A clínica psicanalítica está atenta às formas mais singulares de se fazer laço social. Nesse sentido, partiremos do que o psicanalista Jacques-Alain Miller (2003) chamou por invenção e daquilo que Claude Lévi-Strauss (1962) propôs como bricolagem para reconhecer, na interlocução desses dois referenciais – o primeiro da psicanálise e o segundo da antropologia, novas formas de pertencimento coletivo e de associação com outro ou, se preferem: modos menos ordinários de caber no mundo.

Com o psicanalista, aprendemos que a estabilização no terreno das psicoses se faz a partir de montagens inusitadas, assim como a obra de um artista, assim como a terceira margem no conto de Guimarães Rosa. Percebam, que J-A Miller optou pela palavra invenção em detrimento do termo criação, como usualmente escutamos relacionado ao fazer artístico, justamente para apontar uma diferença. Mesmo que superficialmente possam parecer muito semelhantes, principalmente quando consideramos o aspecto de que tanto a criação quanto a invenção indicariam um ato ou gesto de trazer ao mundo das ideias qualquer coisa que até então aparentemente não se era possível reconhecer, por outro lado se distinguem em uma condição essencial: enquanto a palavra criação nos indica o surgimento de algo a partir do nada (ex-nihilo), a invenção, por sua vez, se utilizaria de objetos e materiais já existentes (ainda que desmontados e aos pedaços) e oferecidos ao sujeito no reino do Outro. O sujeito, desfiliado da matriz repetitiva da neurose, precisa recolher esses materiais e com eles fazer alguma outra coisa, nesse sentido que ele inventa. Essas invenções seriam, portanto, artifícios, montagens, ficções, na maioria das vezes soluções simples e imperceptíveis aos olhares mais desatentos. São pequenas invenções, como um singelo nó de uma fita que amarra um ponto, um ponto de sustentação para o sujeito no mundo.

 Invenção, uma lição da psicose

Vamos situar um pouco as coisas para não lançarmos esses jargões psicanalíticos aos leitores estrangeiros à psicanálise. Portanto, digamos que em termos de estrutura, se no terreno da neurose se vive atado a um modelo monótono e repetitivo ao nível de produções de identidades e destinos muito parecidos, na psicose a coisa acontece um pouco diferente. Sabemos através do ensino de J.Lacan que a experiência humana não é um campo delimitado apenas por imagens ordenadoras (imaginário) ou por estruturas sócio-simbólicas (simbólico) que tenham por objetivo garantir e assegurar as identidades. A experiência humana também é território de forças disruptivas, forças estas que ele chamou por real. O real do léxico de J. Lacan diz respeito àquilo que não cabe no reino do simbólico, porque não pode ser traduzido em palavra, e que não poderia ser colonizado por uma imagem, pois não há representação possível do real. Dito isso, a experiência humana seria viável a partir do momento em que o sujeito pudesse amarrar, ainda que com um pequeno nó, os três registros: real, simbólico e imaginário. Antes disso não, pois sem essa amarração só haveria o caos. Nessa clínica lacaniana dos nós é possível socializar o desejo a partir dessa amarração, sabendo que cada um ata e desata as coisas de forma relativamente singular na neurose e literalmente extraordinária e excêntrica na psicose. Se os ditos neuróticos amarram seu burro na filiação tradicionalista do nome do pai e por lá desfilam todos muitos parecidos com seus ternos monocromáticos entre seus pares, na psicose é outra coisa senão como em uma dança entre sujeitos vestidos com os singulares e multicoloridos parangolés (década de 1960) de Helio Oiticica ou os humanoides (2001) de Ernesto Neto, moldados no conforto do encontro único entre estas esculturas flexíveis e cada anatomia que a veste.

Psicose é um dos nomes possíveis para a loucura, mas psicose não é só loucura. Em primeiro lugar, seria melhor dizer as psicoses, no plural, assim como o título do terceiro seminário de J.Lacan na década de 1955, afinal sua grande marca é a diferença – não entre o normal e o patológico (para não perdermos de vista a obra canônica de Georges Canguilhem), mas entre os sujeitos que por lá (ou aqui) se estruturam: cada um de sua maneira. É a partir do ensino de J.Lacan que dizemos que a psicose seria uma experiência possível à todo ser falante, à todos aqueles que possam atar e desatar laços sociais. Por que isso é importante? Porque para além da experiências disruptivas no que se convencionou chamar popularmente como loucura, a psicose também é terreno de alguma organização, e um sujeito psicótico organizado, estabilizado (como se diz formalmente no campo da Saúde Mental) deixaria a loucura em um canto socialsilencioso e, consideravelmente, discreto. Contudo, sabemos que a psicose tem seu lado mais barulhento, o “momento trágico do desencadeamento” como Neusa Santos Souza ensinava. E se ela sublinhou a diferença entre fenômeno e estrutura (1999), ou se preferem, entre a experiência psicótica e a estrutura psicótica, foi para nos comunicar esse pensamento de J.Lacan sobre a loucura.

