou sem sucesso reaver os papéis, frustrado consigo próprio por não ter feito uma cópia antes de entregá-los à editora. Auster se viu assim sem a versão da tradução (a essa altura já com as correções), completamente perdido no labirinto burocrático da massa falida e, o que é pior, Clastres morreu prematuramente, aos 43 anos, num acidente de carro. O caso ganhava assim um tom noir, evocando os enredos de sua ficção.

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Clastres e Auster juntos: ficcionista e etnógrafo no mesmo livro

Fim do desalento

Ao recapitular o ocorrido, Auster afirmou que ninguém na editora falida sabia dizer o que havia acontecido com os originais. “Ninguém sequer ouvira falar dele.. Foi como se nunca tivesse existido.” Com o tempo, o empreendimento caiu no esquecimento enquanto o escritor mergulhava num transe amargurado: “Perdi o ânimo e não consegui reescrever a saga sombria dos Guayaki”, conforme visto por Clastres.

Doze anos mais tarde, no entanto, durante uma série de palestras seguida por noites de autógrafos no Herbst Theatre, em San Francisco, Auster viveu uma experiência extraordinária. Durante a sessão de dedicatórias, o escritor foi surpreendido por um jovem, desses que chamamos de “rato de sebo”. Tratava-se de um colecionador apaixonado por livros, versões datilografadas, edições raras e coisas do tipo.

Para surpresa de Auster, ele lhe entregou uns blocos encadernados, era a versão não corrigida dos originais da tradução. Como narra o escritor no prefácio: “Lá estavam, subitamente em minhas mãos, as provas não corrigidas da tradução há tanto tempo perdidas. Na grande escala de eventos pode parecer algo banal, mas, na minha minúscula escala das coisas, foi algo vertiginoso. Minhas mãos começaram a tremer enquanto segurava os originais; mal podia falar.”

Sem saber dessa história, anos mais tarde, de férias em Nova York, entrei num sebo em Midtown Manhattan e esbarrei com uma edição da tradução, numa empoeirada loja de subsolo. Não acreditei na sorte inesperada de encontrar Clastres e Auster juntos no mesmo livro. Isso me permitiu refletir não só sobre o poder do acaso, mas também observar os elementos estilísticos que unia um escritor e um etnógrafo. Ao ler a introdução, soube dos obstáculos que ambos tiveram que superar. Fascinado pela narrativa de Clastres, que não chegou a ver a versão em inglês de seu livro, e sem conhecer sua pesquisa sobre os Guayaki adquiri o livro. Mais tarde comprei a versão original em francês, além daquela em português.

Só a edição americana contém o prefácio de Auster. Quanto ao conteúdo, os originais não só exigiram de Clastres uma arguta percepção antropológica, mas igualmente uma técnica literária refinada do tradutor. Uma evidência do caráter literário da etnografia.

 

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Crédito da foto de Paul Auster: Maki Galimberti/Houston Press/Divulgação

Crédito da foto de Pierre Clastres: Reprodução da Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia.