Estou mobilizado para escrever aqui em poucas linhas a experiência de vivenciar a exposição Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros em minha última passagem por São Paulo. A mostra está no Instituto Moreira Salles, localizado na Avenida Paulista, curada cuidadosamente por Hélio Menezes e Raquel Barreto.

A imagem que anuncia esta escrita se inspira no texto de Ana Paula Lisboa, no qual a escritora expressa: “de todas as imagens de Carolina Maria de Jesus, a minha preferida é a do aeroporto”. Mesmo que isso amplie a dimensão casa que pretendo debruçar aqui, entendo que é pelas viagens que Carolina nos alcança. A imagem também convoca e entrega poder. Uma mulher negra, sorrindo, em frente a um avião, no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, rumo ao lançamento de seu livro Quarto de despejo, no Uruguai

Refletindo agora mais aproximadamente no conjunto da  exposição, e convocando um diálogo com o sorrisão de Carolina acima, fui abruptamente envolvido pela força da obra Luz negra de Mônica Ventura, que enuncia: “uma mulher negra feliz é um ato revolucionário”, frase da escritora e ativista Juliana Borges. Situada e suspensa no segundo segmento da mostra, dividida em dois andares do prédio da instituição paulistana.

Neon de Monica Ventura em uma das salas da exposição sobre Carolina Maria de Jesus no Instituto Moreira Salles de São Paulo. Lela Beltrão

Neon de Monica Ventura em uma das salas da exposição sobre Carolina Maria de Jesus no Instituto Moreira Salles de São Paulo. Lela Beltrão

Expografia imantada colabora para o diálogo entre as obras

O arranjo expositivo transborda pelas costuras entre escritas, e as muitas visualidades e linguagens de obras no espaço. A expografia se coloca como campos de imantação, colocando em choque as projeções literárias, os documentos-resíduos e as possibilidades outras ali em diálogos, de uma literatura que vaza para o espaço, e inunda os espectadores.

A exposição se desenha a partir da trajetória e da produção literária da autora mineira, e nos apresenta um mergulho em sua produção autoral, passeando pelas vivências, publicações e outras experiências. E destaca, seus encantamentos como compositora, cantora, artista circense. Uma pessoa de construções plurais.

“Quando eu era menina, eu pensava será que vou viver como desejo?, comprar vestidos bonitos, residir numa casa vermêlha, a aminha cor prêdileta_ Agora que comprei a casa naão me foi possível pinta-la  de vermêlho.

Porque os padres havia de dizer: a  Carolina é comnista”.

Carolina Maria de Jesus
Painel de abertura da exposição: paredes vermelhas, cor favorita da escritora. Foto de Adima Macena.

Painel de abertura da exposição: paredes vermelhas, cor favorita da escritora. Foto de Adima Macena.

Na casa-exposição de Carolina, de paredes vermelhas assim como sua cor preferida,  a curadoria recorre a nomes fundamentais para esta grande costura, como Maria Auxiliadora (1935-1974), Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) até os contemporâneos, Ayrson Heráclito, Dalton Paula, Eustáquio Neves, Paulo Nazareth, Rosana Paulino, Silvana Mendes, Sonia Gomes, Antonio Obá entre outres.

"Meada", de Antonio Obá, um dos retratos de Carolina na exposição curada por Raquel Barreto e Hélio Menezes

“Meada”, de Antonio Obá, um dos retratos de Carolina na exposição curada por Raquel Barreto e Hélio Menezes

 

Uma coisa encantadora é a aposta que a curadoria faz nas interlocuções plásticas com artistas jovens, inserindo uma cena outra no espaço, no tempo e na dinâmica das subjetividades entrelaçadas pelas palavras, escritos de vida e outras contaminações trazidas pela autora. E estes eu faço questão de sublinhar.

Nas arquiteturas narrativas se colocam: Os usos da raiva, de Ana Clara Tito; o lindo vestido comissionado, e elaborado por Rainha Favelada; o expoente colar de pérolas de Lidia Lisboa; as bandeiras de Mulambö e Jefferson Medeiros dialogando com a também emblemática de Leandro Vieira; os papéis pardos de Maxwell Alexandre; a aparição em meio ao lixo de Rafael Bqueer. Também se ergue, no emaranhado entre os trabalhos, o Monumento à voz de Anastácia de Yhuri Cruz.

Os textos de Carolina e sua própria letra aparecem em diversos formatos pela expografia, os manuscritos nos atrai e instiga pelas particularidades textuais, bem como alinha conexões entre a escrita e as muitas visualidades organizadas entre os núcleos temáticos. A exposição revela uma Carolina atenta ao Brasil e às estruturas racistas e opressoras que o compõem. Nas insubordinações e contestações de um cenário que insistentemente se reinventa, permeado por delírios e surpresas.