ARTE PSI inventa ho

Nildo da Mangueira com o parangolé P15, Capa 11 – “Incorporo a revolta” (1967) – proposição de Hélio Oiticica que prevê a co-invenção daqueles que a experimentam. Acervo Projeto HO/ Claudio Oiticica.

Lacan uma vez disse que “não fica louco quem quer” (1946), o que significa que o fenômeno psicótico é dado a todos, como por exemplo através do uso de alguma substância psicoativa – tóxica de um modo geral, ainda que usada à título recreativo, mas tem um porém! A loucura, enquanto estrutura – uma psicose propriamente dita, trata-se de uma posição subjetiva de existência, amarrada no sujeito muito mais cedo, ou seja, estruturada antes de qualquer fenômeno. Para dizer de uma forma bem direta, diante de uma experiência que interrogue as nossas certezas, os neuróticos irão se agitar, mas não ao ponto de enlouquecer de verdade. O que seria o mesmo que dizer no popular, que os neuróticos balançam, mas não caem. Na psicose, por outro lado, é possível perceber que sujeito estabeleceu uma relação com a verdade e o saber muito mais rígida e com pouca margem de argumentação. Lembrem que no que diz respeito à experiência humana, tal como descrevemos entre os três registros (real, simbólico e imaginário), o campo do simbólico supõe uma falta, um espaço vazio estrutural (como próprio da linguagem), onde o neurótico diante da pergunta o que o Outro quer de mim? irá responder com o seu desejo: desejo que escapa, desloca-se metonimicamente para ser relançado, mantendo esse lugar vazio como uma margem. Por outro lado, o sujeito estruturado no terreno de uma psicose tentará preencher esse espaço vazio de modo total, pois a aquela pergunta (a intimação pela via do desejo) aqui é insuportável, opressora, pois o convoca inteiro para que ele compareça com o corpo (sem palavra). Assim, a resposta pode aparecer como reconstrução de toda a realidade, para que nela ele possa caber sem que precise do sacrifício do corpo. Nesse sentido, diremos que seu laço com o desejo (do Outro) é muito fino, extremamente singular e por vezes, sequer verificável.

Marcamos aqui qualquer coisa pela marca da estrutura, mas é importante lembrar com J.Lacan que isso que acontece na psicose não é uma deficiência, mas uma diferença. Nestes termos, psicose e neurose para J.Lacan seriam dois arranjos distintos de entrada para o sujeito na estrutura da linguagem que o antecede. Lembrem-se que essa estrutura já estaria antes por aqui, antes do primeiro indivíduo chegar. E se no modelo da neurose o sujeito se filia ao saber do pai – encarnação do saber(suposto) do grande Outro, assumindo nele uma falta fundamental e deixando por lá um vazio, o sujeito no terreno da psicose é tomado por um impossível, pois o Outro é grande demais e pior, é completo, a ele não falta nada, o que o deixa com um aspecto ostensivo, com uma presença maciça ao ponto de constranger o sujeito, deixando-o a todo tempo ameaçado e em perigo. Mas se ele insiste em viver e criar uma defesa frente a este deserto perigoso e ameaçador que o acossa, o psicótico constrói uma fantasia delirante, como Neusa Santos Souza uma vez escreveu, ou se preferem, um delírio, assim como Freud formulou no seu famoso caso Schreber (1911), onde ele formulou sua famosa frase: “o delírio é uma tentativa de cura”. Contudo, aparentemente existe um modo mais sofisticado de lidar com o real e que os neuróticos pouco sabem sobre ele. Isso que J-A Miller chama por invenção, diríamos: uma tentativa singular de habitar o tecido social.

invenção, criação e bricolagem[1]

