A Caju tem a honra de publicar texto inédito da crítica de arte, pesquisadora e professora Marisa Flórido Cesar, feito especialmente para a “orelha” do livro Cadernos do povo brasileiro (Relicário Edições), da artista e poeta Leila Danziger. Apoiamos o lançamento virtual da obra, que acontece em live no YouTube da Livraria da Travessa, no dia 7 de outubro, quinta-feira, às 19h,  com a participação de Leila e dos autores de textos críticos para o livro (Marisa, Márcio Seligmann-Silva e Luiz Claudio da Costa), além de mediação da curadora da Caju, Daniela Name.

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O corpo perdido, a palavra roubada, a memória apagada. Como fazer arte e poesia de um momento tão obscuro de nossa história? Sombra que não cessa de nos ameaçar e acossar. Como retirá-lo do esquecimento que se perpetua pela política de negação que se seguiu às aberturas políticas?

Leila Danziger nos responde com Perigosos, subversivos, sediciosos (Cadernos do povo brasileiro), instalação artística realizada em 2017 no Memorial da Resistência, em São Paulo, tendo como ponto de partida os arquivos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) – um desafio proposto por Márcio Seligmann-Silva. A obra é composta de dois conjuntos: de um lado, os retratos dos desaparecidos sob o regime militar, dos assassinados pelo Estado que se perpetuam nas periferias deste país. De outro, os livros censurados por motivações políticas ou morais, incinerados nas fogueiras de nossas intolerâncias e misérias.

"Perigosos, subversivos, sediciosos": um dos livros incluídos na instalação é o clássico de Mário Pedrosa, cuja capa foi feita pelo artista Aluísio Carvão. Reprodução fotográfica de Wilton Montenegro.

“Perigosos, subversivos, sediciosos”: um dos livros incluídos na instalação é o clássico de Mário Pedrosa, cuja capa foi feita pelo artista Aluísio Carvão. Reprodução fotográfica de Wilton Montenegro.

Mas como devolver aos desaparecidos o corpo devorado nas valas clandestinas, o rosto subtraído da convivência e exposto nas fotografias dos arquivos do Estado de exceção. Mais que isso, sem os ritos fúnebres, sem podermos enterrar nossos mortos, é o trabalho de luto e a difícil administração de sua perda que nos foi sequestrado. Como devolver a dignidade de seu nome, sua voz, sua morte? O testemunho de sua existência? E, como devolver às palavras caladas, o fogo de sua força irruptiva de nomear mundos, de recriá-los, de dar voz aos corpos sediciosos, às vidas perigosas?

Visualidade da palavra para rosto perdido dos mortos

Tratava-se então, para Leila, artista, poeta, de emprestar ao rosto e corpo perdidos o endereçamento das palavras, velá-los para revelá-los. Cobri-los com os paratextos que encontrou no manuseio das obras censuradas: dedicatórias, notas de pé de página, comentários, pequenos achados nos livros colecionados. Palavras íntimas dedicadas a um outro qualquer, derivas do pensamento rascunhadas, glosas que seguem marginais pelas páginas folheadas…

O outro advém como um rosto que nos interpela; abertura à alteridade, é o rosto em sua aparição que nos abre à alteridade, que nos designa à relação, que dá acesso ou rechaça mundos. O rosto é um chamado. Para Hans Belting, o rosto é o ícone do corpo, ponto de fuga para o qual convergem todas as imagens. Nos arquivos policiais, o duplo apagamento: o da morte invisível, o da indignidade da fotografia superexposta no fichamento.

Ao corpo perdido dos mortos, ao chamado de seu rosto apagado, Leila oferece a visualidade da palavra que um dia endereçou-se a alguém. É a palavra que agora responde à sua ausência presente, que o acaricia e o protege como um manto ou um véu no qual sua (re)aparição é a promessa latente.

Mortos do Estado de exceção ontem e hoje: série traz trabalhos sobre torturados pela ditadura, como Vladimir Herzog, e mortos pela violência policial e dos civis armados, como a menina Ágatha Félix

Mortos do Estado de exceção ontem e hoje: série traz trabalhos sobre torturados pela ditadura, como Vladimir Herzog, e mortos pela violência policial e dos civis armados, como a menina Ágatha Félix

Se o ícone do corpo ausente recebe as carícias das palavras; as palavras, os livros censurados, ganham então a carnalidade do corpo. Mútuo empréstimo, dupla permutação. Fixados por pregos de cobre (material nobre da tradição escultórica)na parede fria do memorial, os livros estão lacrados, crucificados, excruciados. Expõem-se como corpo sacrificado, como estigma que não permitirá que esqueçamos das feridas esuas dores.

Cadernos do povo brasileiro traz as reflexões de Leila Danziger, de Márcio Selligman-Silva e de Luiz Cláudio Costa, bem como as imagens da instalação. Nas páginas, o embate entre o que desaparece mas insiste, entre a desmedida de um acontecimento traumático e inassimilável e a insuficiência de qualquer mostração. Mas, por isso mesmo, necessária e premente. Ainda que seja para inscrever sua não inscrição.