A invenção, nos termos propostos por J-A Miller (2003): “está condicionada ao que há de mais essencial na psicose”. Se o artista cria, a psicose inventa. Essa ideia nos convida a mergulhar nesta escolha semântica para traçar alguma relação possível entre estas duas operações. Se o artista cria ex-nihilo para nos entregar alguma coisa que chamamos arte, o sujeito desarraigado parte de elementos e fragmentos estáveis e pré-existentes ao seu redor e com eles iniciar um trabalho de amarração. Nem sempre há lirismo nas montagens da psicose: elas apenas são e funcionam para o sujeito – o que confere a estas, senão apreço estético e poético como no caso do artista, valor de bricolagem. Esta última, no sentido mais comum da palavra, aponta para um ato e/ou processo que envolve um certo apanhado de materiais diversos e independentes entre si, com o posterior rearranjo e/ou colagem desses elementos para formação de um novo objeto. No livro Pensamento selvagem (1962), Claude Lévi-Strauss confere ao termo uma especificidade: ele passa a ser associado à criação artística. O antropólogo introduz a articulação entre a idéia de bricolagem e arte, dizendo que todo artista teria um lado cientista e outro bricoleur. No entanto, ele marca uma dissimetria pelas funções inversas que o artista atribui ao fato e à estrutura, pois o lado cientista criaria fatos (para mudar o mundo, por exemplo) através de estruturas e o lado bricoleur, por sua vez, criaria estruturas através dos fatos. Ainda que tal fórmula seja imperfeita ou “inexata”, como ele  mesmo diz, ela nos serve para situar o campo aberto pela apropriação da idéia de bricolagem na arte. Tal distinção entre o bricoleur e o cientista – ainda que os dois possam ser encontrados nas duas supostas faces do artista – coloca nossa investigação na trilha de um determinado fazer, que não se interessa tanto por criar fatos e mudar o mundo mas por produzir estruturas – objetos que, em si, não importam tanto por sua serventia.

Ainda munidos deste pensamento, aprendemos que a bricolagem tem por característica a elaboração de conjuntos estruturados por resíduos e fragmentos de acontecimentos. Os elementos são recolhidos ou conservados sem que haja qualquer idéia preconcebida do que se necessita. Cada elemento vale por si e não por sua relação com outro elemento, de modo que o bricoleur não trabalha com uma regra definida: cada elemento utilizado na bricolagem representa em si mesmo um conjunto de relações.

 Em um determinado trabalho sobre as psicoses ordinárias, o psicanalista Marcus André Vieira (2018) propõem traçar uma relação entre bricolagem e amarração, destacando a possibilidade de uma produção (invenção-bricolagem), que permita ao sujeito forjar para si um lugar no campo do Outro. Uma invenção que se sustente e, especialmente, possa ser reconhecida como tal. Nesta perspectiva, ele diz que “conta menos que se entenda o que está sendo amarrado e mais a certeza de que está: um efeito de deu liga”. Não se trata de desprezar o saber e o sentido, mas inverter um pouco a relação de temporalidade lógica. Ele explica que seria como se concebêssemos algo como “amarre, bricole primeiro, para somente depois revelar o resultado”. Não é assim que alguns artistas fazem? Pois é assim que aparece por vezes na clínica e, talvez, essa tenha sido mesmo a proposta de J. Lacan com a sua clínica dos nós, uma clínica amparada, por que não dizer, no fazer bricoleur.

 Nós, os analistas que decidimos construir a nossa clínica segundo às orientações de Lacan, não só no campo da psicose, mas sobre o sujeito de um modo geral, sujeito do desejo, que nos apaixonamos pelas palavras porque nos inclinamos para escutá-las para além do que elas enunciam; nós que deixamos ecoar as palavras ditas no divã para que elas possam ser escutadas em sua potência significante, assim como lemos uma poesia, deixando a palavra ressoar o dia inteiro, ou quando escutamos uma piada e sabemos que o sentido final se espreita para ao final nos surpreender; nós tomamos o delírio como uma “solução elegante” nas aspas de J.Lacan. Uma solução onde as palavras organizam o caos do significante, o enxame de imagens e verdadeiro turbilhão sonoro de signos vazios de sentido e significação, para que através de um verdadeiro trabalho de estilo seja possível a insistência de marcar a singularidade do sujeito na socialização de algo do seu desejo no campo do Outro, ainda que distante de qualquer filiação. Eis o árduo trabalho da psicose, que nós analistas testemunhamos em nossa clínica, não mais como seus “secretários”, como bem disse Lacan (1955-56).

Foi como secretários e testemunhas destas montagens inusitadas que nos foi possível reconhecer essas invenções, digamos menos tradicionais e, portanto, menos neuróticos, de se fazer laço com o outro. Talvez esses modelos de estar no mundo pertençam às configurações subjetivas que reconhecemos como próprias da psicose, mas talvez não só. Talvez não seja privilégio do artista criar ou exclusividade da psicose inventar para caber no mundo, para se relacionar com o outro. São inquietações, e a arte contemporânea nos convoca a refletir e a apontar, sem resíduo de hierarquia, na direção desses gestos singulares para querer saber um pouco mais sobre eles. Dentre os enlaces e amarrações extraídos do referencial analítico da clínica e do litoral teórico entre invenção e bricolagem seguimos recolhendo e reconhecendo formas particulares de subjetivação.

[1] texto produzido a partir da pesquisa coordenada por Marcus André Vieira (PUC.Rio) no Instituto Philippe Pinel em 2019.

+++

IMAGEM DO CABEÇALHO:

Foto de André Abu-Merhy